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quinta-feira, 14 de maio de 2020

Só quer ser

Arte heads in clouds por @chantal_horeis


Sim, eu quero ser a diferentona. Quero ser a espertona, sabichona, gostosona e fodona. Eu quero ser tudo isso que você fala com ênfase de pessoa nojenta e invejosa. Um veneno esguichado por palavras comparativamente medíocre.
Ôcre, foi esta palavra que usei para determinar o tom de alaranjado no mapa gráfico. Todas olharam para mim com desdém. Já conheço esse semblante. Isso significa que elas se sentem inferiorizadas pelo meu conhecimento. Elas repetem a palavra que desconhecem em tom bem característico, você conhece qual.
Sempre foi assim. Em casa, na escola, na rua, e agora no trabalho. Ninguém gosta de gente inteligente por perto, ao menos não por muito tempo. Aqui, foram quase 36 horas até começarem a me odiar. 
Não digo ódio como o extremo oposto do amor, claro que não, é só uma intensificação literária para o resumo de desprezo, desgosto e apatia que elas geram em si ao me ver. É notório que não sou bem-vinda aqui. Era assim em casa quando eu era pequena, os mesmos semblantes. Apanhava dos meus irmãos mais velhos, dos meus pais, dos vizinhos e dos familiares. Sempre que eu falava ou perguntava algo que eles não gostavam ou não sabiam o que significava. Ela está zombando de mim?Sempre era uma surra. 
A gente aprende o que é dor, a suportar a dor, a não chorar ainda que você tenha que ir sozinha ao posto de saúde mais próximo após uma surra do seu pai por corrigi-lo enquanto falava mal do prefeito na televisão. A gente aprende a guardar a dor, bem, foi isso que eu aprendi depois de ficar três dias hospitalizada curando a hemorragia dos meus rins. Sim, fui atropelada.
Eles não sabem que o ônibus que me atropelou veio aqui saber o que eu tinha dito. Depois de confirmada simulação, foi para casa ou ao bar continuar bebendo. Alcoólatra a palavra.
Guardei a dor desses dias de casa, as dores da escola, da vizinhança até que consegui um emprego durante a faculdade e fugi de casa. Literalmente fugi, não disse para onde ia, com quem ou se voltava. Eles nem sabem que eu fiz o teste para faculdade. Só deixei um recado na porta da geladeira "obrigado e adeus".
Ôcre, foi esta a palavra que o médico falou que estava a cor de minha urina por conta do sangue dos rins. Algumas coisas nos marcam para sempre. E sim, vou continuar com o meu trabalho, afinal de contas, é com ele que eu pago a minha terapia psicológica que me mantem aqui, firme e forte.
Foi através dela, primeiro de um modo gratuito e comunitário, que aprendi o que era violência e que a culpa não era minha. Não na família, não na escola, tampouco na vizinhança. A culpa nunca foi minha. Esse peso que deixei para trás pouco-a-pouco, os quilos de culpa que escorriam face após cada sessão falando sobre mim, sobre as coisas, sobre tudo.
Sim, eu quero ser a diferentona. Quero ser aquela que carrega um livro consigo para todo canto, que aprecia o folhear nos dedos enquanto você dá like. Não é uma competição, é uma satisfação. Uma satisfação imensa de que eu simplesmente posso olhar ao redor e não precisar mostrar algo que não sou. Aos poucos, se elas quiserem, vão perceber que eu só sou mais uma garota que quer ser feliz, que sofreu um bocado, que gosta de aprender e que não quer o sol de ninguém.
É um trabalho em equipe, não é uma competição. Repito isso sempre que surge o silêncio ensurdecedor após a apresentação de material. Algumas passam a entender, outras são resistentes. Será que isso será o suficiente? Nunca saberemos.
Estarei aqui, aprendendo e ensinando gentilmente, porque esse é o meu trabalho e, principalmente, porque pode melhorar o mundo em que quero viver. 


domingo, 28 de maio de 2017

A Festa.




Passei a camisa para estar impecável quando tirar as fotos. A calça já vestida combinada com os tênis de cano alto. Dobrei as mangas com precisão, alinhei os botões. Dentes escovados, perfume nos estratégicos lugares e cabelo arrumado. Meu corpo estava pronto para uma noite com os amigos, e os amigos dos amigos, e os conhecidos estranhos de sempre. Sabe, todas as festas que acontecem por aqui são iguais, nenhuma vale a pena ir, mas todas arrastam histórias memoráveis e dignas de prestígio. Já tinha se passado umas duas horas desde quando recebi o convite para a tal festa. Fico bem contente quando eles me convidam, isso porque ninguém jamais me chama para nada. Nunca mesmo. Mas dessa vez vai ser diferente. Eles mandaram o convite, indicaram o local e disseram que todos irão se encontrar lá na entrada do evento. Confiro as horas no celular. Vejo que tem algumas atualizações nas redes sociais. Vejo os comentários de animação, os nomes em azul riscado, conheci todos logo de cara, o meu não está ali. Acho que esqueceram de pôr, ou nem deu tempo. Mais uma foto. São três deles bebendo na casa de um quarto conhecido. São amigos meus do trabalho, bebendo juntos antes da festa. Eles devem morar próximos também, porque é aqui no prédio da frente do meu. Acho que eles vão dali mesmo, vou perguntar. Enquanto espero eles responderem vou ver se os outros já estão lá. Ligo. Ninguém atende. Tento outro. Também não. Devem estar ocupados. Meu vizinho respondeu. Ele é bacana, trabalhamos juntos e ele, às vezes, fala comigo. Respondeu que já estão indo. Respondo em pergunta se podem me esperar descer. Diz que não tem vaga no carro. Hum, okay. Uma live acontece na outra rede: estão correndo na garagem do prédio. Um, dois, três carros para quatro pessoas. Apago as luzes do apartamento devagar como sempre. Olho pela janela todo aquele movimento lá embaixo. Bem que eu poderia ser um deles. Poderia. Eles se conversam no vídeo falando todos que estarão na festa e não falta ninguém. Claro que nem cogitam o meu nome, isso é tão óbvio. Deixo o celular de lado e volto ao banho. Tirar o tênis, a calça, a camisa bem passada, ficar completamente nu(a) para tirar o cheiro do perfume que convida. Não me demoro. Ponho meu pijama e deito. Ficarei assistindo toda a festa acontece até conseguir dormir, geralmente é isso que acontece. Ninguém sentirá minha falta e, na segunda-feira, quando por acaso me esbarrar com algum deles, apenas o meu amigo que fica exatamente na mesa do lado vai comentar algo depois de perceber que não fui. Na verdade, ele vai perguntar o que eu achei da festa, pois nem ele vai sacar que não fui. Assim, de maneira invisível, como o rubor da noite, será mais um sábado. Não fico triste por ficar só enquanto a noite está acompanhada, fico triste por fingirem se importar. Acredito que o que mais esfria a minha noite agora não é a brisa fria de fim de maio, nem a possível garoa tardia. O que desaba qualquer calor em minha cama é o molhado no travesseiro que fica até eu conseguir dormir. Quem sabe no próximo final de semana eu vá para algum lugar também? Quem sabe alguém apareça aqui em casa para algo trivial? Quem sabe eu consiga dormir cedo em vez de chorar, tentando secar a solidão?

domingo, 5 de março de 2017

Deixe acontecer.

 Tudo sobre mim.
 Tudo sobre mim.
 Era tudo sobre mim.
 Eroticamente, pus as mãos na abotoadura da bermuda e te olhando fixamente, baixei-as tão devagar quanto pude. Um pé suspendeu para que logo o outro pudesse se livrar do pano que vos chamava atenção. E na minha cabeça, tudo era erótico. Você não pisca, não se move. Tacitamente aceita minha presença ali, nas areias que um dia ninguém conhecia. Você, estranho que nunca se esbarrara comigo antes, estava no lugar que nunca estive, e descobriu meu crime. O que mais poderia fazer a não ser aceitar sua presença? Com as mãos ao redor do corpo, percorri cada parte, me certificando, pausadamente, que ia ficar completamente pronto, despido para o que estava pronto. Para o que já sai de casa pronto para enfrentar. Mordi a boca com cuidado quando pisei fundo para guardar as vestes em local seguro. Fiquei com medo de te perturbar, mas se você mexeu eu não percebi. Estático como um mero bibelô, ficou ali até que pudesse me perder de vista. E foi assim que, nas areias mornas de saudade, nos vimos e nos despedimos, como se nunca houvesse tido esse momento. Caminhando maciamente para dentro das águas, olho por ombros e te vejo ainda lá, começando a caminhar leve, talvez sem destino, como se em resposta ao que fiz. Deixei acontecer um dia de sol.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

1963



Faltou chover para finalizar a morbidade deste dia que ousa começar. Pronto. Agora está chovendo. Me parece que o êxito hoje é todo dele. Levanto da cama com a cabeça sendo esmagada por uma ressaca maldita, lembro de ter aceitado a bebedeira como ato unânime de redenção. Não consigo levantar, não quero. Sucumbo ao marasmo e fico sentada, tentando respirar algo além do cheiro de álcool que suo. Derrotada e sem tentar, imagino a vida dessas mulheres perfeitinhas, brancas como leite, loiras, de sorriso impecável. Vacas. Todas vacas. Pedaços de carne que vão apodrecendo até ninguém querer mais. Um risinho sufocado me vem ao começar a lembrar dela, a outra. Apanho um cigarro na cabeceira, não me vem ligar o abajur, não convém sair antes das duas da tarde e, por isso, nem busco as horas. Sou livre, faço o que quero. Eles rastejam aos meus pés, tenho dinheiro, fama e um marido. Ou melhor, tinha um marido. Não sei se puseram meu clamor em ação. Agora me arrependo de pedir ao meus seguranças que dessem um fim nele e, principalmente nela. Aquela branquela nojenta. O cigarro vai me inflando e derramo no ar o espesso gasoso de pura nicotina. Vou parar de fumar depois desse, prometo. Minhas costas doem, meus pés doem, e eu quero morrer. Preciso encarar os jornalistas escrotos que só acham manchete em relações desastrosas. Claro, não sou perfeita, mas ele quem deve estar com o crédito de maior canalha que alguém pode conhecer. Levo a mão ao rosto enxugando as lágrimas, sinto a mão tremer, o cigarro treme junto. E sinto uma mágoa, mais raiva e tristeza que me faz desabar. Um buraco que me suga para dentro. Se pudesse, sumiria. Vou voltar a ser anônima por um tempo, talvez até dê. O carpete se corrói em cinzas e bitucas, este quarto cheira a ressaca. O enjoou quer tomar conta da dor de cabeça. Decido levantar e, como mais um dia, postar meu eu ao que realmente me liberta: a música.
Porque sou mulher, porque sou negra, porque sou Simone.  

quarta-feira, 2 de março de 2016

As crônicas da alma viva: A hora extra (parte 4)



 Tomar o fretado rumo casa é quase que religioso, acabamos por conhecer os madrugadores da operação, quase sempre as mesmas pessoas. O motorista aguarda mais cinco minutos antes de partir. Sobem mais algumas mulheres, outros dois rapazes e por fim, o ônibus está meio cheio, meio vazio. Somos umas vinte pessoas quase. Fico próximo da porta de embarque pois gosto de ouvir o clique da porta ao fechar, isso me desperta. A rota é a mesma, estarei em casa em vinte minutos. Ele segue rumo ao fim do mundo, próximo da universidade, vai adentrando em ruas largas, depois as casas vão se estreitando, grandes portões, largos portões, portões, portas, portinhas... De casas para vilas. A conversa dentro do veículo é amigável, alguns conversando sobre o dia de trabalho, outros ao celular com familiares ou amores, não sei ao certo, e eu. Bem. Eu continuo aqui, tentando não pensar e nada a não ser chegar em casa e dormir. O balançar contínuo do ônibus embrenhando nas vísceras da cidade me embalam. Tento não cochilar, porém é em vão. Meu ponto é bem longe daqui e ainda nem deixamos a primeira pessoa. Uma grande imensidão negra escorre pela janela. Chegamos. Uma mulher desce do ônibus, acena para nós e logo sobe em uma motocicleta rumo à escuridão. Ela está entregue. Faltam apenas 6 para chegar a minha vez. Acordo com o bater da porta. Afasto em supetão a cortina da janela, corro olhos em busca de localização. Passei do meu ponto! Merda. Merda. Merda. Oi? Respondo para garota do lado. Ah, okay. Respiro em alívio. Ela me conversa que um rapaz pediu que fosse pela outra rua porque houve um bloqueio da companhia de saneamento. Estamos no número 4, faltam dois. Sorrio para a jovem com receio, acho que ela percebeu que eu cochilei com vontade dessa vez. A adrenalina não me permite mais dormir. Pigarreio. Tomo posição na poltrona. Risco a pista com meus olhos cansados. Uma breve chuva arrisca despencar. Alfinetes d'água fagulham no ar. Estudo os céus com temor, mas não haverá mais que uma leve garoa. O ônibus para ao sinal vermelho. Foco na esquina desconstruída do caminho que desbrava matagal. Há uma pessoa ali, na sombra. Na penumbra. Assaltante? Está ereto. Convicto. Não há contorno de gênero, pode ser qualquer pessoa. Ser andrógeno e sinistro. Desvio o olhar. O ônibus segue pista livre. Encaro novamente o ser. Ele não mais ali. Com certeza um bandido! Esperando a próxima vítima. Claro. Muito acontece por essas horas da madrugada. E principalmente quando está pra chover. Desce o quinto, o veículo indica à esquerda, primeiro condomínio. Após vários e vários metros e mais metros dentro dos condomínios, o sexto salta e saúda o motorista. Agora minha vez. O ônibus faz a volta, uma meia lua com proeza. Levanto da poltrona e vou para cabina do motorista. Ora, ora, diz ele sorrindo. Conversamos enquanto o vários e vários metros no traz de volta a pista principal. Passa a entrada do segundo condomínio. Pega a entrada do penúltimo. Alguns minutos e já salto na frente de casa. São e salvo dou tchau, atravesso a pista, passo pelo portão automático, atravesso a pista dentro do condomínio e sigo o calçamento até meu bloco, não há ninguém no parquinho, o balanço da esquerda está em movimento, não há som de criança, apenas o distante barulho do fretado com pretensões de desviar de buracos, subir as escadas é uma jogada dura depois de um dia longo, seguindo de hora extra então? A luz do hall me felicita, verifico os comunicados no mural rapidamente, subo as escadas. As luzes automáticas do primeiro piso avisam que estou chegando, logo acendem, logo apagam, só me deixam iluminado pelo movimento de continuar a subida. No segundo lance de escadas já procuro pelas chaves de casa, a luz automática não acende, continuo meu caminho, ela acende atrasada, dentro da mochila pego a chave com impulso, a luz se apaga, faço movimento, ela acende, derrubo as chaves sem querer, com o movimento de apanhar, a mochila desce o braço pousando-se também no chão, a luz se apaga, levanto de supetão junto com as coisas, a luz se acende. No final do corredor alguém me assiste. Um contorno sombrio me encara, não enxergo sem os óculos. Respiro tremidamente. A luz se apaga. Faço movimento para abrir a porta. Rápido. Mexo as voltas da chave. Não consigo acertar a fechadura. Tento abrir a maçaneta. A luz se acende. Olho com medo novamente pro corredor. Nada. Avisto a fechadura, coloco a chave. A luz se apaga. A porta abre. Entro rapidamente. Tiro a chave. Fecho a porta. Tranco. Ofegante, dou passos para trás. O medo revira estômago, tremendo limpo a testa de suor pesado. A luz se acende. Prendo a respiração. Estou no escuro. Minha casa está em pleno breu. A luz do corredor nasce na fresta da porta, o chão se irradia. Alguém está do outro lado. Dá pra ver pela sombra por baixo da porta. Não consigo respirar. A maçaneta tenta girar vagarosamente. Ela vai girando como uma aplicação de injeção que doí, suavemente até o final. A luz se apaga. O telefone toca.   

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

As crônicas da alma viva: A hora extra (parte 3)

 A tela acinzentada toma conta novamente. Disponível emparelha em verde. Respiro fundo. Clico em deslogar. Por hoje basta. Quero esquecer essa maluquice, não posso surtar. Finalizo o programa, fecho as abas de instrução, do financeiro e da tabela de preços e ofertas. Fazer logoff. Aperto novamente no dac para saber que estou saindo. Preciso apenas dormir. É disso que preciso. Rio comigo mesmo. É cada coisa que acontece com a gente que... olha, sei não viu? Retiro a espuma do headset, o tubo de voz e sigo rumo casa. Me despeço das pessoas com um breve aceno de estou-caindo-fora-otários e para alguns um aceno até-amanhã, disfarço meu ofegar, sinto aquela agonia da única gota de suor desbravando a testa. Enxugo com a camisa, ombro testa, vejo a garota com o cabelo azul descer as escadas. Caça ou caçador? Será que foi ela? Ou melhor, será que foi com ela? Ou para ela? Apresso os passos, a catraca demora para ativar o bip de acesso permitido, jogo o crachá de passe novamente. Ela aceita, passo apressado. Vou até a escada, mas nada da garota. Droga. Não lembro o nome dela. Ela está sempre por aqui, mas nunca a vejo com frequência nas mesmas horas que eu. Dou meia volta e ando aos armários. 251, 252, 253. Tarantulo os bolsos em busca das chaves. Abro o armário e pego minha mochila. Ouço alguém falando meu nome. Fecho o compartimento. Aguardo um pouco. Sigo os passos ocultos no mármore com os ouvidos. Vou lambendo com a atenção o corredor de trancos e trancas. Me deparo com a entrada dos banheiros, masculino direito e feminino esquerdo. A porta deste ultimo está encostando pelo gancho automático. Alguém passou por ali agora. Agora. Respiro fundo. Olho de volta. Armários intactos, ninguém a vista. Fico ou entro? Espero ou vou embora. Vai ver não era o meu nome... ou será que era? Você sabe quando alguém chama o teu nome, não sabe? A gente sente quando o nome da gente é pronunciado. Parece que uma energia nos puxa na mesma hora. Não vou ficar esperando, não parece certo. Sei lá. Melhor ir embora. Certas coisas é melhor a gente nem saber. Será que eu quero mesmo saber? E agora? Ouço conversas aleatórias, olho novamente para escada, lá um grupo de colegas estão se encontrando, acredito que estão indo embora. Já já sai o fretado. Vou acabar perdendo a ida para casa por idiotice. Melhor deixar isso para lá. Abro a porta do feminino com receio, poderia entrar, mas não sei. Minhas pernas travaram, chamo por Mariana. Mariana é um bom nome. Todo mundo conhece uma Mariana. Mariana? Chamo novamente. Ninguém responde. Sem barulho de água ou qualquer outro sinal de vida. Para mim, isso confirma que já posso ir. Aperto o ritmo sem olhar pra trás. Seja lá o que for, já foi. O grupo de antes também já não estão ali. Sinto uma frieza emanada do corredor. O ar condicionado deve ser mais forte por aqui. Olho para ambos os lados da operação da central de relacionamento. Tudo tão normal. Tudo tão qualquer dia. É estranho e comum imaginar que estamos dentro de um sistema e ao mesmo tempo tentando fazer diferente. Aliso o corrimão frio na descida dos degraus. Mais alguns passos e estou na portaria, passo o crachá na catraca e logo sinto o ar da noite.  Alguns cachorros estão deitados no carpete de entrada da empresa. Ninguém mexe com eles, são de rua, são carentes, são os que precisam de um abrigo por hoje. Antes de atravessar a pista, olho os dois lados. Um lugar esquisito se faz presente. A noite nunca foi segura nessa cidade, principalmente nessas redondezas. Sigo em marcha ao ponto de encontro dos fretados. São 5 ônibus de viagem, paralelos uns aos outros aguardando suas saídas distintas. Alguns segundos e boa noite Cícero, tudo bom? Ele responde que sim, ao entrar no ônibus sinto um alívio repentino. Falta pouco para essa noite acabar. Pelo menos era o que eu achava.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

As crônicas da alma viva: A hora extra (parte 2)


 O tuuu característico da nova chamada me tomou por arroubo.. Alô? Alô? Gaguejei por uns segundos até responder de acordo com o catedrático script. S-Sim senhor... is-isso mesmo, é que o sistema deu uma falha na-na ligação, desculpe senhor, pode repetir? A aceleração do peito me fazia suar. Depois um tempo nesse trabalho a gente acaba surtando. Peguei minha água, um, dois, três longos goles. Respirei fundo. Finalizei o atendimento em 15 minutos, algo que era pra ser bem mais rápido, mas minha mente vagava longe. Finto o terreno de cabeças como uma toupeira, apenas levanto o olhar o suficiente bastante para ver todos e o que estão fazendo. Espero mais uma ligação antes de programar a saída. Por hoje é só. Preciso mesmo descansar. Tuuu, atendimento... um chiado crava meus ouvidos curiosos por algum som familiar. Atendimento... isso senhora, como vai? Certo, aguarde só um momento por gentileza enquanto localizo o contrato da senhora, a ligação pode parecer muda, mas estou na linha, tudo bem? Mudo. Respiro fundo e programo. OFF. Começo o procedimento de localizar as informações da cliente, já já estarei em casa. Oi, como vai? Falo com a garota com cabelos azuis que vem tomar as informações do daq. Ela aperta um botão minúsculo cor de borracha velha. Me diz que está uma linda noite para estar numa festa, porém mudaram a escala dela de última hora. Ela não parece chateada ou até mesmo triste, apenas poderia não estar ali. Ela anota novamente, me deseja bom dia e sai. As tatuagens dela seguem junto com as costas cobertas por listras pretas e azuis. Um coelho em um ombro nu e uma raposa noutro. Seria tipo yin yang? Volto atenção ao caso da cliente, procedimento finalizado. Faço o script final com dó de acontecer... aconteceu. Certo senhora, só mais um momento que irei verificar essa informação. É incrível como alguns clientes pedem coisas aos pedaços em vez de aproveitar uma só informação. Lá vou eu novamente ver algumas faturas. Ela disse que não queria falar sobre, mas quer apostar que vamos finalizar um acordo? Sempre assim com as senhorinhas amigáveis que aceitam diálogo. Procedimento dois finalizado. Algo mais em que posso ajudar? Minha nossa, já vou em 40 minutos e ela quer fazer tudo hoje ainda? Vou passar de um dia pro outro, mas ela vai me prometer que vai ligar só ano que vem! Certo, só mais um momento por favor. Clico aqui, somo ali, miniminizo, maximinizo, leio, leio novamente. Calculo. Informo, dialogo. Sem esperar ela já diz que é a ultima coisa e pede desculpas por tanto pedir coisas. Você é do tipo caça ou caçador? Como senhora? Pergunto novamente. Caça ou caçador? Como assim? Ela ri. O deseja fazer callback aparece na tela. O dedo metralha o mouse. sim sim sim SIM SIM SIIIIIIMMMMM... A ligação chama, chama... a ligação... ninguém atende... merda... mas que porra! Levanto abruptamente. Coloco o headset pendurado na p-a. A segunda tentativa não abre. Prompt de comando em vez disso

*c:\User\Gnerated\account\crav:\\avop4586106_ciente
*c:\User\Gnerated\account\crav:\\inexist_account:_destruir*c:\User\Gnerated\account\crav:\\inexist_account:_destruir_hoje
*c:\User\Gnerated\account\crav:\\avop4586106_faca_sua_escolha
Ver.[1000.4E91O6.11-56]ssep

domingo, 7 de fevereiro de 2016

As crônicas da alma viva: A hora extra (parte 1)



 O turno da madrugada sempre foi o melhor horário. Claro, isso na minha humilde visão. É porque sempre são os sem sinal de tv ou internet que ligam, raras são as vezes que peguei uma contestação de valores de faturas, é bem mais provável o senhor ou senhora ligar pra cá e contratar uns canais pornôs. São 22:40, início do turno da noite. São contáveis as cabeças de operadores neste horário, até os supervisores são mais tranquilos, as ligações são mais leves, o clima mais agradável e sinceramente, o zumzumzum do dia é perturbador. Por isso escolho sempre fazer a hora extra depois das 22, e hoje o sistema não deu trégua, fiquei das 21 até às 23 horas, o bom é que ainda dá pra pegar carona com uns colegas do andar de baixo. 
 Beep. avop4586106. Atd 12. TMT 12:32. Atendi 12 ligações até agora, estou logado na ultima máquina da ilha, os colegas que estavam do meu lado já se foram, e não dá pra conversar com os colegas da frente, a não ser que eu fique de pé. Me contento em ficar olhando as imagens do outro lado da sala, não tem som, e a legenda é ilegível daqui, não sei bem qual o filme, mas tem explosões. Atendo mais uma cliente, fala que pagou a fatura que estava pendente, registrado. 22:57, ouço o Tuuuu da ligação que cai no ouvido, o sistema não reconhece cliente, sem nome identificado ou cpf, um cliente anônimo até eu encontrar o contrato, fantasma até registrar protocolo.
 Me ajeito na cadeira giratória pois sei que pode ser uma longa ligação, o apoio dos braços deixa a digitação mais estável. Central de relacionamento, boa noite, com quem falo? Um barulho de embrulho chia, continuo meu script. Central de relacionamento, com quem falo? E o sussurro da voz robotizada pelo telefone escorre pela orelha, lambendo meu ouvido e derrama um frio pelo corpo. Não entre em pânico, disse a voz suave, quase que formal. Desculpe, não entendi, disse tentando me corrigir da vontade de ficar de pé e correr. Sempre acontece de vez ou outra alguns (não) clientes ligarem apenas por trote, e aqui parece a mesma coisa. 
 As luzes da minha zona piscaram brevemente, em volta todos continuavam normais, alguns atendendo, outros conversando enquanto aguardavam ligação cair, então olhei novamente para tela do computador. Cliente não identificado pelo atendimento automático. Senhor? Senhora? Alô? A ligação caiu em menos de 10 segundos, logo apareceu o pop-up de rediscagem, pensei em fazer o callback mas o próprio sistema encarregou-se de eliminar essa possibilidade. Fiquei novamente disponível para atendimento. Com o pulso acelerado ora pela curiosidade, ora pelo medo do inesperado, tentei relaxar. Levantei pra comentar da ligação com o colega da frente, mas este logo me olhou com cara de pânico. Eu sorri tentando desviar do mesmo sentimento e lancei, hoje está um dia meio louco não é? Mas ele apenas não respondeu, assentiu com a cabeça e voltou os olhos para tela, parecia que recebia ordens expressas de não falar comigo. 
 Sentei, respirei fundo, chequei no telefone da máquina o horário de trabalho e conferi a hora da minha saída. As luzes fraquejaram novamente, um frio esquisito agarrou meu corpo. Tem algo de errado acontecendo. Muito errado. Peguei o mouse para deslogar da máquina e ir para casa, e foi aí que eu entrei em pânico. Na tela havia uma mensagem, uma janela tipo prompt de comando dizia 

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sexta-feira, 24 de julho de 2015

Cerúleo


Fragmentadas nos cantos do céu, elas permaneciam brilhantes. Pequenos pontos azuis. Observei sem me preocupar onde eu estava, quem eu era, aonde eu iria. Fiquei ali. Contemplei os céus e a cor que dele brotava. Todo o ambiente se inundava em calmaria que perturbava. Algo dizia que era mais uma vez, talvez a ultima, que as cores do mar iriam invadir meu eu.
Pode parecer um pouco triste, porém a iluminação combinava com tudo. Decorava bem ao se derramar pelas paredes, riscava calculadamente os armários, fazia as letras dos livros boiarem confortavelmente. E a mim... Bem, eu era só um corpo. Enrijecido pela vontade de não ser nada nem ninguém, e era exatamente isso que eu eu ali. Nada além de um ponto azul, em imensidão profunda e azul. 
O gelado chão que aquecia minhas costas foi ficando distante, era hora de seguir em frente. Pouco salutar é o desejo de mudança, mas alguém tem que fazer alguma coisa. Não adianta ficar na zona de uma só verdade e esquecer por um momento que nada existe. Porque tudo continua a acontecer. E eu preciso acontecer. Foi então que, ainda sentado em lótus, abri os olhos e capturei toda a luz para dentro do ego. Pereceu a carne, firmou-se a perspicácia por outra vez.
Não importando quantas vezes mais eu volte aqui, sob a cor da perpétua da certeza, eu estarei livre para lutar por aquilo que ainda não teve vez. A coroa não vai cair, ela será derrubada. Será violentamente jogada ao chão, toda a mediocridade cairá junto, por terra. Rápido e vorpal. O ataque com a inteligência nunca deixa transparecer, meio ironia, meio destino. Ninguém nunca saberá o que aconteceu, apenas verão a ascensão do justo.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Na manhã do primeiro dia.


Acordando como um animal, cacei com os olhos por algo irregular. As janelas recebiam o calor do sol, as cortinas dançavam ao convite do vento e eu... bem, eu começava a entender que a dor de cabeça era apenas parte de tudo, não só consequência de vinho barato. Levanto com o gosto amargo na boca, gosto de ferro. A cama revirada não seria a melhor descrição para o furacão que deve ter passado por aqui ontem, os lençóis parte no chão, parte na cama, tem livro jogado, papel de parede rasgado, e a minha cabeça apenas dói, pulsando para que eu não tente lembrar de ontem. Aspirina, é isso que ela quer que eu lembre. O pisar no chão é modesto, sinto um calor diferente, como se o carpete abraçasse meus pés, tão macio que dá vontade de se esfregar todo nele.
O pijama já era, só tento vestir alguma coisa porque me sinto vulnerável quando estou pelado. Esse gosto já está me dando enjoo. Acho uma calça de moleton debruçada na cadeira da escrivaninha. Sigo ao banheiro em busca de aspirira, não sei bem onde guardo remédio, se é que tem algum aqui em casa. Bom, pelo menos no banheiro o furacão não passou, está tudo limpo e em ordem, as toalhas nos devidos lugares, o espelho limpo, a pia também, o vaso nem se fala, aproveito ele pra não deixar tudo tão limpo, afinal de contas urinar é quase que ritual sagrado depois de levantar da cama. Esse cheiro... Não é minha urina que está cheirando a perfume, e também não sou eu. Aqui não, esse lado também não, minha calça também não é, cheirei ela antes de vestir só para saber se estava limpa. Abro o box do chuveiro farejando. A porta tem cheiro de nada, as paredes também, levanto o pescoço para tentar cheirar o chuveiro, mas não é dali. Me ajoelho para checar o ralo. Esse cheiro... 
Terra. Cheiro de terra, não de perfume. Não existe perfume de terra, não é? Estranho demais isso. O chão está seco, não úmido ou molhado. Seco. O chuveiro está frio, não lembro de ter tomado banho quando cheguei, se é que essa dor me deixa lembrar alguma coisa. Tiro as calças ali mesmo, jogo para fora e ligo o chuveiro para acabar com a sensação de sujo. 
A água é morna, achei que seria gelada. Esfrego meu corpo todo só com as mãos mesmo, deixando a camada de suor escorrer pelo ralo. Sinto como se o mundo escorresse pelas minhas costas, o peso todo vai sendo levado, e o cansaço vai dando lugar ao novo fôlego. Me apoio para molhar apenas a cabeça, em um enxágue demorado, massageando minha cabeça parece que a dor também está indo embora. O que foi isso?
Desligo o chuveiro bruscamente ao ouvi alguém falando. Fico quieto para tentar ouvir novamente. Será que foi lá fora? Será que eu ouvi alguém me chamando? Os pingos do corpo não perturbam minha concentração, e demoradamente abro o box, atento, pego a toalha ali posta, e enrolo no em mim. Continuo com a sensação de que tem um perfume no ar, é doce mas não muito irritante, como se já tivesse ali faz muito tempo, apenas uma marca deixada para fazer presença, seria alguma mulher que eu acabei trazendo para casa? Volto em passos contados ao quarto, procuro algum indício de mulher. Nada. O perfume deve ter impregnado o meu nariz, isso sim.
"Acorde!", ouço novamente, giro para ver mas não tem nada. Acho que estou ficando louco, só pode. Quero a dor de cabeça de volta, ponho a mão nela procurando algum galo, corte, ou sei lá. Muito cedo para ouvir coisas. Meu coração acelera, sinto o sangue correndo pelas veias com violência, algo está acontecendo. Está acontecendo! Começo a ficar ofegante, confuso, tento me segurar em alguma coisa. Não consigo me mexer direito! Não sinto minhas pernas. Essa... essa sensação... mas o quê? 
 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Carmen



 Fiz novamente o penteado. A roupa está linda e o corpo obedecendo as restrições da dieta, nada de açúcar. Estou tão feliz que ele tenha me ligado para sair, faz tempo que venho de olho nele. Sei que ele já saiu com mais duas de lá da repartição, mas eu sou melhor que elas, as outras... Piranhas. Sempre quando veem algum carinha já caem em cima. Esse batom vai impressionar. Deixa eu ver, agora sim. Lembra do Nilo da Saúde? Elas rodaram o garoto mais que tudo. Coitado. É. Ele é tão calmo e bonzinho, chega dá uma pena o que elas fazem com ele. Nada, só sexo e joga fora. Pois é, acho isso muito nojento. Todas, minha querida, todas elas. Basta ter uma conversa boa e já abrem as pernas. Só não eu e Janine de lá da 32, porque o resto é tudo puta. Não sei como eles ainda caem nessa de amor da vida delas, porque sinceramente viu... Ainda bem que esse, o  Marcelo, é diferente. Ele é todo galã, mas é porque fez jornalismo lá na Católica. Pois é, cheio da grana. Se você ver o carro dele, aí sim vai entender porque as outras ficam vadias por ele. Quando ele veio conversar, ficamos um bom tempo apenas no profissional, mas ele logo disse que eu era especial. É. Disse que tinha sacado algo diferente, que as outras nunca chegariam aos meus pés. Claro né?! E o mais impressionante é que a Kelly veio logo dizer que ele não prestava, que era só jogo para me levar pra cama. Tu acha? Logo quem veio dar conselhos? Maria Madalena! Essa sociedade já foi menos hipócrita. Mulher, vou ter que desligar, ele já está ligando pra mim, acho que já chegou. Aham, deixei tudo aqui arrumado porque se tudo der certo trago ele pra cá e já garanto. Lógico, você acha que eu posso mesmo deixar um partido desse passar? Ja-mais! Beijo, tchau tchau.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A carta.


Para ler ao som da faixa 13. 

Apressado. 
 O ônibus das doze e trinta e cinco já estava vindo, já conhecia, consegui vê-lo no ponto seguinte. Eu já estava atrasado.
 O carteiro ao virar a esquina cumprimenta-me com um sorriso. Cartas. Agradeço apressadamente e aquele monte de envelopes são abraçados pelos cadernos e anotações da minha mochila.
 Atravesso a rua em correria, não posso perder este. Ao subir, ônibus lotado, mal dá para se segurar sem ouvir lamentações alheias. 
 É mais um dia de luta para conseguir chegar lá. Acordo. De tão cansado e não acostumado mais a perder noites pelo próprio pensamento, dou conta que cochilei. Verifico o ambiente, e não há nada para ler. Os passageiros são ligeiramente os mesmos, são estudantes e trabalhadores que vão para a parte alta da cidade, longe da praia, do movimento, do comum.
 Me esgueirando consigo saltar no meu ponto sem perder a sincronia. O ônibus segue, eu fico. 
 Corro diretamente para o meu bloco, atravesso o pátio sem admirar as árvores, as flores, as pessoas. Apenas sigo. Chego na sala do mesmo jeito que sai, apressado.
 Pego minhas anotações, tento ter atenção na aula. Cochilo uma ou duas vezes. As pessoas não se falam, o professor se repete, no quadro tudo tipo grego. Não entendo nada, anoto tudo. Estudo depois. 
 O alarme não soa, as pessoas comentam. Fim da aula.
 Continuo nela até esta se esvaziar. Pego meu monte de cartas e vejo as quais devo abrir por agora.
 Conta, propaganda, conta, conta, convite, outra conta, uma carta de longe.
 Eram tantas coisas que contei novamente. Sim, tinha uma carta de longe. O carimbo era de três meses atrás, os selos eram de linguagem diferente, euro. 
 Tremi.
 Não espero nunca uma correspondência pessoal, quem diabos ainda manda cartas?
 Jogo as outras na mochila. Titubeio com a carta na mão. Abro ou não abro?
 Eu suo, eu tremo, nauseante vou até a janela.
 Por que agora? Depois de tanta coisa... Por que agora?
 Penso em jogar fora. Rasgar aquela porcaria. Me vem raiva no peito, me vem aquelas lembranças de um amor tranquilo, me vem vontade de bater em tudo, apagar da memória.
 Maldita carta que vem do passado para me torturar. Que droga!
 Me acalmo. Não consigo saber o que fazer. Também seria desonesto alguém ler, e se tiver algo de íntimo ali? E se for alguma coisa que eu deva saber, tipo estou infectado por alguma doença, ou um filho, ou sei lá. O que será que tenho nas mãos? Nenhuma notícia é tão forte que não pode ser dita pessoalmente, por telefone, hoje não por favor. Agora que consigo sair de casa sem me sentir vazio, já sendo visto como mais saudável, ganhei peso, voltei a fazer umas coisas que gosto... Por quê?
 Minha curiosidade é mais forte que o medo. Tenho que saber o que tem aqui. Será um pedido de desculpas? Mas ninguém some do nada, não dizendo nada, sempre há alguém na jogada... O que deve ser?
 Rasgo a ponta do envelope vagarosamente, rezo para que não seja nada, um engano talvez, qualquer coisa. Há algo dentro, apenas um papel. Um dizer.
 Trêmulo, pego com a ponta dos dedos e escoro o corpo na parede.
 Leio.
 Choro.
 Aperto a carta contra o peito.
 Ainda existe amor.




sexta-feira, 16 de maio de 2014

Onde Começa o Amor?


Corro os dedos na parede sem olhar, como se meu tato estivesse no automático. Também pudera, quase setenta e duas horas sem dormir. Meus pés estão cansados, não há posição boa para ficar, sinto meu pescoço querer pender novamente, um arroubo do corpo ao descanso. Não posso dormir, ainda não. Olho para aquele quarto tão branco que não sei porque continuo ali, de pé, como se nada no mundo pudesse me tirar as forças, agora que das tripas faço o coração. O meu e o teu. Inclino calmamente para ver se vem alguém no corredor, mas não vem, não virá. Só tem eu e você. As luzes brancas gelam o corredor, pisco profundamente como uma breve soneca. A imagem fica turva... Não posso dormir! Não agora.
 Troco o peso do corpo entre uma perna e outra. Reveso o cansaço. Encostado no portal corro os dedos para apagar a luz, pode ser que ela incomode teu sono. Os remédios têm que fazer efeito, ao menos um pouco, só um pouquinho, só para que você possa olhar sem essa dor nos olhos, sem ter que correr lágrimas e gritos silenciosos de socorro. Minha cabeça dói, meu corpo já nem reclama. Escorrego no portal quando minhas pernas falham. Sem querer, choro.
 Não queria chorar, mas não há nada que eu possa fazer agora. Desculpe. 
 Então rezo. Peço a Deus que dê-lhe descanso ao menos essa noite. Quero zelar pelo sono de uma melhora.  Choro.
 Choro e sem fazer muito barulho, tudo o que prende meu peito já não aguenta, meu corpo cai, minha mente esvazia, minha alma por fim desarma. 
 Estou um trapo, a mesma roupa, um cheiro meio azedo, meus olhos já sombreiam marcas, e continuo sem conseguir dormir, preocupado contigo. Se alguém vier me substituir apenas será uma companhia, não te deixarei só. Não enquanto eu puder enfrentar o mundo contigo, ao lado, querendo sempre ver tua felicidade. Não quero perder nenhum momento e... Desculpe. Sei que não era para eu chorar mas é como se eu sentisse a presença de Donna. Como se ela estivesse abraçada, aqui comigo, no chão do quarto. O arrepio me beija, as lágrimas descem. 
 O relógio agora ilumina 4:12, logo o dia nascerá e você não reclamou, não gritou, não chorou.
 Conto os minutos como uma oração para que tudo fique bem. Tudo vai ficar bem.
 Logo você vai acordar e dirá: papá. E então poderei sorrir. Descansar.

domingo, 13 de abril de 2014

Eu te amo, antes que seja tarde demais.


 Ele sorriu tentando não deixar a saudade escapar pelos olhos, o nariz começou a ficar vermelho e logo se abraçaram. Foi no portão de embarque que eles se despediram. Alex apertava Danilo tentando arrancar uma pedaço para si, tentando deixa-lo ficar, mas Danilo precisava ir. 
-Eu volto logo meu amor. Sussurrou Danilo.
Alex tentava conter a emoção, beijou o pescoço dele sutilmente, o código secreto. Ele sabia que aquilo não iria durar, era apenas uma fase, queria que os próximos meses de suas vidas pulassem para quando Danilo estivesse de volta, para quando mais uma vez pudessem acordar juntos todos os dias. Uma família.
Danilo ajeitou a camisa de seu companheiro, conferiu os botões, a gola, e o cabelo. Olhou em volta e percebeu que a saudade não era apenas entre eles, outras famílias também se despediam. 
-Você promete que vai voltar? Suspirou Alex.
Danilo sorriu com os olhos marejando novamente.
-Enquanto você quiser, disse ele, estarei sempre aqui.
O toque no peito de Alex confirmou o que ele mais gostava, as declarações de Danilo. Todos os dias ao acordar Danilo coçava os olhos por minutos seguidos como uma criança que dá corda em um carrinho, ele olhava para o lado conferindo seu parceiro acordado e sempre dizia: É, realmente não é um sonho. Isso fazia Alex acordar feliz, fazia com que seus pensamentos fossem direcionados aos dois, à sua família em construção, fazia querer sempre ter mais e mais.
-Alex? Chamou Danilo.
-Eu sei, respondeu triste, você precisa ir.
-Não era isso, sorriu.
-Então o quê?
-Quando eu voltar... casa comigo?
-O quê?
Danilo o beijou na testa, pegou sua mala e seguiu para o embarque.
As borboletas rodopiavam com violência no estomago de Alex, o sorriso de surpresa fixou em sua face. Casar? De verdade? Alex pensava em tantas coisas naquele momento que a alegria e tristeza se revezavam a cada passo de distância de Danilo. Antes de sumir de vista ele virou, encarou Alex de longe e balbuciou novamente: Casa?
Danilo se fora, Alex logo após.
Voltando pra casa, em seu carro popular, Alex aumentou o som do carro e ia cantando todas as suas músicas favoritas, pois sabia -sim ele sabia-, sabia que a sua felicidade era muito mais do que ele poderia imaginar, sabia que sempre fora feliz, e hoje alguém estava disposto a enfrentar toda a vida ao lado dele, acordando todos os dias lado-a-lado.
O relógio ia bater três da manhã quando Alex acordou de um sonho estranho. Ainda sem abrir os olhos procurou com as mãos por sua segurança e quando caiu na real, chorou. O amor de sua vida não estava mais ali. O telefone tocava, era Danilo.
-Amor, cheguei. Aqui está tudo bem.
-Ah, que bom ouvir sua voz. Tudo bem mesmo?
-Sim, sim. Agora vou para casa e amanhã cedo te ligo.
-Okay. Saudades suas.
O silêncio perdurou infinitamente. A única coisa que se ouvia era a respiração ficando cada vez mais forte e turbulenta, Danilo chorava. Alex abraçou o travesseiro dizendo:
-E disse que não ia chorar, não é?
Eles riram.
Danilo logo parava de chorar, se recompôs e prometeu ligar assim que acordasse. Alex o conhecia tão bem que já sabia que ambos não iriam conseguir dormir, iam esperar o sol nascer para poder dar bom dia e explicar a noite terrível que tiveram, cada uma com sua cota de saudade. Cada um com seu amor em pausa aguardando as coisas voltarem ao normal.
-Dan, o telefone está chiando, acho que vai cair...
-Eu te amo. Interrompeu Danilo, eu realmente te amo.
Chamada encerrada.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Prince Litorea


     Henrique nasceu entre a realeza, primogênito de sangue-puro nunca se preocupou com nada. Sua vida era a melhor possível, desde criança, sem obrigações e controle, quando já moço feito nada mudara, ele estava sempre em meio de festas e garotas. Os mimos de seus pais o cobria de soberba e antipatia perante os mais humildes, mas um dia, o robusto e sedutor príncipe escolheu brincar com os sentimentos da moça errada, e após quebrar seu coração após prometer todas as terras, mares e estrelas, Henrique arrancou-lhe o que a moça tinha de mais precioso, roubou-lhe o amor.
     Aos pedaços o coração da moça ficou e após vários dias recolhida em seu sofrimento, enquanto o príncipe continuava a flertar com outras moças, como sempre vivera, uma senhora, vendo o sofrimento da jovem fora conversar com o príncipe. O belo moço não deu atenção alguma para a senhora e ainda riu de seu aspecto mendigado e sua feição não agradável, porém o que Henrique não percebeu era que aquela velha senhora era sim realmente uma bruxa como ele havia rido. 
    A bruxa que não tinha nada a temer e muito furiosa com as atitudes egoístas do príncipe amaldiçoou o rapaz. Henrique fora alvejado em peito certeiro e mesmo sem acontecer nada ele ficou apavorado, correu para o castelo em busca de segurança, mas prometera se vingar. A bruxa que não agiu de total maldade evaporou-se no ar, como uma sublime lufada de vento ao empoeirado chão.
   Ao cair da noite, quando o príncipe Henrique fora banhar-se percebeu algo estranho consigo. Sua pele estava pegajosamente colorida, uma aspecto meio grotesco e esverdeado. Ele começou a desesperar-se mas de nada adiantou, gritou por seus pais e enquanto corria em busca de socorro, a transformação continuava. Alguns serviçais da família real correram para conferir o que se passava com o insuportável príncipe, mas ao chegar próximo aos aposentos do rapaz, ele não viram nada fora do comum. Tampouco no quarto dele, na casa de banho... tudo estava perfeitamente aliando e no padrão. As roupas da alteza estavam penduradas  ao pé da banheira, já preparada para um banho, mas ele não fazia presente.
   [...]

domingo, 29 de julho de 2012

Efeito


Indagação > 
Dúvida > 
Método > 
Materialidade > 
Sistema > 
Experiência  > 
Resultado > 
Anotações > 
Experiência > 
Resultado > 
Comparação > 
Empirismo > 
Forma > 
Avaliação > 
Aplicabilidade > 
Variação > 
Probabilidade > 
Efeito.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Bolha


         Ainda ontem passou por entre todos, circulando com exatidão aleatória, uma simples bolha de sabão. Suave e multicolorida, ela percorreu todo o ambiente e ninguém a percebeu. Vagava com destino certo, a bolha de sabão que guardava a noite, refletia em sua espelhada superfície toda a vida noturna daquela cidade.
   Percebia-se em reflexo mundano todas as conversas, pessoas, lugares, sorrisos, pensamentos, sonhos, tudo fagulhado em esférica improbabilidade brilhante. Flutuou lentamente perante as mesas, como se procurasse o escolhido para estourar-se em inspiração, atravessou o vento forte como se enfrentasse uma multidão enfurecida, subiu para os montes claros do vale de casas que estavam se preparando para a noite de sono. A bolha de sabão deveria estar procurando um sonhador, alguém que a encontrasse e mostrasse que o mundo era possível, um mundo sem tanto mau.
      Ela fora procurar seu destino, entre vias escuras, mas ainda assim dava para se ver ao longe o fugaz translúcido universo de simplicidade que trouxe aquela bolha de sabão que não ousou em estourar. 

terça-feira, 3 de abril de 2012

I'm Here.



Meus olhos te perceberam, era você.

    Você franziu a testa pra mim com uma feição que me gritava "Eu te avisei". Sorrateiramente você entrou na sala, postou-se em minha frente e continuou a sorrir, entrava em minh'alma todo o teu fluxo vitálico, você acariciou minha cabeça com tanto carinho que eu lembrei do teu cuidado com meus sentimentos. Você se vestia tão desbravadamente que me recordei de tempos outros, de quando você tinha o controle e tudo era tão mais simples e divertido. "Não fica assim" você me disse, abaixei a cabeça em desesperança e, mesmo assim, você agachou-se até aos meus olhos e continuou "Não quero vê-lo triste", eu chorei sem controle, sem medo de que você me observava, não tive vedo de ser verdadeiro, pois sabia que você era a única pessoa que sempre esteve ali a todo momento e não recuou e nem avançou sem mim, ficou ao meu lado.

       Me vi à minha frente, minha parte sem medo, sem conseqüências, sem pudor. Era você. Aquele no qual todos já falaram sobre, aquele que eu fiz questão de prender no obscuro vazio da minha conturbada mente. Não tive como dizer não à mim, as faíscas eram características vivas de todo o teu potencial, você sempre soube fazer o que importava, desde sempre fora o lado selvagem da cativeirada criatura, era você que alimentava a coragem e por isso eu senti o calor por esses dias, vi labaredas onde eram sombras, também percebi que você respeitou o meu espaço. Agradeço por entender minha situação, agradeço por segurar minhas lágrimas por mais uma vez.

       "Deixa eu tomar conta agora... Permita que eu mude tudo..." Você me tentava com essas palavras e por mais que eu não duvidasse que você faria tudo totalmente diferente, eu não poderia nunca fugir da minha luta, era a minha vez de seguir. "Não posso..." Eu me respondi, você trancou sorriso e levantou, virou as costas por um momento e eu vi que respirava fundo. "Ainda não é tempo." Eu te respondi, mas de nada adiantou, você virou pra mim já em chamas. Teus dedos inflamados combustava todo o braço, subiu labaredas dos pé ao peito. "Você não está vendo que isso é errado?" Você me gritava. "Você parece que gosta de sofrer em vão..." Levantei me já posto e contestei "Não se pode chegar aqui querendo algo, só porque algumas coisas não deram certo", você riu e me cuspiu fogo "Tenta!", desafiado pelo brasar do teu olhar eu apostei, "Não só vou tentar, como também, vou conseguir." Você novamente riu, mas dessa vez foi diferente, senti que você não estava sendo irônico. "Quero o teu bem, não importa se seja por mim ou por você." E você se foi do jeito que chegou, traços sorrateiros de fogo às paredes, fogo fátuo do próprio ego.
"Quer o meu bem... E somos um só." pensei.



sábado, 25 de fevereiro de 2012

Não Jogue Amor Na Rua.



 Acordo sempre com a indiferença no olhar,
 Com pensamentos inconstantes,
 E antes de abrir os olhos eu rezo, para o dia mudar,
 Esperando sempre ouvir um "bom dia" sussurrado,
 Mesmo que eu não faça tudo aquilo que digo,
 Digo tudo o que posso, pois assim chegarei a completar,
 Não tenha isso como banalidade, exagero, vazio...
 Queria poder esquecer de você,
 Mas lembro de ti toda hora,
 Desafios, propostas, promessas, um sorriso...

 Agora que tudo se trancou posso levantar,
 A hora é agora, hora de você olhar para mim,
 Em frente ao espelho replicante eu pergunto,
 Quem sabe agora você perceba?
 Você me veja como realmente sou,
 Um rabisco, um borrão, um alguém perdido,
 Esse sou eu,
 Quem nunca vai te dar o mundo que a ti pertece,
 O incrível universo que vejo dentro do teu sorriso,
 O arrepio da pele que o dedo percorre em brincadeira,
 Pensamentos meus que talvez você nem queira ouvir,
 Mas vários universos criados para chegar ao teu,

 Hora de continuar a arrumação da vida,
 Trocar as roupas de sentimentos e seguir para a realidade,
 Em meio a tantas ruas, há várias pessoas,
 Oferecendo tudo o que possa imaginar,
 Incluse um amor para recordar,
 Mas quando terminar de usá-lo,
 Não jogue na rua,
 Não jogue o amor na rua,
 O amor ao relento morre,
 Apodrece em inverdades e expectativas,
 O tempo corrói as bordas de afeto,
 Ele sempre gritará teu nome quando for pisado, 
 Deixe-o no lixo,


 Quem sabe não aparece alguém que possa reciclá-lo?



 

domingo, 29 de janeiro de 2012

Direção? Qual?



 E ela correu sem parar.
 A brisa corria em gritos por suas orelhas brilhantemente enfeitadas. 
 Contra o vento, à mil por hora.
 Os braços varavam o ar, assim como os pés afundavam na areia da praia.
 Era apenas o quebra-mar e ela, correndo sem direção. Sem destino.
 Sua rizada ocupava o rápido ar dos pulmões que a adrenalina fazia questão de apressar.
 A felicidade era tão grande que ela e seus longos cabelos correram cidade à dentro.
 Piruetas pelo ar, imitando um avião. 
 Foi assim que ela chegou em casa.
 Foi assim que ela contou aos seus pais que estava feliz, mas não foram com palavras.
 Um sorriso apenas bastou.

[construindo]



Apenas o céu

Foto por @sanamaru O amargo remédio se espreme goela abaixo, a saliva seca e o gosto de rancor perdura por horas. Em vez de fazer dormir ele...