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domingo, 3 de julho de 2022

Clipes, grampos, tônicos...

Photo by @KBotchan

O cheiro do perfume forte de cor amarelada estava no ar. Senti teu cheiro e tua voz chegarem como se estivessem atrasados. Quem você pensa que é? Você me perguntou com uma voz quase que formal. A gravata alinhada, o relógio no pulso, a barba feita. 

Você me cobrava mais uma vez.

Abaixei a cabeça tentando disfarçar minha vergonha, mas eu sabia que você tinha razão. Trespassei os limites e usurpei um lugar que não me cabe, nunca caberá. As mãos trêmulas tateavam os papéis à frente, as mãos sugavam vácuo de desmérito, o vazio ocupava todo aquele ambiente quadrilátero. 

Balbuciei tentativa torpe de desmistificar meus ideais. Sua voz soou como um soco, atordoando toda aquela certeza que carreguei por um certo tempo. A certeza que nem minha era. Sinto muito, sussurrei.

Os passos firmes se aproximaram, senti o cutucar militarizado. Quem você pensa que é? Duvidou nos meus ouvidos num laminar sussurro. Arrepiei de baixo para cima. A garganta seca gaguejou qualquer solução da descrença posta em cheque. 

Não consegui pensar em nada.

Olhei de soslaio para minhas convicções pregadas estilo post-it para que eu me lembre sempre de quem eu sou e para onde vou. Dependurados, alguns, pousados falecidos ao chão, outros. Você petelecou um por um. Tão frágeis. Não demoravam a cair de tão pesada farsa de ser. Não deveria ter logrado vitória por tão pouco. Quem eu penso que sou afinal? Esse lugar não me pertence. Veja, veja comigo, você aponta para as memórias no chão liso, se isso fosse teu mesmo, jamais cairia assim tão fácil. Seu olhar me diz tudo aquilo que tento disfarçar. 

Medíocre. 

Ruminei essa sensação estranha de fracasso por uns dias. Descontente por inúmeros motivos, talvez essa viagem nem tivesse detonado o gatilho, mas, de fato, um ponto certo para ebulir esse sentimento tão corriqueiro. Começo a descaminhar minha trilha, certo de que errado estou, mais um vez, esperando algo ou alguém me apontar para algo correto.

É muito mais do que acreditar em si ou ouvir elogios. É tapar buracos no peito, feitos com ferro quente de ponta cor de lava, feitos carinhosamente por tantos e tantos anos, por pessoas que me amam. Sim, amam. Na medida do que cada um acredita o que é o amor. A quem decidir dizer que é amor.

Você é tudo o que eu tenho como referencial. Não conheço ninguém próximo que quero ser, um(a) artista que vejo como fonte de inspiração, não há qualquer representação social, quiçá política? Como saberei quem eu quero ser se não há ninguém ali sendo? Vejo meus amigos e familiares sempre com seus ideais ali, prontos, com suas vidas complicadamente perfeitas. Vivendo, sendo, fazendo tudo aquilo que eles deveriam... não deveriam? 

O que resta para mim? 

Tenho a sorte de um amor tranquilo. Ah, Dindir, se tu soubesse que eu não sei o que estou fazendo e tenho medo de decepcionar essas esperanças depositadas em mim com tanto esmero. Sigo tomando remédio que me dê alegria, procurando um colo que me alimente, que me adore, que olhe para mim em dias como esses, ensolarados e convidativos inflexionados pelo meu olhar cabisbaixo, e dê um balançar de cabeça simples, afirmativo, calmo e natural.

Seus olhos me acossam, suas mãos encostarão nas minhas e ficaremos em silêncio. Minha cabeça trovoando, nos bolsos aquilo que consigo carregar sem deixar cair, e o silêncio no espaço único onde nasce e morre, todo amor.


 



segunda-feira, 12 de julho de 2021

Se passam os dias

Photo by @beholdvoid

As músicas vão passando, o calor se instala, mas o sono não vem. Hoje é mais uma daquelas noites que, mesmo cansado, demorarei a dormir. Pauso o player, me espreguiço, jogo meu corpo para o lado, pego a garrafa do chão, desrosqueio a tampa metálica, um, dois, três, quatro, cinco goles de água. Isso me fará ter um pouco de coragem. Levanto, vou ao computador, posto a garrafa de vinho de uma lado, mouse do outro e cá estamos.
Essa semana foi um pouco diferente, aconteceram algumas coisas que achei que esse ano talvez não o tivesse. Além de uma bicicleta para poder ir e vir em noites quentes, alguns filmes me voltaram ao mérito de querer apenas relaxar. Vi um, ou dois filmes, desses famosos durante os anos 90/00, os que chamo carinhosamente de Sessão da Tarde. E, quem sabe, trago aqui depois algumas breves indicações? 
O que eu queria mesmo, era contar que já se passou um ano desde que comecei a fazer as lives para não me sentir tão sozinho. Graças a pandemia, tudo se tornou extremamente desgastante, seja fazer uma amizade, seja manter uma amizade. Fácil foi acabar com elas, ou deixá-las no limbo do esquecimento. 
Olho para janela e vejo os vizinhos em festa. Eles fazem churrasco todos os domingos, religiosamente. Eles riem muito, conversam muito, às vezes até dançam. Sinto falta desse tipo de possibilidade. Perdi meus amigos por ser aquele que ainda crê que a pandemia pode matar. Os poucos contatos que tinha acabaram por se afastar para não me ouvir falar que o que eles fazem é errado: É errado sair pra transar com várias pessoas diferentes no mesmo dia; é errado passar o final de semana viajando com o namorado para visitar outros amigos; é errado beber no barzinho pop cheio de gente só para aliviar a saúde mental... me tornei o fiscal dos amigos. Aquela pessoa que todo mundo odeia.
No começo da pandemia era apenas pelos stories, e as poucas pessoas que se aventuravam fazer essas coisas eram rechaçadas e "canceladas", agora é tão vulgar que o errado é não fazer o que todo mundo faz. Respiro fundo e balanço a cabeça com um sorriso amarelo, finjo interesse e logo depois volto para minhas paredes. Converso com meus botões, diálogos profundos sobre a grande vastidão da solidão.
O mundo, através da janela, é tão bonito. Os céus desses últimos dias riscam vermelho neon tão gostosamente lindo que dá vontade de sair pedalando até o horizonte, desafiando as planícies mais questionáveis. O frio vem e passa, a moda vem e passa, e as pessoas... essas aí são complicadas.
Existem dois tipos de pessoas nas nossas vidas: as pessoas onda do mar e as pessoas planetas. 
As pessoas onda do mar são aquelas que acontecem na nossa vida por um período, elas podem vir e ir tão rapidamente que talvez você jamais lembre dela pelo resto da sua vida. São colegas de infância, amigos do trabalho, parentes distantes, alguns amores rasos... Já as pessoas planetas, elas somem e aparecem em uma constância significante. Como se orbitassem ao teu redor. O magnetismo delas vão te fazer crescer ou diminuir, vão te marcar de algum modo, elas te puxam para experiências únicas e, até mesmo aquela que você nem se lembre, assim que algo acontecer você estalará direto para ela, como um insight profundo e intenso, igual Plutão, que já foi um planeta.  
Do ano passado pra cá me aconteceram muitas coisas, a maioria repetidamente enfadonha que nem vale a pena citar. Aconteceram algumas pessoas no caminho, conheci histórias novas, desejos novos, sonhos intrigantes. Não sinto falta do antigo normal, as coisas de 2019 pra trás. Sinto falta das possibilidades, de acreditar no universo infinito. Sinto falta dessa essência de crer que tudo ainda vai acontecer.
A maturidade vem dragando cada vez mais, puxando para um buraco perverso onde todas as coisas são imagináveis, mas não possíveis. Daqui da janela os pássaros seguem cuidando do ninho, a família ali festeja como se hoje o mundo fosse acabar. Talvez crescer seja isso, passar a ver o mundo mais sólido, menos etéreo. Sonhar menos e aceitar mais, ter convicções certeiras sobre pouco e parar de querer ser tudo.
Ser infinitamente, possivelmente, apenas tudo. 

quinta-feira, 25 de março de 2021

(In)Competência

 

Imagem por @brianchorski


Era uma questão de tempo quando ele veio se redimir outra vez. É sempre sobre escolhas, família, amores e sonhos, que no fim das contas, vão por água abaixo. O estopim do desmoronar da sólida relação ao estilo wreking ball (Miley Cyrus, 2013) foi o despedaçar do sonho, do teu sonho. Quando conversamos sobre sua projeção em ser o novo namorado, a persona virtual no Instagram pelos nove mil seguidores, a projeção na relação dele com a mãe, e a reflexão sobre cursar o curso que ele faz, nada disso me fez chutar o ultimo tijolo do que chamávamos de amizade. Veio mesmo no convencimento de que ir atrás de um sonho é perda de tempo. Que a vida é injusta demais com os bons e que tudo o que fizerdes, por mais forças que tenhas, nada disso iria adiantar na tua jornada. Foi então, neste exato momento, onde você escolheu usar disto para justificar um amor que não existia, que tudo apagou em mim.

Engraçado, fico sorrindo ao lembrar que as pessoas ao meu redor já desistiram de ti faz muito tempo. Elas sempre me diziam que você não merecia tanta atenção assim, que tudo na tua vida é um engavetamento frenético de péssimas escolhas onde tudo se justifica para que você possa não se afoga em si, nas próprias mazelas de rancor por não ter sido amado como achas que deverias. Eles até têm razão, sabe? A questão é que eu ainda gostava das nossas conversas engraçadas, seus atos falhos com vocabulário, suas frases desconexas e prolixas, os sonhos de cinema e audiovisual que tanto te empolgava, tudo isso me deixava alimentado de que tu merecias meu apoio, e por mais que eu não tivesse nada para te oferecer, você ainda aceitava minha presença.

Sabe, eu pensei muito nessa relação de pai e filho ao qual uma vez foi me apontado e, por um segundo, eu me senti tentando controlar tua vida. Dando ordens de estudos, atividades e, até mesmo, como e quem você deveria amar. Não sou pai, irmão ou filho, psiquiatra ou psicólogo, nem neurotípicamente posso dizer que te endento em todo. Então, comecei a esquivar da obrigação de nortear teus pensamentos quando estávamos a dialogar. Talvez, assim, as coisas continuem rumando para um lugar diferente, sem a necessidade de estar certo ou se sentir culpado. Quem sabe?

Dos planos e projetos eu já havia desistido. Uma coisa que eu sempre percebi é que te falta responsabilidade. Sim, sei que parece duro, mas é justamente a palavra que melhor explica o que se passa. De acordo com Oxford Languages, responsabilidade pode ser definido como "obrigação de responder pelas ações próprias ou dos outros", e essa obrigação sempre é massacrada por dizeres como "não pude", "não tive como", "não me deixaram", e nós sabemos que o que faltou foi só a priorização do que realmente importava. Essa doença de ser sempre ávido a responder a família que te suga tanto, de ser benevolente aos problemas dos outros, a gente sabe que tudo isso é autossabotagem. Convenhamos. Alguns momentos podemos até dar o privilégio de dizer que o prazo não fora cumprido por este ou outro motivos, isso com uma escala grande de tempo entre eles. Agora me dizer que todas, TODAS, as tuas coisas não podem ser cumpridas porque sempre algo te obriga a fazê-lo. Isso sabemos que é impossível. Uma porque podemos sempre escolher o que fazer ou não fazer, ainda que fiquem chateados conosco, decepcionados ou até mesmo nos odiando para sempre, mas são nossas escolhas; segundo que se há um prazo a ser cumprido, não se fode deixar para o ultimo momento para fazê-lo, isso se chama irresponsabilidade. Ainda que me diga que és brasileiro e que tudo se faz assim, o nome continua sendo irresponsabilidade. Tanto que se você não cumprir certos prazos, terás uma consequência terrível, seja uma multa por renovação documental ou até mesmo a perda de um edital. 

Talvez o problema não seja a obrigação, mas a consequência. Quando se é para falhar com algo que te traz prejuízo, sabes correr atrás. É uma entrevista, um boleto, um exame. Quando é um projeto com um amigo, como o amigo sempre vai estar lá para ti, daí vem as desculpinhas: é a garganta, a coluna, o gato que passou mal, a mãe que brigou o dia todo, as tias que pedem favores irremediáveis, o carro que bateram, a internet que caiu... e tudo isso acontecendo a toda hora e todo momento. Pode me chamar de insensível, agora te pergunto: isso também acontecia quando você namorava e morria de amores pelo 9-mil-seguidores? Porque não consigo vê-lo ficando de lado por tanto tempo aceitando essas condições, arrisco dizer que tenho certeza, CERTEZA, que a prioridade era dada a ele e não as coisas que poderiam se resolver sozinhas ou nem resolver.

É que, no final do dia, quando quiser conversar eu vou estar aqui, pois decidi ser teu amigo. Não é?

Era.

Hoje, imagino que deixo outra pessoa que precisa e quer ajuda seguir o caminho dela, pois tu se tornas responsável por tudo aquilo que cativas, e mais uma vez, a feição acabou. Hoje somos estranhos que se conhecem. Desejo infinitamente que as coisas melhorem pra ti, tua família e coisas que te acontecem, que o amor verdadeiro te consuma e te derrame do jeito que queira e mereça, que a terapia te ajude a descansar essa busca por aprovação e afeto que tanto buscas desesperadamente, ainda que em tempos de pandemia massacrante do genocida medíocre e que, quem sabe, nos esbarremos no futuro para uma conversa e outra e decidamos juntos reconstruir esse castelo.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Adianta falar?

 

Foto por @wilma_arts

Começamos um novo ano em meio de uma pandemia, a maior deste novo milênio talvez? Quem diria que algo tão pequeno poderia nos tirar o sono, a vida e até mesmo a esperança de um mundo melhor?

É virada de ano, e claro, estou com aquela desesperança contínua na humanidade. O mundo dos anônimos atônitos está cheia de festa, de gente, de música e álcool. Aglomeração generalizada. Porque é amor. É fim de ano, tem que abraçar os queridos, a família, os de longe e os de perto. Passamos por um ano desgraçador e conseguimos sobreviver. Isso mesmo, apenas sobreviver, porque temos Deus, porque temos sorte, porque apenas não era nossa hora somada aos coquetel de remédios dado pela ciência. Aconteceu o pior de tudo, o descaso com saúde pública, a mesquinhes do burguês. Fomos de um carnaval meio assim até o fim do papel higiênico na prateleira. Gente perdendo emprego pela crise, pela má fé, pelo caos que é não ter um fluxo de caixa. Os leitos do SUS sendo leiloado e o do privado sendo surrupiado.

É... fomos de um grande problema para um problema imenso. Aí, depois de tanta lamentação, depois de tanto sufoco, tantas lágrimas e febre, cá estamos. Contamos os últimos segundos deste ano merda. Sei que aconteceu muita coisa boa, óbvio que aconteceu, mas para mim nenhuma notícia é boa e tão suficiente para não ser esmagado pelos mais de 196 mil mortos no tempo desta postagem.

Eu consigo ignorar tudo o que acontece lá fora, porque tenho o medo de morrer e o imenso privilégio de poder ficar em casa. Controlar a ansiedade e a insanidade de não socializar foi difícil, e tão possível quanto escolher qual novo hobby investir para cultivar bons pensamentos. Atentar aos detalhes simples da vida, respirar, ouvir os pássaros, rir com risadas do vozerio, tomar o sol com meditação, a meditação, fazer comidas novas, fotos e filmes, e tantas, mas tantas coisas bobas, pequenas e simples que contornavam tantas horas do meu dia.

Os podcasts foram meus amigos de horas seguidas e pessoas foram amigas por seguidas horas. A vida aconteceu por lá, sim, e muito. Foi uma saga acompanhar como telespectador comentarista, dando uma de psicoamigo das horas ruins e compartilhador de coisas boas. Só que hoje, nessa virada de ano tão repugnante, é válido frisar que boa parte dessas idas e vindas como coadjuvante apenas é desapontador. 

Não é mágoa, tristeza ou decepção. É um mix dessas sensações de disforia e empatia subjugada. Conceituo "público" aquilo que é de bem comum a todos, e saúde pública como ramo específico que cuida dos fisioquímicos que melhoram e/ou pioram nosso bem estar biossocial. Visto isso, através dessa varanda, sei que muitas dessas pessoas que não se importam com a pandemia ou deixaram de se importar quando passaram pela infecção, já não presam pela saúde pública. O que importa é o carpe diem, viver o agora, YOLO (you only live once), Deus no comando.

Eles daqui, os seguidores do presidente, não são tão diferentes dos conhecidos de lá, os militantes de internet. Porque sei que quando o assunto é sair de casa existe uma lista imensurável para justificar a máxima "é para minha saúde mental". E isso machuca. Não machuca como um crime real, e sim como um peso na desesperança. O que me passa em mente é: você realmente está dizendo que comer sushi com o namorado numa quarta-feira com 10 amigos, tirar muitas fotos juntos, gravar stories é para sua saúde mental? Que no final das coisas estavam todos com máscara (ou no queixo ou no bolso)? 

Tenho problemas reais nos pulmões. Cicatrizes profundas de derrames e tuberculose, asma e bronquite, sinusite e pressão alta. Autismo e ansiedade. 

Quando me chegam essa máxima de "é para minha saúde mental" depois de ver a semana toda as fotos e microvídeos de praia, cachoeiras, shopping, passeios, amigos, famílias, como se fosse 2019 e anterior. Como se as ruas não fossem uma bomba viral, como se o grande inimigo da humanidade não fosse a desumanidade egoísta do só se vive o agora. 

Estou realmente vivendo o isolamento social.
Não pelas paredes que me riscam a solidão, mas através das pessoas próximas que me sonham em leito de hospital ou em caixão a sete palmos, esses sonhos que elas sequer lembram porque dão em troca pela "minha saúde mental."

Respiro fundo.
Feliz ano novo digo para o céu. Porque você sabe o que está fazendo errado, você sabe o risco que é fazer tudo isso, você escolhe baseado nisso e naquilo, e no fim das contas o outro é só o outro.
Foda-se a vida.  

domingo, 20 de setembro de 2020

Ultimo suspiro

 

Imagem por breezeh ou @briscoepark
Imagem por breezeh ou @briscoepark

Navegar pelas redes sociais em tempos de pandemia é um caminho tortuoso. No começo, entre os três primeiros meses, tudo era novidade. As fotos dos cantos nunca antes explorados da casa, os diálogos entre as pessoas que conseguiam fazer o isolamento, as denúncias de quem escolhia não fazer e as várias produções artísticas. Eram lives atrás de lives. Lembro que em várias dessas lives, as postagens rápidas eram quase sempre as mesmas: pessoas juntas bebendo e comendo, comemorando e ouvindo os concertos pelas plataformas.

Na segunda etapa, foi meio que uma releitura. As pessoas começaram a desenterrar coisas, joguinhos da era do orkut, veio a onda das indicações (me indique um filme, me indique um album, me indique alguém), tiveram inúmeros movimentos do não-vai-ter-eu e várias hashtags. Tudo era motivo para explodir, seja um reality show, seja as tramoias do governo decadente. Tudo era pólvora para a fúria da ociosidade. E leia que esta ociosidade não é a falta do que fazer, mas a exaustão do confinamento. 

Aqui é necessário explicar que estar em quarentena, em isolamento social real não esses onde a pessoa se diz isolada e visita todo mundo, vai à festa, reunião, consultas não urgente... enfim, você entendeu. Aqui a quarentena causou exaustão pela mesma coisa repetida, foi o que deixou a mente exausta de verdade. A mudança do cotidiano, números de mortes na televisão subindo, o home office obrigatório para alguns, o lançamento nas vielas para outros. Saber se está infectado deixava todo mundo nervoso. Os índices de ansiedade estavam lá em cima, beirando a insanidade. 

Na segunda etapa é justamente onde se instala a crise. Governo decide sacrificar as pessoas, o comércio se vê obrigado a continuar firme, as pessoas comuns não têm opção, vão trabalhar, vão se contaminar sem saber. Vidas se perderam mais rapidamente que a própria contagem de casos. Como já esperávamos: foi cada um por si e Deus por todos. Foi uma fase triste. Perdi familiares para gripe, alguns outros entes mais próximos ficaram internados severamente e eu aqui no fim do mundo.

Não poder acompanhar o que se passa é muito, mas muito ruim. Você fica sequestrado a qualquer notícia, boato ou menção indireta àquilo que se quer saber. E, como mais uma vez, esperei para saber de tudo. E, por mais penosa que fosse a situação, eu não podia fazer muito. A minha arma é a ligação. Ligo quase todos os dias para ela e nunca está disponível. Depois dele, ela morreu de vez. Não há conversa que se sustente por mais de 10 segundos. Quando acontece uma resposta de mensagem rápida é sempre a mesma coisa. A praxis de 1) Como você está? 2) se cuide 3) mande lembranças. 

É estranho olhar que você viveu tanto tempo com essas pessoas e não as conhece, não sabe de onde vem ou para onde vão. Que o máximo de apoio que dão é batido com cinco ou mais comentários depreciativos. A toxicidade é tanta que corroeu até meus ossos. Repondo o item 1, os seguintes mando sticks. São mais práticos e mais alegres que a conversa que se afunda em todas as tentativas. É deprimente.

Passou a terceira fase, foi uma agonia aguda. Foram semanas de exames, sintomas, medos e angústia. A televisão repetia infinitamente o que já tínhamos decorado. Na teoria, só sai de casa quem realmente precisa, e ainda assim tomando todas as medidas pandêmica de saúde. Na prática, nada mudou. Quer dizer, o uso seletivo de máscara foi condicionado. Usar máscara é estar seguro. Não importa se em um ônibus lotado para ir ao trabalho, ou uma fila enorme do lado de fora do banco para sacar um dinheiro que não paga o aluguel. O que esperar do espírito brasileiro depois dessa derrota gigantesca para o bom senso? A política continua dizendo "fodam-se", as pessoas continuam fazendo o que dá pra fazer, e eu aqui. Eu aqui vendo tudo através de uma mar de informações.

A gripe chegou por aqui esses dias. E nem bem chegou e já estão em pós-pandemia. O mundo pode até está em pós alguma coisa, mas o Brasil? Não meu caro, o Brasil está moribundamente se arrastando por ela. E já considerei esse ano como perdido. Já era. Até tentei criar projetos e desenvolver coisas lá antes da segunda fase. Depois que tudo deu errado por incompetências alheias. Eu parei de ouvir que a culpa era da pandemia, do COVID-19, e apenas abracei a ideia do governo: "fodam-se". Passei a negar tudo e qualquer coisa que envolvesse um começo. Mais nenhum projeto com ninguém este ano. Assim, não ouvirei mais nenhuma desculpa sobre pandemia.

Isso relaxou-me tanto que parei de contar os dias que estou enclausurado. Mesmo com todos os anúncios de passeios, descontos para passagens e, obviamente, pessoas festejando o tempo todo, eu sigo firme na quarentena. Ouço o vizinho de cima fazer um jantar e chamar família e amigos, o do lado com amigos fumando narguilé, os de trás fazendo aquele churrasco da família tradicional supremacista branca. 
E eu aqui, passando água e sabão em tudo o que chega, tomando coragem e correndo desesperado para colocar o lixo lá fora. Vendo o mundo por telas, vendo as pessoas se abraçando pela janela, sem saber ao certo se isso sempre foi normal. Um universo inteiro de bom senso jogado fora por tantos motivos que a exaustão mental nem deixa pensar, só ligo a televisão e vejo mais um episódio, ouço mais um podcast, jogo mais um jogo para descontrair. 

Se eu morrer mesmo em algumas horas, essas pessoas nunca saberão quem eu fui, ou para onde eu iria. Os conhecidos lamentarão por alguns segundos, os familiares farão as cinco etapas do luto e ficarão bem, já as redes sociais me perpetuarão para sempre o existir. Para sempre.


domingo, 12 de abril de 2020

Midnight dinner


art by @pigeoncindy_

A imagem da cidade toma conta do cenário. O caminho é nítido pela cidade noturna. A trilha que acompanha não te energiza. Ela te diminui e te comprime ao máximo que dá. Assim, você cabe no teu próprio vazio, um bolso te molda e você segue pela avenida movimentada. Há tanta gente na rua, as luzes fortes dos letreiros nos cegam por reflexo. 
A faixa de pedestres é inundada pelo cardume de gente. Indo e vindo eles vão, eles vêm. A trilha não aprimora a leveza, ela sutilmente te deixa entorpecido e se deseja triste. A tristeza consiste numa tendência quase que automática. A noite é solitária, as pessoas não se completam mais, elas apenas se conectam. A tristeza que vos falo não é deprimente, enfadonha ou lacrimeja uma nota sequer. A tristeza que acalenta é aquela soturna, esta que nos acolhe antes de cair no sono. 
Chamo de tristeza porque é o mais próximo do conceito, poderia ser uma melancolia serena, uma solicitude sagaz, ou alguma dessas combinações não tradicionais.
Como algo que me afetou tão profundamente poderia ser tão fungível naquela hora. E foi isso que pensei ao sobrevoar as ruas de Tokyo. Respiro fundo e a cicatriz não tem marca, sobrou dela um nome que desejei guardar por mágoa. Mágoa esta que cultivo em troca de um livro insistente.
A minha coleção foi tomada para si com bravura e boca cheia. As palavras fartas e incisivas me cortaram o ultimo fio de relação que outrora havia. Era derradeiro o fim já sabido, e prontamente protelei para que não fosse real, mas é. 
A realidade, assim como a verdade, pode tardar a te jorrar os olhos, mas uma hora ou outra te trará lágrimas e ranger de dentes. E pedindo meu jantar da meia-noite me peguei contando meus botões, buscando prazer em memórias que justifiquem um mero sorriso. Não encontro prazer nessas memórias que queimam ardentemente ao som de uma verdade irreal. Uma certeza tão podre e fulgural que rompe qualquer sensação boa que tento fisgar do passado. 
Tokyo me traz essa tristeza pelas ruas, ao ver vitrines com coleções de coisas, tantas coisas. Coisas tantas que nem saberia por onde te falar. Acontece tanta coisa por aqui, queria te contar tudo a toda hora. Vejo as luzes da cidade, os semáforos, ouço as conversas vazadas e os sons das emoções. Nada disso vai ser levado adiante e, como um tesouro só meu, enterro nos travesseiros todas as noites. Deixei em caixas todo meu acervo passado, a que chamei tolamente de tesouro e, como piratas, elas  me conquistaram, me amarraram em promessas, cavaram no tempo e enterraram o meu sonho. No mapa existem vários xis marcando a localização não-precisa: as águas são bem-vindas, o tempo é tentador... bem, umas coisa que aprendi aqui em Shinjuku é que uma hora as coisas vão deixar de te fazer mal e fluirá em calor confortante. Meu jantar está pronto, itadakimasu, comerei vendo mestre satisfeito com minha presença, talvez ele queira saber que meu dia foi bom, inda que meu aspecto seja cabisbaixo. 
Só mais uma refeição delicada que me faz pensar nas coisas. Pensar no que realmente vale a pena. Provavelmente, tudo o que deixei para trás não signifique tanto assim. Afinal de contas, eu só sou uma conexão, um ícone que em alguns cenário vai te lembrar de épocas passadas. Ao sumir do virtual nada me sobrará e você terá apenas a promessa moribunda que nunca passou de palavras ao vento. E carregado por eles irei mais uma vez, sair pela cidade ao som de uma morna sensação de dever cumprido.  Jaa, mata ne!


terça-feira, 7 de novembro de 2017

Pacífico


 Percebo estar acordado, revolto entre lençóis, noite adentro, lua entre frestas do telhado, frio de litoral, você deitado ao lado. Outro pesadelo. Meus ouvidos ao lado do teu ronronar, sinto o hálito quente escorregando pela nuca. Seu corpo quente esmagando o meu. Abraçados como em uma despedida de longa data, seus braços me abraçam, sua voz diz coisas sem sentido, e a noite se afunila mais uma vez. Um pesadelo que me acontece muitas vezes. Acordar e te sentir aqui tão perto. Me deixo ir ao contorno da lua vazante. Sei que a solidão de agora vai passar assim que acordar. Essa aflição que me persegue, como alguém que espera sentado no canto da calçada. É só um pesadelo. Já já irei acordar e ver que continuo sozinho, e isso me fará bem. Afinal de contas, pessoas difíceis vivem sozinhas. Lembro da lua de hoje, do céu de hoje, a lua enorme como o meu sonho, tão longe quanto o meu caminho e tão real quanto minha vontade de continuar. Talvez você não perceba mais a lua como outrora, nem deseje os céus, vai ver isso só funciona pra quem está apaixonado. Sei que, agora que o tempo abriu de vez, a tempestade passou como um namorico, dias abafados e noites quentes fixarão aqueles que esperam o amor chegar, a calmaria de cedo perdurará como uma oração bem quista. 
 Passo um bom tempo sublimando os céus em fragmento, sinto as paredes coçarem meus pelos, relaxo por breve, e entediado volto a decifrar teu ronco. Me mexo para ver se consigo causar um acordar, mas o oceano deságua entre nós, afogando novamente qualquer memória de um tempo bom. Criado um mundo de encanto, parece que é isso que é ser amado, ou até mesmo amar. Mas alguém pode pôr tudo isso a perder. E assim, remexo. Você reclama e me pede para dormir. Sei que é nessa hora que eu deveria sentir a dor forte que escapa em alguns momentos do dia, mas é apenas um sonho ruim e por isso, apenas por isso, não há mais nada que sentir. Agora, tão tarde, ouço os galos da vizinhança cantarem. Outra madrugada em claro, com o fantasma do querer. Pode crer que costumo aprender, e sair por aí querendo ser feliz, porque o  meu oceano é Pacífico, e minha ilha é pedaço de terra que comporta toda forma do universo. Você me beija em sonâmbulo ato, e finalmente me liberto dessa sensação. Finalmente consigo dormir e saber que você não é um sonho. Amanhã acordarei novamente nessas águas, dia após dia, como uma cantiga de marinheiro. Olhe para o céu durante o crepúsculo e quando faltar segundo para o sol morrer, sinta meu ultimo suspiro.


terça-feira, 31 de outubro de 2017

Ride


I was in the winter of my life
And the men I met along the road were my only summer
At night I fell asleep with visions of myself dancing and laughing and crying with them
Three years down the line of being on an endless world tour and my memories of them were the only things that sustained me
And my only real happy times

I was a singer
Not a very popular one
I once had dreams of becoming a beautiful poet
But upon an unfortunate series of events saw those dreams dashed and divided like a million stars in the night sky
That I wished on over and over again, sparkling and broken
But I didn’t really mind because I knew that it takes getting everything you ever wanted and then losing it to know what true freedom is

When the people I used to know found out what I had been doing how I had been living, they asked me why, but there’s no use in talking to people who have a home
They have no idea what its like to seek safety in other people
For home to be wherever you lie your head

I was always an unusual girl
My mother told me that I had a chameleon soul
No moral compass pointing me due north
No fixed personality
Just an inner indecisiveness that was as wide and as wavering as the ocean
And if I said I didn’t plan for it to turn out this way I’d be lying

Because I was born to be the other woman
Who belonged to no one
Who belonged to everyone
Who had nothing
Who wanted everything
With a fire for every experience and an obsession for freedom that terrified me to the point that I couldn’t even talk about it
And pushed me to a nomadic point of madness that both dazzled and dizzied me

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Cool



"Sim, eu estou bem", é assim que geralmente eu respondo para que as pessoas não fiquem com aquele ar de piedade e consigam seguir o que elas realmente querem fazer. Porque eu sei como é difícil você gostar de alguém e não querer ficar mais com ela, mas também não tem motivos para ignorá-la ou largá-la por aí. É mais uma questão de amadurecimento de caráter, somado ao sentimento e memórias boas. Isso a gente aprende com o tempo, com a vida. Primeiro é difícil você desvincular o hábito, o dia-a-dia que passavam juntos, que se falavam e dividiam praticamente tudo o que podiam. Segundo, depois isso vai morrendo, as coisas vão ficando espaçadas, o ritmo começa a ganhar espaço entre o pensamento no outro e quando você perceber, já se foram dias, semanas, meses, anos e décadas. Sim, as décadas também chegam e quando você perceber o quanto de pessoa já veio e já foi, vai entender que deverás carregar sempre o que tem de melhor de cada qual. Ainda que a relação fuja, suma, acabe por traição moral ou física, além de qualquer coisa, roube para si os sentimentos bons que o mundo te aguarda. Não cultive mágoa, raiva ou qualquer outro sentimento ruim por muito tempo. Deixe as coisas decantarem dentro de ti, e refaça os teus próprios passos para a felicidade. "Sim, eu estou bem", repito para que você me deixe te deixar tentar ser feliz, porque âncoras como eu, por mais que consigam ir pelo mar quando há um barco, ela sempre, eu disse sempre, irá tentar te levar para baixo. Âncoras servem para dar estabilidade quando chega ao fundo, essa é sua função plena. E a estabilidade é justamente você perceber que não vale a pena carregar uma âncora por aí se você pode ter um motor de ponta e nunca precisar desse tipo de material. 
É interessante quando você para pra pensar em algumas pessoas que te fizeram bem por um tempo, como aqueles momentos únicos caíram no esquecimento por desmerecer aquela pessoa. Será mesmo que vale a pena esquecer tanta coisa? Ou melhor, será mesmo que vale a pena ficar pensando em ter momentos bons assim? Acredito que a questão por agora seja exatamente continuar dizendo que está tudo bem, assim ninguém fica incomodado em parar a vida por uma causa perdida. Convencer todo mundo que tudo está legal, so cool, e quando derem por si, serei apenas outra memória.

E foi uma reviravolta daquelas.


A folha que apanhei caiu do livro que abandonei lá por volta de 2016, não sei bem. Também não lembro quando escrevi aquelas palavras, mas lembro dos motivos. Lembro porque foram eles que estavam escritos em dizeres quase que profanos, ou melhor, quase como uma oração, rogando que aquilo fosse lido o quanto antes, mas era tarde demais. O aviso que escrevi para mim, na noite que encontrei o bilhete dentro dos envelopes, aquilo que deixei fluir durante horas de choro sem sentido que passei sozinho. Foi naquele dia, sim, foi naquele dia. Eu me avisei ali mesmo, em traços tortos e feito poema, avisei com tinta manchada de lágrimas, disse tudo o que eu não deveria fazer. 
Fiquei estático, claro, quem não ficaria? Como eu pude esquecer disso? Sentei na mesma hora, escorrendo pela parede, até que finalmente o chão me acolheu. Li uma, duas, três vezes até parar e pensar no tanto que fiz e deixei de fazer pra chegar até agora. Até esse momento em que tu estás a ler. Respiro fundo. Olhei para os meus livros e senti saudade. Esse medo de ter aprovação social que hoje tanto me pesa, é um dos motivos ao qual me prestei a dizer que ia cair em profusão mental. Olho para os lados novamente, e conto quantas vezes eu deixei de ser eu mesmo para agradar quem não merecia, quem não me merece. E, até então, agora, depois de me desfazer daquela carta sublime, sei que a resiliência me conforta, a empatia está morta, e a minha perspectiva para o futuro é apenas existir de uma maneira brande e quase que anônima, porque é assim que deve ser. Pessoas difíceis vivem sozinhas, lembre-se sempre disso, e quando você entender o motivo de tal, você vai ver que não é deprimente. Vai entender que pessoas são pessoas, e que nem sempre estaremos lá quando tudo virar de ponta-a-cabeça. Hoje, desperto mais um pouco a cada dia que passa, migro a condição de importar com o que se passa ao meu redor, para meados de 2014, quando eu saquei que a vida é apenas aquilo que eu leio, nada mais importa.



sábado, 21 de outubro de 2017

Tua mensagem me lembrou PalavrasdeDuas



Depois dos dezoito a gente aprende que tem amor que não precisa ser pra vida inteira. Não é fácil destruir toda aquela história de que amores são aqueles que vêm e ficam pra sempre, mas a gente aprende. Aprende vendo aquele casal que a gente tanto apoiava e que tanto se dava bem separando, aprende vendo pessoas que juravam nunca sair da nossa vida, pegando as coisas e indo embora. A gente aprende que pra ser amor não precisa ficar, alguns amores vêm e ficam o tempo que é preciso pra nos ensinar ou aprender algo, mas um dia se vão, porém, não é porque acabou que não deu certo, não importa o tempo que ficou, o amor não é cronometrado. Deu certo até ali, só chegou a hora de cada um seguir seu caminho e isso não anula o amor que foi um dia e que também ficou. Por quanto tempo foram a companhia perfeita para o outro? O quanto cresceram juntos? São inúmeras histórias pra contar que não anulam só porque não terão mais um futuro como manda o manual. A relação existiu, foi linda enquanto durou, não importa se foi um mês ou um ano, um fez parte da vida do outro e isso ninguém pode mudar. Cada um segue levando um pouco do outro, porque querendo ou não a gente sempre planta algo de nós dentro do outro. Mesmo que a relação tenha acabado, ambos serão especiais para o resto da vida. O final não tem a mesma beleza do início, seja ele de uma forma ruim ou boa, mas ele também tem seu devido valor, porque tudo que começa tem que acabar um dia, às vezes acaba antes do que o coração esperava, mas o importante é que um dia existiu, um dia o amor pulsou ali e vai pulsar, de alguma forma, mesmo que ainda não estejam juntos, porque tem amores que não precisam ser vividos a vida inteira.
Por Jhenifer.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O ângulo era perfeito, mas nós não.


E a foto foi tirada diversas vezes, sempre ficávamos bonito nelas, mas a gente nunca ficava com nenhuma. Tinha algo maior que nos montava e nos arrancava da mesma maneira. Até que desistimos e paramos de tentar. O vento passa por entre a gente afirmando que já é hora de parar. Nossos corpos fixam estátuas esparramadas pelo concreto, ficamos ali deitados, olhando as nuvens de sempre, indo e vindo, como pessoas, como nós dois ontem e amanhã. Parece que não há mais mágica entre nossas conversas, não há sabor no nosso gosto. E principalmente, nossos hobbies ficaram ultrapassados. Fotos, vídeos e rabiscos. Tudo apagado da memória dos apetrechos. Você diz que não vale a pena guardar aquilo se já nem se importa com mais nada. Eu observo, fico me perguntando se a tentativa de poses minutos antes era para você afirmar para si de que algo estava errado ou se era só uma tentativa. Estamos no shopping, olhando vitrines e valores, passeamos por entre monumentos gigantes de proporções cinematográficas, você não me espera, só vai pegando as peças da vitrine e colocando nas costas. Tudo se gruda e faz te parecer caracol. Você ri, você fotografa, você fala nomes de todas as pessoas que você ama. Meu nome não é emitido, ninguém ousa nem olhar. Chamo por ti e tudo desaba. É noite e a areia coça meus pés, faz frio mas estou bem, sinto o meu corpo dormente, pois estou morto. Estou morto e vejo as estrelas no céu negro de outubro, as ondas me embalam para que o sono eterno seja tranquilo. Sei que você da areia me vê, mas continua a fumar para ficar brisado, o acampamento será por todo o fim de semana, tem bebidas, maconha e muitas histórias de praia e cidade. Você se encaixa perfeito nessa ilusão marota de que a vida é apenas isso. 
Acordo. Outro pesadelo depois de uma sensação noturna de invasão. Sei que foi um sonho ruim por acordar ofegante, me vejo sentado, ensaiando como voltar a dormir sem pensar no que sonhei. Não consigo esquecer, então picoto papéis até cair no sono novamente, a cada rasgar de papel digo algo sobre mim, desabafo sobre meu pedaço de chão esmeril. 


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Delphinapterus



Me descubro novamente. O tato se alisa entre as cobertas, a estreita cama se alarga e me engole. O quarto que é minúsculo durante o dia sempre se expande na imensidão do escuro total. Por mais que eu tente fugir do que me persegue, sempre, no ultimo segundo antes de dormir, sou visitado por mim e por toda mágoa que me devora. Me cubro novamente. Não quero sentir o frio de ser solitário, de precisar das pessoas para fazer coisas pequenas, de saber que a vida continuar melhorando para todo mundo menos para mim. Um egoísmo cíclico que parafusa a memória das minhas paredes. Lembro agora do nojo em sua feição após um ato carnal de amor, lembro das costas que fizeram parede para qualquer menção de carinho durante 15 horas seguidas. Lembro que a culpa é minha, que ninguém gosta de mim o suficiente para entender e querer que eu seja exemplo de pessoa ideal. Parece que vai chover novamente, sinto o molhado no rosto, mas não tenho certeza se já sou eu derramando minhas próprias tristezas ou se é chuva. 
É assim toda noite. Me cubro e me descubro, me conforto e me amargo. Até finalmente conseguir dormir. Sei que não sou dono da verdade e que deveria ser uma pessoa normal e atribuir raiva à sua pessoa. Mas, não seria eu se eu não entendesse que as experiências fortalecem o caráter e assim se constrói o adulto que veremos aos 30 anos em diante. Experiências é o que nos move todos os dias, é a captação da adrenalina, da lascívia, do desespero, da euforia, do medo, da ilusão, da paixão e finalmente da resiliência. Talvez você não entenda, hoje, que a roda da fortuna é a carta da tua vida. E ela nunca poderá ser corrompida porque você não aceitará a verdade absoluta que é ser regido por algo mutável.
Durante a madrugada eu acordo com um barulho, não sei se sonho ou realidade, mas era tipo um ronco, um canto de baleia. Era algo natural e sensual ao mesmo tempo. E essas coisas biológicas a gente aprende a conviver, seja o organismo agindo após alguma comida, seja pelo organismo reagindo pelo toque inesperado. A biologia indica princípios reais de vida que podem ser registrados com o observar. Os mamíferos possuem a capacidade de gerar vida dentro de si, amamentá-los e seguir família em sua maioria. Os homens e mulheres tendem aos mesmos princípios mamíferos, a diferença é que o pensamento social de Estado, Família, Religião, Valores e Ética se aglomeram e perpendiculam entre certo e errado. 
Me descubro novamente, tetando me acostumar com o novo normal, que é igual porém diferente. É uma amizade que não se comunica, é um amor que não se beija, é um querer que nem é lembrado. É um normal nos dias, no trabalho, nas aulas, na hora de comer e ir dormir. Dormir. Essa é a hora mais difícil de todas, tentarei deixar a tv ligada no documentário de seis horas sobre o canto das baleias, imaginarei em Galápagos ou Noronha, em uma praia às 10 da manhã ou numa montanha às 10 da noite. Me imaginarei enfrentando trilhas e velocidade, mergulhos e corais, até conseguir me sufocar e falecer. De manhã, massacrado pelo corpo que não descansa, levantarei, verei o espaço vago de ti, verei teu holograma se espreguiçar, verei o café que será feito por mim e para mim, sentirei o calor do sol ou o frio da chuva por entre as janelas que não me importo mais em fechar. E seguirei para mais um dia comum, porque é assim que a gente segue a vida, se matando a cada dia para que não tenhamos mais que morrer por ninguém. 



sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Million Reasons


 E foi então que ela começou a contar a história, mesmo sendo uma coisa triste não tinha, em seus olhos, qualquer traço de mágoa. Foi uma fase difícil, começou ela, mas foi uma grande vitória. Era por volta dos meus 32 anos que tudo começou, nas verdade eu nem sabia que já tinha começado lá trás, durante um evento que reuniu a família. E foi pesando a cada mês. Primeiro quando o médico deu a notícia que eu não poderia engravidar. Isso pra uma mulher nova, trinta anos ainda é nova, é muito terrível. Deixa ela devastada. Porque quando é jovem a gente faz de tudo pra ter uma certa estabilidade pra assegurar uma vida melhor aos filhos, mas e quando não há mais essa expectativa? Primeiro foi a festa da família, todos me olhavam, cochichavam e vinham com o olhar de pena. Eu era uma cancerígena terminal ali. E tudo o que eu menos queria era, de fato, lembrar desse acontecimento. Dias se passaram e a tristeza se instalou. Logo depois eu fui demitida, segunda a demissão, na terça mamãe faleceu. Assim, pá! E, como eu não era casada, só estava namorando ainda, acreditava que meu namorado iria estar lá pra dar todo suporte. Quem diria que um namoro de cinco anos fosse se desmanchar em menos de cinco dias? E ele me largou. Disse que pra ele era muita coisa para processar, tinha muita coisa na cabeça e essas coisas que os homens dizem quando tem medo. Ele se foi, e mesmo morando juntos, ele levou só as roupas dele e material pessoal de trabalho. E mesmo deixando quase tudo perfeitamente no mesmo lugar, parecia que tinha levado o piso, o teto e todas as paredes. [suspiro profundo]
Foi aí que eu lembrei dos meus amigos. De toda a turma de amigos e amigas que conviviam comigo, apenas dois foram ao enterro de mamãe, a maioria deu desculpas sobre que não iriam por conta do trabalho, da família ou de viagem, poucos deles deixaram de mandar mensagem de pêsames, mas só mensagens. Desde então apenas dois se mantiveram por perto. Me senti uma pessoa tóxica, que acabava por contaminar tudo e qualquer coisa. Me sentia impotente, amarga, e sem qualquer vontade pra nada. E como eu morava numa cidade sem família nem qualquer parente próximo, tudo foi ficando casa vez mais difícil. Por mais que esses dois amigos tentassem ajudar, eles tinham suas vidas. Sei que fui obrigada a participar do jantar do domingo com eles. A cada semana numa casa diferente, só pra sair mesmo. Eles diziam que não tinham qualquer pretensão, apenas se juntar e comer. [riso rápido] No começo era mesmo assim, a gente chegava, comia, tomava algo rápido e ia embora, fora o "boa noite" ao chegar e ao sair, não havia diálogo nenhum, nada nada. E com o tempo eles começaram a contar coisas sobre a semana, e ao passar dos domingos, foi ficando ao quase normal, tradicional, com conversas bobas, piadas simples e nenhuma indagação.
Nesses domingos eu ficava bem, no restante da semana a coisa se afundava. Encontrei o 141 por acaso. E nunca pensei em utilizá-lo. Até que encontrei meu ex voltando para casa, sim, em pleno fim de domingo. Ele me elogiou, perguntou como iam as coisas e quando dei por mim já estávamos entrando em casa. Parecia que minha vida tinha voltado ao normal. Até ele ver a casa, a bagunça. Ele começou a fazer cara de nojo e me criticar, foi aí que comecei a chorar. Ele veio com palavras que pareciam chicotadas, me chamou de preguiçosa, suja, de vagabunda... antes de bater a porta, cuspiu no chão quando disse "Não sei como um cara como eu ficou tanto tempo com um lixo como você". Chorei por horas. Ele tinha arrancado minhas pernas ali mesmo, foi um golpe e tanto. Arrasada, parecia que tinha sido, oficialmente, o pior dia de toda minha vida. Me senti tão vazia, uma inexistência. Um peso pra humanidade. Liguei pro 141. 
No outro dia, nada tinha mudado, mas me senti melhor.
Saber que existem pessoas, pessoas anônimas no qual você pode desabafar das coisas e elas não irão te julgar. Pessoas que se dedicam voluntariamente a ouvir. [Olhos marejados] 
Foi pensando nisso que eu passei a semana, fui ao médico, fui à uma entrevista de emprego, e no domingo que seria aqui em casa, pedi pra que fossemos a um restaurante perto. Nada de muito caro, até porque eu não tinha dinheiro, meus amigos que me ajudavam com as contas e com a feira de casa. [Enxugando lágrimas sorri] Foi um tanto idiota, mas eu estava numa semana de tpm e não me arrumei pra sair, fui com a cara fechada só pra dizer que fui, e quando cheguei lá, fiquei sozinha sentada. Esperando os outros dois. Um ligou dizendo que bateu o carro e estava esperando o seguro chegar, já a outra ainda estava se arrumando porque o filho vomitou na roupa dela. Parecia que seria "aquele" domingo de azar, e foi então que Jorge chegou. Eu não tinha percebido, mas o lugar estava cheio e eu ocupava uma mesa de seis lugares. "Desculpa, mas é que eu queria muito comer, mas o garçom disse que não há mais lugar. Eu poderia comer aqui enquanto seu pessoal não chega?" Eu nem disse nada, fiquei com o celular na mão e aquela cara de "quem é você?", ele entendeu que sim, sentou e já fez o pedido com o garçom que estava já esperando para enxotá-lo. E ele ficou lá, esperando o prato dele chegar, eu impaciente, e ele lá, sereno. Parecia que ele tinha toda paciência do mundo depois de fazer o pedido. Se apresentou, eu disse meu nome, e ele fez um elogio. Fiquei toda vermelha, porque eu vi que eu tinha saído de casa parecendo uma mendiga, camisa desbotada, short rasgado com manchas de água sanitária, o cabelo estava aquela vassoura! [Ri]
Ele conversou comigo sobre muitas coisas que viu na tv naquela semana. Perguntava a todo tempo "e você sabia?", "você deveria saber disso, é a sua cara". A noite se foi e eu só ria. Ele era muito palhaço. Meus amigos chegaram lá no fim da noite, umas 22 horas, eu já tinha comido e bebido sem pensar. Ainda bem que eles chegaram porque eu estava lisa. [Rindo mais ainda] Jorge fez logo amizade, eles ficaram conversando um monte. 
Dias se passaram Jorge sempre me ligava, mandava mensagem, mas no fim acabava aparecendo lá em casa. Reclamando sempre. Reclamava todos os dias que pudesse, só porque eu não usava o telefone. Só ligava o celular no domingo. Passava a semana toda off. Eu não tinha o que conversar, não tinha ninguém esperando pra me atender, então pra quê ficar com ele ligado? Da primeira vez que Jorge se atreveu me trazer em casa, ele foi bem esperto. Homem quando quer é danado! [Sorri] Ele foi me conquistando aos poucos. Acho que ele conversou depois com meus amigos e eles devem ter contado minha situação ali. Jorge não forçava nada, sempre tentava fazer tudo ser natural, sem questionar, sem pressão. Ele me trouxe em casa caminhando mesmo, do restaurante pra cá, duas ruas só. Eu perguntei se ele morava por ali e me respondeu que era perto, não tinha motivos para desviar o caminho. Ficávamos na porta de casa conversando, eu mais ouvia do que falava, mas me sentia bem. Fiquei com muito medo quando Jorge entrou em casa da primeira vez, ele teve uma dor de barriga do churros que comeu na praça e saiu desesperado quando eu disse que podia usar o banheiro. Foi constrangedor pra todo mundo. Ele me mandou ficar fora de casa ou ele não conseguia fazer, e vendo ele todo suado e se apertando, claro que eu fiquei. A casa estava um lixo nessa semana, eu tinha ficado muito triste quando recebi o convite de casamento do meu ex. Em letras garrafais: FULANO E FULANA CONVIDAM AO CASAMENTO DO ANO, em letras dele logo abaixo, VOCÊ DEVERIA VIR E VER O QUE SÃO PESSOAS FELIZES, QUEM SABE NÃO SINTA INVEJA E TENTA TAMBÉM? Sei que não deveria, mas eu desejava muito que algum terrorista chegasse a explodir o casamento, só de raiva. Mas no fim eu me sentia culpada, não sei explicar. Quando Jorge saiu, eu estava sentada na calçada, ele sentou ao meu lado e agradeceu. Pediu desculpas logo em seguida. Disse rindo que seria uma história constrangedora que adoraria contar aos filhos, eu ri na mesma hora, também dizendo o mesmo, daí ele me pegou, "por que a gente não junta os filhos e contamos os dois ao mesmo tempo?" Eu, naquela hora, não tinha entendido onde ele queira chegar, e ele percebeu. "Gostaria muito de ter mais histórias contigo pra compartilhar". Ele ficou sério, muito sério, e me olhava de um jeito diferente. "Você está bem?", perguntei assustada. "Eu volto já!", disse ele se levantando rapidamente, "Fique aí mesmo!".
[Olhando para a foto de Jorge no porta-retrato sobre a mesa] Sabe, foram vários momentos em que Jorge poderia ter ido embora, principalmente no dia que joguei uma panela na cabeça dele [Ri alto], foram três pontos na testa, ah! Eu achei que ele fosse desviar. Já passamos por muita coisa, ele também teve vários problemas, já foi alcoólatra durante esse caminho. E ainda estamos juntos. Doze anos se passaram desde aquele dia na calçada. 
Em pensar que parece que foi ontem [suspiro profundo]. Você vai encontrar alguém, se não já encontrou, que tentará fazer tudo ficar bem, e não importa quanto você a ignore, expulse, grite com ela, ela vai voltar e vai tentar te fazer feliz. Porque a tempestade nunca dura para sempre, e nesses dias de sol é que nos mostram que tudo valerá a pena. Todo mundo tem problema, às vezes pesados demais, com sangue e morte envolvidos, mas passa. Confiar e acreditar são coisas fundamentais, e claro, os dois têm que saber até onde vai a força de cada um. Saber ceder, e saber levantar. Uma vez alguém me disse que quando as coisas estão muito ruins, ela só precisa um peito para deitar sobre e chorar um pouco. Perguntei à ela se isso resolvia, ela me contou que não resolvia, mas ajudava muito. Que se houvesse isso sempre que precisasse... com isso tomaria forças para continuar. Me pergunto o que eu preciso para continuar, eu não sei o que me ajuda muito. "Você já tentou fazer como ela pelo menos?" ela me pergunta. "Não acho que seria bem-vindo", respondo e desligo.



quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A ponte.


Dizem que somos feito ilhas. Grande blocos de terra que possui vida, mas isolados de todo o resto por oceano. Ilhas. Se somos ilha, família é arquipélago. E o intuito de começar a tentar explorar outras ilhas é, justamente, criar vínculos e aglomerar valores à nossa ilha. Assim, a ilha por mais que não cresça e se torne uma potência icônica, ao menos não afundará no próprio oceano. E, assim, te digo novamente, essa coisa de abraçar é o que faz ponte para nossa ilha. Os braços se tornam grandes tentáculos que aproximam as terras dos nossos corações, deixando transporte de mão dupla aos sentimentos. Do mesmo ocorre quando essas pontes são quebradas, queimadas, ou esquecidas pelo tempo. Um exemplo clássico é a ponte ultraviolenta. A ponte ultraviolenta é aquela que é criada forçadamente a partir de eventos esporádicos que firmam certas esperanças e fidelidade. E tem esse nome porque quando ela vem abaixo, é de maneira tão devastadora que leva consigo um pedaço da ilha. 
Eu te falei que eles eram ultraviolento e você me fez prometer que tentaria. E assim o fiz, tentei ser empático e estudei, depois da primeira falha legítima. (A primeira falha legítima foi quando eu não entendia dos atos de convívio social do teu grupo e acabei não contemplando aquela vulgaridade que era se despedir abraçando. Hoje eu entendo que eles fazem isso por mera demonstração de carinho hipócrita, mas na época eu não entendia o motivo real, pois era a segunda ou terceira vez que eu estava ali passando o tempo. Não fazia parte do grupo, e até agora nunca fiz, mas eu deveria saber que ele queria um abraço, porque foi assim em sequencia, mas eu não sabia, não tinha o hábito de fazer essas coisas e, principalmente, com essas pessoas. Nos outros dias, ele que não teve o abraço de despedida passou a me ignorar, e não que seja difícil, mas era propositalmente para humilhar, para que eu soubesse que minha presença em convite não era bem-vinda. Logo que eu entendi, passei a dar desculpas e tentar não forçar nada. Passou) Sempre fora assim, observei que essas pontes que existiam entre si era muito frágil, não se firmava por sentimento, mas por pacto social. Você deve fazer assim porque é assim que eles fazem, não significa que se importam contigo ou que te querem bem. Primeiro sintoma, é um abraço rápido, necessitado de atenção e a primeira pessoa a soltar o corpo do outro é sempre um deles. Sempre um desses que prezam pelo ato, com toda glória afetuosa (uma grande mentira). Segundo sintoma, as falas não se completam com os atos, elas se derretem em pecados ligeiros, o falar-acontecer não é tão simples quanto eles pregam, há uma insegurança presente, ainda que sublime, uma honestidade falsa, uma contravenção amável. Terceiro e ultimo sintoma, o amor. Sim, o alicerce das pontes que juntas as ilhas. O amor que é passado por eles é traiçoeiro. Eles pregam que nunca abandonarão ninguém, ainda que na pior das hipóteses, e basta você não entender uma linguagem e você é excluído, ignorado e símbolo de chacota. No passar do tempo você será só mais um desses tais embustes que eles adoram rir sobre. Deveria ter apostado comigo, foi o que eu disse para si quando eu senti o ultraviolento hoje, foram três rajadas até tudo desmoronar. A primeira na torre do tripé giratório, quando a ponte se acendeu e iria pedir socorro. Mas a iluminação não chegou até a outra ilha, pois ela deixou cair sua ponta de propósito, como se virasse o olhar para os céus, para os lados, para qualquer lugar do que os faróis da outra ilha. Uma virada de costas. Pena que nunca é por acaso, porque a sinalização entre as ilhas irmãs foi detectada, uma singela olhada, levanta a sobrancelha e a mensagem é dada. 
Eu te falei que era tudo não verdadeiro, quando esse tipo de gente diz que tem vontade de ajudar, é só para pregar sua própria imagem de benevolente no grupo de pessoas ao qual se põe um assunto tão delicado em questão. Na verdade, elas não querem essa culpa para si, têm problemas de mais vivendo suas próprias vidas, óbvio que não iriam se importar voluntariamente por alguém que elas desprezam a presença física, imagine emocional. O problema desse tipo de ilha, é que algumas outras desconhecem que terão pontes ultraviolentas e acreditam no discurso de boas pessoas que pregam entre ilhas. 
Metade da minha ilha já ruiu, hoje mais um pouco. Mas tudo bem, uma a mais, uma a menos, não fará diferença neste oceano. 




Lá no fundo.


O buraco que cavo ainda não me cabe, mas aos poucos conseguirei. Aqui em baixo é confortável, úmido e morno, como em um abraço depois do meio-dia. E ultimamente, tudo o que preciso vem desse vazio que me consome. Aos poucos, sei que lá no fundo essa sensação de angústia passará, junto com o medo e a culpa. Não mais carrego aquela vergonha de existir, porque já não há mais os dedos ossudos que me apontam, nem os suínos risos que dilaceram meu bem estar. Como uma sombra vagante, escorro meu corpo por entre as luzes flamejantes. Não resistindo ao medo de fugir das multidões. Lendo você por entre as paredes, o oceano de pessoas que nos afoga, e eu, sombra. Os dias de chuva estão por acabar, e já o sol reinará com toda pompa, lembre-se de sempre apreciá-lo, porque daqui do fundo, quando eu finalmente ajeitar o meu lugar, nunca mais irei enxergá-lo. E isso não é ruim, pois a escuridão me convida, é parceira e sempre me conforta, me adita em seu leito generoso de puro nada. 

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Ainda é cedo.


Ainda é cedo, mas eu preciso sair daqui. Preciso deixar para trás, mesmo que por um momento, essa bolha de vergonha que se infla pela casa. Roubei um pedaço dela e pus na mochila, foi um dia com uma bomba dentro de uma caixa, pronta para entrega trágica. Trágico não é o mesmo que mágico, do mesmo modo que natureza não é o mesmo que comportamento. Fui catalogando quantas vezes eu fiquei com vergonha de mim, só por hoje. Sempre quando chego depois da casa dos 30 eu perco as contas, volto a contar em pares de três. Ainda pelo caminho demorado, lembrei que poderia haver marcas e eu teria que criar uma história mirabolantemente mundana. Por sorte não havia. Nada de marcas vermelhas de tuas mãos que me apertaram, provavelmente também não deve ter nas costas que encontraram as maciças paredes por vezes, e as unhas estão intactas, por mais que os dedos tentassem agarrar as quinas com desespero. Ir de contra-vontade é tão humilhante quanto por conta própria e, às ordens do imperador, a saída trágica era me ditada contra vontade. Acho que você ainda não percebeu que existe um oceano que me separa das coisas que todos fazem tão facilmente. E, acho que não é perceptível, mas eu não sei nadar. Sim, também já tentei, e "eu não tenho um barco", disse a árvore. O que fazer então além de ficar quieto e seguir o ritmo de uma terça qualquer? Sinto a cabeça doendo novamente, já foi 1 grama de paracetamol, 500mg ao acordar com a cabeça martelando, e 500mg ao ter a cabeça esmagada violentamente pelas ásperas atitudes de vandalismo contra meu templo. A dor era tão intensa, a vontade de fugir era real, mas tudo o que posso fazer é pedir, suplicar para que me deixe em paz, digo que não vou, que não sou, digo o que quiser, mas me deixe ter um dia comum. Dia em que posso vestir uma camisa cinza, mudar a playlist e lavar roupa. Não desprezo sua boa vontade que dita o que devo fazer, mas não é uma hora boa para que eu possa seguir ordens, não é momento para que eu saia da rotina. Além da dor, da quentura, da tontura, sinto a vista ficando ofuscada enquanto limpo a vidraçaria, a imagem da pia vai ficando conturbada de um jeito diferente a cada indagação tua. O inquérito molesta o silêncio do dia de sol. Até que se derrama. Paro para conter-me, para zerar o ápice do perder controle. Continuo contando em múltiplos de cinco quanto vejo o dia se despedir, os passos são poucos, o caminho é longo, parece que nunca chegarei. Parece que até isso se vai e minha vergonha por tudo isso hoje deixa tudo mais pesado. E deve ser por isso que tenho tantas dores nos ombros, minha respiração pesada não me deixa esconder. Quando finalmente repouso, numa dessas mesas-dominó, peço desculpa mentalmente para todas as pessoas que já decepcionei por não conseguir ir aos lugares que queriam que eu fosse, nessas festas de aniversários, churrascos, clubes, boates, cinema, e casa de amigos. Eu, sinceramente, sinto muito. Embora não pareça, é muito difícil não perecer as condições de ansiedade. Sinto muito.
Mas não se preocupe, com o tempo certo você se acostumará a não mais precisar fazer o convite, uma hora ou outra, bem perdida no tempo, você lembrará que tinha disso da ausência, até não mais fazer falta.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A cada dois anos


A cada dois anos acontece um evento importante na cidade. Eu nunca fui a nenhum deles, sempre tive vontade. Nessa época de evento, muito provavelmente, estarei namorando ou algo do tipo, e será um convite desses que eu não posso perder por gostar muito de livros. A pessoa vai se empolgar em ver várias celebridades, vários títulos e muita informação pairando entre as pessoas. Ela vai se empolgar ao ponto de ir com outras pessoas. Sim, nesses eventos acontece como nas idas ao cinema. O convite é feito, as pessoas vão, e eu não irei por motivos comuns: Não é um horário que eu possa ir, não é um dia ao qual eu possa ir, ou o mais costumeiro, eles vão antes do dia marcado. E, como de praxis, eu não irei depois.
Ter uma experiência ao qual eu possa falar sobre os livros sem qualquer repúdio, julgamento ou chatices. Estaria eu em ambiente agradável e confortável ao ponto de poder apontar e comentar sobre aquelas capas e volumes. Este ano não foi diferente, convite aceito, dias se passaram e logo veio o "vou com meus amigos hoje, depois a gente vai". E tudo morreu logo em seguida. Parece mais um filme que nunca verei por desprazer da experiência.
Ao mesmo tempo, para ironia da vida, fui "obrigado a estar dentro do evento no outro dia, em uma outra coisa totalmente diferente e, por 10 breves minutos, fui carregado pelo colega à procura de um presente. Vi muitas cores logo aos poucos passos, cheiro de pipoca, caramelo, crianças rindo e brincando, pessoas comento sobre autógrafos, velhos em rodas de conversas... vi muita coisa e queria falar sobre aquilo, queria ter isso com você. Engoli a amargura que é não conseguir fazer esses passeios mesmo quando dão errado, mesmo quando sou a ultima opção de companhia. Segui o colega, fez a compra dele e logo fomos embora, não vi mais que 15% do local, não vi os estandes das minhas favoritas, não vi artistas ou autores, não queria ver mais ninguém, só você. 
Agora, trouxe comigo um troféu da derrota que vi carregando aos 5 minutos de tour no primeiro estande que meu colega percorreu. O livro me lembrou você, capa bonita, cores amareladas como o sol, capa dura para proteger e acessível, dez reais apenas. Literatura juvenil, ficção científica. Lacrado. E quando percebi que estava lacrado já era tarde demais. Vou pôr junto com os outros que também não consigo abrir. Será mais uma história que ficará em repouso eterno, em solidão profunda. A ansiedade não me permite fazer muitas coisas, sinto muito por te decepcionar novamente.

Pós operatório


O veneno é sentido direto na veia. Imagino se você consegue ir além do que consegui. Tento projetar as alegrias e conquistas além de tudo o que vejo agora. Sei que estás bem, onde quer que estejas. Vejo as fotos ao sol, ouço as canções gravadas, leio as frases de amor. Contente, sigo o meu caminho ao dissecar o câncer da tua vida. Um tumor que crescia se ninguém perceber, um mal que iria enraizar em teus sonhos e estrangular teu futuro. Ainda bem que não precisou amputar nada. Uma retirada delicada e precisa. A recuperação é lenta e gradual, todos sabemos, mas a cura é real. Ao menos deste tumor. Espero que não deixe crescer outros assim, feito bola de neve.

domingo, 1 de outubro de 2017

Atlantis


 Sem dores permanentes, sem molhar o rosto, sem luz forte, sem pressa, sem barulho. Foi assim que acordei hoje, em pleno domingo costumeiro. Acabei dormindo tarde e, por mais pesado que tenha sido o dia, continuo aqui. Tive um sonho, deveras, engraçado. Não lembro o que aconteceu, mas lembro da música, lembro de acordar leve. Acordei sozinho, como sempre. Pessoas difíceis vivem sozinhas, andam sozinhas, comem sozinhas, dormem e acordam eternamente sozinhas. E, se você acredita que eu chorei para estar tão aliviado, desconsidere este pensamento. Não houve banho demorado durante a madrugada, embora eu estivesse suado depois de passar um bom tempo no 141. Apenas consegui dormir. Sem imaginar as constelações, sem pensar no horário do amanhã, ou no corpo fervilhando em dissabor. Foi uma noite de exaustão serena. 
 O dia segue no fluxo de descompaixão. Os cartuchos vazio ficam caindo ao chão a cada palavra de ódio, o corpo é metralhado violentamente com a desesperança que só alguém que já morreu pode conceber. E, no ultimo suspiro de vida, tento sanar as chagas desconfortáveis que me alvejam diariamente. A gangrena hemorrágica de um dia normal.  Não escrevo em letras garrafais em busca de socorro ou uma prece para rogar minh'alma, tampouco perdão pelos atos ou mesmo despedidas. Quero apenas uma sombra da alvorada para descansar meu corpo cansado. Um jazigo natural para que o ciclo continue verdadeiramente. Gabriel, ontem, me contou que às vezes cidades inteiras são dizimadas pela natureza, assim sem poderem se defender, mas que no final das contas continuam lá, imersas, desoladas, mas sempre lá, em memória. E isto me fez pensar se, quando eu partir, continuarei nulo, invisível e anônimo. 
 Será mesmo que faria alguma diferença? Peguei minhas anotações sobre visibilidade e resposta, até agora estou em quadro 10/100, e a cada dia que passa vai caindo. Quando a população chega a 0, não se tem motivos da cidade continuar de pé. Será consumida pelo tempo, pelo vento, pelo vazio que já era.

Apenas o céu

Foto por @sanamaru O amargo remédio se espreme goela abaixo, a saliva seca e o gosto de rancor perdura por horas. Em vez de fazer dormir ele...