Te Indico Alguém


       Deixei as portas abertas para quem quisesse entrar. Nunca adiantou trancafiar todas as portas, janelas e  respiradouros, pois sempre eu deixava entrar na mesma expectativa que ia ser um pouco diferente, que iria ser feliz por algum tempo. Sempre deixei tudo arrumado, em certos momentos mudava os valores de lugar, pintava em cores vivas as qualidades e reorganizava os defeitos no porão, sempre deixei meu eu em estado de interesse. Se isso significasse algo além de mero conhecer, tudo que deixei tão confortavelmente convidativo à permanência seria uma arma infalível à solidão e tristeza, entretanto meu eu serve apenas de imagem para folhetim de vendas imobiliárias. Um imóvel lúdico de caráter pessoal, de cheiro enigmático de fruta fresca, de cômodos espaçosos e bem divididos com ventilação sublime.
       Com o tempo e tantas visitas, o morador ficou ranzinza, não queria mais nenhum outro inquilino, não tinha paciência com os andarilhos noturnos, tampouco os mochileiros. O sobrevivente daquela morada era cicatrizado por seu próprio temperamento cauteloso, sua vontade de reciclar os móveis se perdera em desdém, seu esmero pelo luminoso cômodo se foi, ficou tudo abafado em si, escuro em razões. Ele, para aquecer do frívolo sentimento que começou a habitar aquele lugar, usou todas as suas expectativas para se aquecer, usou até o ultimo minuto, as expectativas que agora é fuligem. Passou a dividir aquele imenso lugar com seu maior inimigo, ele mesmo. Começou a dividir o aluguel com a cinzenta indiferença que o obrigou a tapar todas as janelas, não o incentivava a restaurar os móveis antigos, limpar os cômodos já cobertos de poera vil.
      Sem cuidado e dedicação, tudo começou a morrer. Começou pelas plantas que com o passar do tempo morreram murchas, os animais fugiram procurando um lugar melhor, a madeira apodreceu pela ação dos cupins, os vidros embaçaram fixamente e os panos encardiram. Tudo veio pouco-a-pouco abaixo, pelo maus tratos do residente, pela força do tempo, pelos vândalos que algumas vezes invadiam aquele local de sagrado permanecer. O cheiro de fruta fresca tornou-se puro mofo. Por mais corajoso que fosse os fios de sol que arriscavam iluminar e aquecer pelas frestas variadas que rodeavam cada possibilidade de romper o pacto com o cinza, essas facas de felicidade não conseguiam cortar muito da penumbra que entorpecia o que ele chamava de lar.
      E assim está, sem convite qualquer, deixado as traças e aos ratos aquilo que era seu mais precioso, aquilo que era tesouro inestimável e valorado. Hoje não é mais nada que um lugar abandonado que por raras vezes sente-se vida ali. Não há nada aqui além de coisas ruins, nada que te faça sorrir ou pensar em querer, o jeito é destruir para quem sabe poder reaproveitar o espaço que mesmo vazio ainda ocupa algum lugar. Se precisar de um lugar interessante, amável, caloroso e feliz para ficar, para passar um tempo ou até mesmo querer ficar para sempre, te indico alguém. Conheço vários lugares, pequenos ou grandes, do tamanho e cor que quiser, já que todo lugar é melhor que o meu lugar.

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