Mostrando postagens com marcador Q. Policarpo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Q. Policarpo. Mostrar todas as postagens

domingo, 13 de julho de 2014

500.


Por K. Fireman, Q. Policarpo e Ele.

 O quinhentismo foi um movimento literário atípico, isso mesmo, muitos historiadores, especialistas e grandes estudiosos não costumam aceitar tão bem essa tal ideia. Contudo, os livros mais modernos aceitam por mostrar uma grande objetividade em suas explicações.
 Os que negam dizem que como não há núcleo definido na manifestação, não há idealismo ou informação relevante, não pode assim ser levado como movimento literário, passagem expressiva da literatura brasileira. Os que afirmam dizem que historicamente marcou o início do país e assim percorreu uma leve variação em seu conceito, sendo finalizado após a independência.
 Como você sabe, o Brasil foi "descoberto" pra lá de 1500, por isso o nome Quinhentismo, e suas principais fontes de confirmação da fase informativa era exatamente a informação. Os documentos oficiais como diários de navegação, cartas expedicionárias, relatos dos viajantes, tudo aquilo que dava alguma informação válida do novo continente aos portugueses, e logo ao todo europeu. A fase informativa foi marcada por uma vasta manifestação da descrição. Pero Vaz, Pero Magalhães, Hans Staden... todos eles narravam sua cota de Brasil ao longo de suas jornadas. De animais estranhos com vislumbre mítico, plantas multiformes, cenários paradisíacos, até habitantes exóticos desprovidos de cultura.
 Portugal viu aí sua forma de expandir o catolicismo que estava sendo oprimido pelo protestantismo. A Igreja tinha uma saída, Portugal um quintal cheio de coisas novas e exclusivas. Só navegavam com autorização de Portugal e Espanha, mas os lusitanos eram melhores em suas construções navais, tipo os Gregos nas eras romanas. Então, baseado na antiga síndrome de Carpe Diem eles foram arrancar todos os recursos do continente maravilhoso.
 A fase jesuíta foi expressiva na santificação e exploração da divindade aos indígenas. Sempre presentes os autos, versos, cantos e peças glorificando a imagem de Deus, os caminhos da fé católica aos pecadores mortais. Os santos, anjos e palavra santa era o que vogava naquele período. Brasil tornou-se um grande centro de exploração ambiental, e um recrutador de fiéis. Claro, tudo isso jorrando sangue, escravizando nativos e impondo a cultura européia aos que aqui nada sabia. Jesuítas eram homens de Deus, Deus por sua vez era a coroa portuguesa, esta mandava e desmandava no que tinha que acontecer. Afinal de contas o Brasil era apenas um recurso adicional. Padre Anchieta, conhecido hoje e até mesmo santificado, ficou famoso por ser o líder Jesuíta e um dos que tentava sempre apaziguar as rivalidades dos homens brancos versus homens ignorantes. Talvez essa facção de religiosos tenha visto o que realmente era amor ao próximo e tentava convertê-los por mera ignorância da época.
 Depois de 1822, independência do Brasil, os homens de cultura buscavam mostrar a integridade do brasileiro, tentando assim captar sua essência verdadeira, surgiu por fim a fase romântica. Ao enaltecer o índio como herói brasileiro, os românticos cultuavam a imagem do verdadeiro brasileiro, aquele massacrado de outrora, e não os cheios de pompa e maquiagem, o verdadeiro Brasil foi arcabouço de inverdade e injustiças desde sua origem, mas na fase independente onde a coroa deveria finalmente cair e dar vazão ao povo e sua voz, nesta mesma fase de transformações geopolíticas, a literatura cuspia na cara da sociedade que nenhum deles de fato poderia gritar Sou Brasileiro com tanta certeza.
 Os quadros marcavam os acontecimentos passados, ora por honra, ora por culpa. Os íntegros tentavam demonstrar o real fato do selvagem ser o mais culto, ao mesmo que os mais cultos tornaram-se selvagens por ego. A literatura de fato nasceu aí, Quinhentismo propagado de oficiais até civis memoráveis, Ubirajara e Iracema, romances onde o brasileiro era a própria fé.
 Século XXI, precisamente 2014, copa do mundo. Se antes o brasileiro buscava um herói nacional para confrontar os europeus escravizantes, hoje não seria diferente. O herói é o mesmo selvagem, mas agora ele está um pouco diferente. Jogador de Futebol, nas capas de revistas, jornais, adesivos, músicas... o herói brasileiro, ou apenas sua representação personificada perante ao mundo, nada mais é do que alguém que não sabe das próprias origens, não sabe para onde vai, só se importa com o hoje e o agora. Mandado pela ganância de ter, ele se vende às publicidades mais diversas. Sempre acreditando fazer o melhor para si. O índio não sabia bem o que ia acontecer, mas confiava nas palavras dos mais cultos, hoje eles (brasileiros) acreditam nos mais cultos sabendo não muito bem o que vai acontecer, mas vão porque estão em vantagem.
 O brasileiro. Raça que sofre desde cedo em sua maioria, sempre com o sorriso no rosto para as desaventuranças do mundo, meio apaixonado pelo ciclo dos antigos, sempre esperançoso de que tudo vai melhorar. O brasileiro. Povo, nação, população que não tem o mínimo de conhecimento eleitoral, que vivem no marasmo de sobreviver, o povo que sempre se deixa ser levado pelos que sabem.
 Sou patriota, mas não tenho orgulho do meu país. Segue: Patriotismo, do grego patriótes (patrício), é o sentimento de orgulho, amor, e devoção à pátria, aos seus símbolos (bandeira, hino, brasão, vultos históricos, riquezas naturais, e patrimônio material e imaterial). É razão do amor dos que querem servir o seu país e ser solidário com os seus compatriotas. Ao longo da história, o amor à pátria vinha sendo considerado um simples apego ao solo. Tal noção mudou no século XVIII, que passou a assimilar noções de costumes e tradições, o orgulho da própria história e a devoção ao seu bem-estar. Através de atitudes de devoção para com a sua pátria, pode-se identificar um patriota.

 Serei eu patriota apenas quando se tratar de esporte? Ou serei eu o tal patriota quando negar e apontar a corrupção, das menores às maiores, quando agir de bondade e humanidade com o próximo, quando tentar educar aquele que não teve condições, alimentar o faminto, agasalhar o mendigo, cuidar do moribundo... O que é ser patriota em uma nação sem identidade?
 Quem é o brasileiro? Para a mídia, é aquele em que vive do sustento do salário mínimo, aquele que acorda de madrugada para trabalhar na casa de uma família "superior", brasileiro é o sorridente que sabe que está fodido mas não liga, teve o ensinamento que a política é um antro de ladrões e que isso nunca vai mudar, que a saúde, educação e segurança se alternam nas problemáticas e paralisações. O brasileiro é este que não investe no aprendizado a não ser que seja estritamente necessário, afinal de contas quando não estão trabalhando e gastando horas de suas vidas em transportes indignos, apenas querem curtir suas famílias e sua casa, que por sinal raramente é própria.
 Quem é o brasileiro que sonha alto, em ter a casa própria, em ver os filhos homens de bem, mulheres determinadas, me diz: Quem é esse brasileiro? 
 Para se controlar um povo já é sabido que basta tolher um dos elementos da Tríade do Desenvolvimento: Educação, Cultura ou Economia. Percebeu que todos são relações sociais? Pois bem, se você pergunta pela segurança ou saúde basta tomar de atento o principal e revolucionário fator Educação. Quando se tem uma educação de qualidade, ou seja, adotar um política de expansão do conhecimento fazendo com que a mesma teoria se desenvolva nos seres presentes e façam-nos detentores de reflexão, estes iram sobrepujar os limites oriundos de um passado massacrado e terá uma visão sistêmica do que é a sociedade. Um conjunto de valores e crenças que se perpetua em um povo, assim a valorização da cultura é desenvolvida e juntos deles a própria Economia. Contudo, isso tudo é utópico enquanto esta mesma sociedade se limitar ao comodismo preguiçoso de olhar para o próprio umbigo. 
 A economia não se desenvolve sem educação. Girará em contínuo declínio maquiado pelo bolso parcelado em prestações. A cultura do jeitinho que apenas me beneficia continuará sendo o pleno favoritismo, colocando os campos de trabalho nos típicos Com Indicação, e logo o mérito de se esforçar e criar um arcabouço de conhecimento será frustrante no fim do dia. Quem ganhou a vaga foi alguém que conhece alguém, nepotismo ou não, já ganhou. Daí eu perderei tempo estudando ou me dedicando ao mais fácil? Será mesmo que amanhã o dia será melhor? Bom, melhor pensar no hoje, porque eu ainda tenho coisas para fazer.
 Passam anos, décadas e o povo continua na mesma. Querem evoluir, tornar um melhor povo, com melhores condições de moradia mediana, educação suficiente, saúde de mínima qualidade e prestação humanizada dos serviços públicos. Finalmente as pessoas serão pessoas e não apenas seus números numa fila para atendimento. Talvez assim elas não pensem que a política e democracia sejam algo que os espertos inventaram para poder viver milhonariamente as custas de um povo que apenas pode sonhar porque é de graça. 
 O problema do povo é o próprio povo. Se quisessem mesmo mudar já o teriam feito. Fazem isso quando querem, criam Ongs, ajuízam ações através do Ministério Público, mostram nas mídias quais as mazelas in loco.  Apenas quando querem, geralmente quando afetam diretamente a si. O problema dos outros são dos outros. Esse é o espírito patriota que vem lá de longe, talvez uma herança Portuguesa, talvez consequência de uma cultura falida, talvez pela má educação, talvez pela economia que não investe, que não economiza.
 De fato tudo isso acontece e você ainda quer que meu herói seja um jogador de futebol porque somos o país do futebol? Meu herói ninguém vê, ninguém o conhece, ao menos por agora. Meu herói é meu espírito de mudança e aos poucos eu mudarei o mundo. Você pode rir ao pensar que eu nunca poderei mudar nada que seja notado, talvez você até tenha razão. Mas com certeza eu conseguirei bem mais que isso, e você não notará, pois a minha missão é ser imperceptível.
 Rico nunca serei, feliz já sou faz um tempo.
 Meu herói sou eu mesmo, e minha jornada está apenas começando.
 E você?
 O que te faz querer o infinito?
 Quem é o teu herói?








sexta-feira, 20 de junho de 2014

Canção para não voltar.


 Aceitando o convite para um jantar com amigos, me dirigi então para o restaurante. As vielas eram tristes, cinzas em quase todo ladrilhar, não haviam transeuntes despreocupados, nem passos apressados ou sequer animais desavisados. Ainda assim, abraçando-me do frio da noite, continuei o caminhar. Naquela terça qualquer, qualquer coisa poderia acontecer, principalmente nada. E assim o fizera. Nada de logo aconteceu.

 Éramos 11. Ímpar por impeto meu. Não quis convidar ninguém por um aparato medíocre. Um convidado, ele ou ela, apenas causaria mais furor, afinal de contas, eles contavam com isso. Era um típico jantar de demonstração de como ser um casal feliz. E, após alguns minutos, horas eu presumo por mero jogar, após meus lábios sadios beijarem por mais uma vez os lábios da garrafa por eu abandonar a taça marcada de batom, não me pergunte de quem, eu mesmo me despojara de tal feito logo na segunda aparição. Se bem que entre nós, homens e mulheres de idade mediana, um batom ou outro, em qualquer lugar que seja, raramente tem uma explicação plausível. E, de fato este também não havia como explicar. 

 Atravessei a quarta garrafa de vinho tinto. Isso me dava mais confiança do que apenas brincar com triunfo aos assuntos dos homens. Alternadamente eles se apresentavam: um homem, uma mulher, um homem, uma mulher... eu, um homem. A corrente se quebraria de qualquer forma, pois meu lado afetuoso tortuou pelo caminho do similar. O que eu já nem me queixava de acontecer entre nós, amigos de uma vida. Sabe, uma vez eu fui tão seco em manifestar minhas vontades que de passar-bem ficara apenas a conta do almoço naquele dia. O assunto correu por mais de lustro em meses, e eu apenas ignorava. Cansado de tanta chatice apenas aceno a cabeça para os fatos e dou de ombros para as negações, e como esperado, após primaveras tudo voltou ao normal. Ou melhor, tudo piorou.
 Enquanto aprecio o vinho fingindo não me importar para as carícias entre casais, eles continuam os questionamentos: Achei que estivesse namorando, o que aconteceu? Está com vergonha dos seus amigos? Não me diga que você é machista de deixar seu amor em casa? Já ficou com ciúmes, é isso? São tantas perguntas inconsequentes que apenas mais um gole os salvam da minha rispidez.

Garçom, obrigado, vou precisar de mais duas dessas. Não, não se preocupe que estou a pé mesmo, moro aqui próximo. Obrigado.

 Então, digo-lhes, estava mesmo namorando, mas como todo namoro tende ao fracasso. Fracassou. Ah, e já aviso meus caros que não me venham com dúvidas pois de respostas eu não as possuo.
 Eles se entreolharam, elas cochicharam um pouco, o murmurinho deles tornaram o ambiente curioso. Parei por um momento quando o garçom veio com a outra garrafa. Já era hora. Então, o rapaz do lado perguntou como se por um soluço inesperado: E se ele pedisse para voltar?

 Eu não seria leviano em responder com apenas Sim ou Não aquilo que ele esperava em explicações afetuosas e/ou emotivas em contrário. Respirei fundo e, ao pegar a garrafa, discursei algo que acredito que nunca conseguiria manter em perpétua linha de raciocínio se sóbrio.

 Acredito eu que, dizia-lhes olhando para a garrafa de vinho, se dos motivos eu não soubesse ou se fosse caso de medo ou circunstâncias similares, até poderia eu pensar em reatar esse relacionamento sadio. 
Eles pararam de comer, dos goles apenas os mais furtivos, mas todos os olhos estavam em mim, as orelhas então captavam todo o meu som. Aquela mesa de 11 pessoas postas ao prazer do convívio estava para mudar. E como sempre, tive que confessar-lhes mais uma vez dos meus motivos. Pousei a garrafa na mesa sem por um gole adentro, não sei se pouco sóbrio ou meio alto pelo vínico, eu dirigi exatamente meu pensamento como se guardado em carta e devidamente endereçada àquele. Uma resposta ao portador. Algo que nunca tivera chance de poder fazer. Dialogar.


 Mesmo que fosse um pedido sincero para voltar, respondia sorrindo, eu não voltaria. Vocês sabem que o mundo não é feito de 8 ou 80, todo mundo aqui tem suas razões próprias para estarem com seus devidos companheiros. Senhores, olhava-os, senhoras... E como todo relacionamento, há situações que aguardam por respostas, e a qual me deparei outrora não era uma dessas. 
 Sei que pode parecer um pouco rude de minha parte, ou até mesmo desgostosa, mas eu vivi bons momentos, os senhores bem o sabem. Entretanto, o caráter de uma pessoa não muda da noite para o dia, e para mim, relacionamento é algo para se viver como se fosse para sempre. Cada um de vocês buscam alguém para poder criar uma vida, família, trabalho, futuro, seja lá o que for. Buscar por sexo por conveniência não faz uma relação durar, tampouco rotular como saudável, ainda que sem responsabilidades de casal. Brindei imaginariamente para três na mesa, em tempos remotos eles passaram bom tempos levando um relacionamento por comodismo.

 Para mim, você namora para testar, noiva para mostrar que está pronto e casa para formalizar uma vida. Daí vem filhos, bichos e outras tantas responsabilidades. Se você não tem pensamento de construção familiar, já não sei o que teus pais ensinaram, mas os meus sempre me mostraram que a vida é feita de fazer vida, de viver com vigor. E assim, busco alguém que procure o mesmo, que trabalhe o mesmo objetivo de vida. Uma família. Porque ser sozinho aos 50 anos é difícil, amigos têm vidas próprias e animais não ajudam a pagar contas, nem a secar lágrimas e até mesmo criar sorrisos.


 

 O bom disso tudo, continuei falando como se analisasse a garrafa de vinho, é que continuo pensando em realmente ter filhos. Hoje mais que nunca vejo que uma família é continuar com nossa própria existência. Vejo também que as pessoas do meu círculo são levianas, não sabem bem o que querem por nunca terem que querer muito. Elas vivem em um espaço cômodo entre o que elas devem fazer com o que elas podem conseguir. Sonhar dá preguiça, e suar vira perda de tempo. Querer é um verbo que deve ser prestacionado ou então não merece sacrifício. 
 Dei então o primeiro gole da minha ultima garrafa.
 Hoje tenho quase trinta anos, vivi alguns romances falidos, fui um amante fodido, um rebelde sem causa. Hoje me liberto de hipocrisia idealista em que tudo pode ser natural ao homem se o comum disser que sim. Da ditadura da beleza lineada, maquiada pela própria produção de demonstrar aquilo que não é. Viro as costas para tudo isso. Então meus caros, tenho que lhes ser sincero por mais uma vez hoje, experimentem este vinho bordô. 

 Eles riram, creio que entenderam que das coisas que não podemos controlar, por vezes temos que continuar sorrindo. Desta feita só me resta agradecer e seguir em frente. Meu coração criou mais um detalhe na vida dos meus sonhos, ter uma espaço, seja ele qual for, onde eu possa ser feliz ao divulgar minhas palavras silentes. Ser parceiro de alguém que te apoia é ter um aliado contra o mal. Ter um Robin quando for o Batman, Ter um Tico quando você mesmo for o Teco, e quando a noite ficar muito maluca e você quiser dominar o mundo como o Cérebro, ter um Pink para ajudar-te, para dar graça a noite, para, ainda que falhando com os planos todas as noites, continuar te apoiando em mirabolantes planos estapafúrdios. 


 Do casamento já aviso, arrumarei alguém para ser meu par. Eles riram por mais uma vez. Claro, ficar na mesa dos solteiros além de ser descortês, seria ultrajante para alguém de quase meia idade. Em tempos de vapor iônico, estar só significa problema. Ser só, significa coragem.
 Sou uma pessoa solitária. Mas não sozinha. Quando ao necessário sempre há uma alma querendo o mesmo fim, bom ou ruim. De todo perdura a minha solitude companheira, que trabalha de mesmo modo todos os dias, segunda ou quinta, noite ou dia. Estamos juntos ao evitar os enganadores ou oportunistas de corpos. São estes que conduzem boa parte dos quebradiços corações. Aos que gostam de pagarem por sua solidão e ter em troca frustração, meus pêsames. Alugar um coração para mim é muito caro, posso perder minha licença de boa pessoa. Já para aqueles que gostam de fazer, boa sorte. 

 Gostar de alguém é tipo um contrato, firmando cláusulas hora e outra, de uma vida tranquila, dupla, seguida, infinita, assinada pelos amantes. E se caso houver dúvida, não chame outro(s) para o sanar, ou fará de modo quieto e sábio, ou então rogarás desculpas para deixar o outro em repouso. Não o faça, liberte quem não tu queres para que este possa ser melhor tratado por outro. Assim funciona com os pássaros, assim funciona com os corações alados.

 Confiar é acreditar que seus próprios valores podem ser compartilhados por outro.
 Não há título, jóia, contrato, descendentes que os segurem. Nada é mais forte do que a vontade humana, nem mesmo o amor, nem mesmo a esperança. A força de vontade é o que alimenta o giroscópio universal.



 A garrafa de vinho acaba em segundos, quase do mesmo modo que meu breve discurso. Como se nada tivesse acontecido, os outros se conversam, se firmam, se abraçam, comem, bebem, procuram em bolsa por coisas, se arrumam na cadeira, o garçom volta a circular.
 A segunda garrafa chega, mas já nem quero. Estou saciado por um mês inteiro. Agradeço a presença de todos e logo me disperso. Da conta deixo um bom grado, talvez nem pago o que consumi nesta noite, talvez pague de dois ou mais três aqui presente, quem se importa. Vou ao banheiro cambaleando antes de ir de vez. Ao molhar água em rosto me vejo, sereno, ruborizado do vinho, vitalizado pelas próprias convicções. Se for para amar alguém, que seja alguém de verdade. Alguém de coragem para ser e lutar pelo o que quer. Alguém que fuja dos paradigmas moribundos do dia. Alguém que queira sempre o bem. Alguém que não esteja à quem. Ao enxugar o rosto me vejo, cansado das mesmas promessas vazias de quem não sabe nem conjugar verbos. Alguém que não se valoriza nem pelo o que diz. Alguém que não sabe se se faz bem. 
Dou novamente adeus aos amigos. Demora um pouco para me despedir de todos, se bem que a cada abraço rezo para que sejam sempre os mesmos, ou mais uns miúdos. Espero um dia também ser sempre o mesmo, junto daquele que cuidará dos meus miúdos.
 A noite continua fria, enrolo meu cachecol por duas vezes. Admiro as estrelas antes de descer os degraus. Caminho para casa bem devagar, não gosto de errar os passos cruzados por um alcoólico jantar tão bem aproveitado. Tenho uma felicidade saudosista no peito, um caminho escuro e vazio pela frente, uma cama quente a minha espera e o sonho.

O sonho de ter uma família.







Apenas o céu

Foto por @sanamaru O amargo remédio se espreme goela abaixo, a saliva seca e o gosto de rancor perdura por horas. Em vez de fazer dormir ele...