quinta-feira, 11 de abril de 2019

Periódico


[Guarulhos, fevereiro/19]

Já são quase três da tarde, mas não é tarde. Nunca é tarde, não é? Decido seguir o que ela me disse, me convenceu, me obriga a fazer e... não posso parar. É uma ideia súbita, mas tão minha. Três da tarde, jogo tudo na mochila, tudo o que me faz ficar aqui, nessa condição que todo mundo insiste que eu deixe. Preciso deixar esse lugar, eu não pertenço aqui. Abro a porta e vejo a casa que deixarei. Uma ultima vez, para deixar gravado na memória. Um relance. Eu não vou desistir de ir embora daqui. Não dessa vez. Não tenho nada que me prenda. Não tenho família, amigos, filhos, contas... nada... nem se quer um romance meio enrolado. Eu não tenho exatamente nada. Respiro fundo nesse meu nada. As xícaras na mesinha de centro que ainda estão lá dessa ultima conversa em que você me fez acreditar que eu mereço algo melhor. Ficamos aqui tomando um café maroto por longas horas arrastadas e alongadas, repuxadas tantas e tantas vezes que parecia que estávamos em um inverno tardio do polo norte, onde a noite é onde nasce e morre todo o amor. O café a dois resgatava a sanidade ocupada demais com meu monólogo da pesarosa leveza de ser. Foi tão irritante ter que te convencer que não há qualquer maneira de eu acreditar que eu possa realmente chegar lá, deixar tudo para trás por mero capricho. Você me apontava os quadros na parede. Os quadros! Meus quadros de lugares mais bonitos do mundo. Lugares que nunca fui, que nunca irei. Apontava e falava que eu mereço o mundo. Esse lugar não é o bastante pra mim, que eu devo seguir para casa. Descobrir onde é o meu lugar. 
A vizinha chega fazendo barulho no corredor, já deve ser umas quatro horas. Umas doze horas que você me largou aqui e disse apenas adeus. Como se tivesse o poder de mandar na minha vida, no meu destino, como se eu não fosse discordar ou ao menos pensar sobre. Você acredita mesmo que eu sou capaz de conseguir? Acha que eu posso chegar lá? Do jeito que você me olhava, esperando alguma frase pronta minha... nossa... como isso me machuca, sentia o cheiro da tua expectativa borbulhando em cada pausa prolongada, em cada gole de café. Demorou tanto tempo para eu chegar até aqui, tanta coisa foi destruída no caminho. Ações positivas, emoções nativas e uma desilusão fez alça e eu apenas pus nas costas, tão leve, tão vazio. Um conforto por não ter nada, por não ter... nada. Fecho a porta devagar, caminho para acender uma única luz. Não gosto de deixar as coisas na escuridão, quando se chega em um lugar escuro pode-se ter qualquer tipo de surpresa, boa ou ruim, mas sempre ao acender uma luz tem-se o esplendor mundano.
Já está escuro novamente, pode ser uma sete horas. Você me conhece bem, sabe que eu não vou embora, baixo a mochila novamente, ela cai pesadamente de puro vazio. Vou preparar mais um café, vou olhar as fotos da infância, de rostos conhecidos, de momentos antigos. Vou ver tv por um tempo, ver pessoas que nunca vi, lugares que nunca fui, coisas que já imaginei. Quando não tiver mais nada interessante, vou pegar um livro, caminhar entre linhas, ler outros pensamentos notórios. E, quando eu já estiver cansado disso tudo, quase com sono angustiante, aí você vai chegar.
A caminha toca, já deve ser tarde, atendo e é você. É você que me disse adeus várias horas atrás. Você não sorri, não entristece, é apenas sua feição neutra de visita cotidiana. Ontem conversamos sobre tudo, hoje não quero falar nada. Ofereço um café, você entra, tira o casaco, acomoda-se em uma das poltronas como se fizesse isso organicamente, tudo é ensaiado e suave. Sem tensão, prepara um café a dois, três assopros no quarto de café que pus para mim, cinco ou seis mexidas você dá na xícara para diluir o açúcar, olho, observo e assisto. Sei porque está aqui, falo de maneira brande quase sussurrando, e eu não acho que eu deva ir agora, talvez eu ainda deva ficar por um tempo. 
Já são quase três da manhã, mas não é cedo. Nunca é cedo demais, não é? Sigo a decidir o que disse à ela, convencê-la, obrigá-la a fazer... e posso parar. É uma ideia cultivada, mas tão dela.



segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

O Grinch


Este texto possui conteúdo demasiado pesado. Contém spoiler, filosofia, luto, saudosismos e acima de tudo um mensagem para mim.

É madrugada, e aqui estou depois de tanto tempo, depois de tanta coisa. Deveria começar com as novidades boas e justas, mas de fato não as farei. Deixarei aqui o que sempre vim fazer, deixar o ultimo suspiro do dia. E em controverso, durante a própria madrugada, início de um dia comum, suspendo a ultimo de hoje como se realmente fosse o ultimo de sempre. Espero que fique claro, seja em qualquer momento que estejas lendo isso que, em primeiro lugar obrigado por estar aqui, e no demais eu sinto muito. 

Como o pedido de amizade no Facebook, eu não sei se aceito ou se excluo, então deixo pairando ali. Como um mural para sempre lembrar dele. Não o fiz antes porque estava cru, era pesado demais para mim e para qualquer um, então deixei passar, deixei decantar essa sensação abstrata de um vazio absoluto que consome e aflora em memória e pesar. Uma sensação estranha e tão compartilhada. Sei que não deveria passar tanto tempo para falar sobre, entretanto ao mesmo tempo não há nada para se falar. Sabe porquê?
Porque é tarde demais.
E esta, aqui, é sobre isso. Sobre ser tarde demais. 
Não há remorso, não há cólera, ou qualquer indício de relutância em aceitar o simples fato do nada. Do nada viemos, passamos a existir e logo depois vem um outro nada. Hoje eu falo sobre isso. Hoje eu falo sobre existir. Hoje eu falo sobre o meu irmão.
Talvez você o conheça, talvez não, mas esse é o meu irmão. Chamei ele de Grinch no dia em que morreu.Ou melhor, no dia em que mataram ele. E se você não está no clima ou não é capaz de falar sobre essas coisas, acho melhor deixar aqui de lado e ir seguir com a vida, outra hora a morte te toma por assunto, talvez hoje não.


Era uma quinta-feira, fui fazer prova que havia esquecido que estava marcada, fui rápido, era por volta das 18:40 quando minha irmã ligou. Atendi como sempre, esperando uma notícia sobre o trabalho dela, sobre nossos pais ou alguma reclamação qualquer. Demorou alguns segundos até ela falar, uns micro segundos que estavam-na sufocando. Por quanto tempo podemos segurar uma notícia dessas? Por quanto passamos por dar uma notícia dessas? "Mataram... mataram nosso irmão", foi isso que começou um diálogo breve sobre ele, o meu irmão. Apoiado na pia, recebendo a sensação da notícia, passei a querer uma confirmação. Ela falou que não havia chegado lá, mas que os vizinhos haviam ligado e confirmado. Era ele. Ela mesmo ele. Naquele segundo em diante já sabia tudo o que viria se confirmasse que era ele. Se ela me confirmasse que viu e fosse realmente ele. Porque, bem, já houveram tantos boatos vindos da pessoa dele que, esse não seria o primeiro, apenas o ultimo. 
A ligação acabou por ali. Lembro da minha raiva ter aumentado drasticamente. Eu passei os últimos dias tão ruins que já não sabia por onde escapar. E em casa estava a minha maior fonte de inquietação. Enquanto eu tentava contato com meus pais, a amiga que estava morta de cansada e não queria se quer mexer, apenas descansar, voltava de um passeio, dando gargalhadas ao telefone (como sempre fazia) e um milkshake na mão. Sentado no puf perguntou o que estava se passando como se aquilo importasse mesmo à ela, como se em algum momento durante aqueles dias ela se importasse com algo que eu pedisse ou falasse. Exprimi que haviam matado meu irmão, contei aquilo que nem cogitei em falar, apenas saltou, talvez fosse minha única arma na hora para me deixar em paz, o que obviamente seria ineficaz. Quando você diz que alguém da tua família morre, ninguém fica calado, começam a fazer mil perguntas para te deixar pior, para te fazer pensar e repensar e, claro, satisfazer a mera curiosidade. 


"É sério isso?", pergunta ela, "você está bem? Quer conversar?". Conversar... a ultima coisa que eu quero, não com você, não agora, eu só quero, eu só quero uma resposta, uma ligação, uma confirmação. Eu só quero, intrinsecamente, que não seja verdade. Me aprontei, respondi que não e sai. Já não conseguia ficar em casa depois que chegava do trabalho para não ter que ficar ouvindo uma coisa e vendo outra, já não queria ter que encarar os diálogos dispares. Só queria que chegasse janeiro para tudo acabar. E naquele momento, eu só queria sair dali. Caminhei por quadras, encontrei abrigo, conversei um pouco e voltei para casa. Voltei para saber de tudo.
Sabe, talvez eu não devesse me explicar dessa fora, provavelmente você não vai entender, porém eu preciso te contar o que eu sei. 


Liguei para casa, confirmaram que tinham matado ele. E todo evento se sucedeu de maneira não esperada. Eu sempre acreditei que se algo desse porte acontecesse, minha mãe entraria em colapso, meu pai estarei do lado dela, mas sozinho não suportaria, minha irmã estaria aos prantos e remorso e no fim eu estaria lá, vendo tudo de uma maneira passivo-culpada por não ter sido eu.
Não sei explicar bem a sensação que eu tive, mas foi algo que não consigo descrever, não é uma tristeza nem remorso, nem raiva, nem alívio. Um fulgor de motivos, pensamentos e nada. Eu só pensava nisso. Meu irmão agora é um nada. E, por isto estou aqui. Para te contar uma coisa.
Enquanto tomava banho, naquele mesmo dia, eu pensei na ultima vez que falei pessoalmente com meu irmão, da ultima vez que conversei virtualmente com ele e percebi que, afinal de contas, ele era um mero conhecido meu. Nunca foi meu irmão como a gente vê nos filmes e novelas, nunca foi meu amigo, tampouco confidente. E para falar a verdade, minha família toda é assim. Desde sempre. A gente não conversa muito, no máximo era para falar de alguém ou algum acontecimento específico. Não sei se isso é resultado de um amontoado de problemas e conflitos que minha família adora(va) ignorar e fingir que tudo estava bem, ou se eu apenas nunca me importei em tentar ser mais que um pedaço de culpa.
Culpa... algo que a gente adora pôr nos outros. Coisa que quando é nossa dizemos que é sem querer... Culpa é algo que provavelmente meu irmão não teve. 
Tenho vagas lembranças do meu irmão como pessoa próxima. Depois que ele foi preso por uso de drogas, uns 10 anos atrás, minha família terminou de ruir. Era cada um pro seu lado e todos para ajudá-lo com o problema das drogas. Vários foram os lugares que ele morou, na cidade, no estado e no país. Tudo o que meus pais podiam pagar ele pagavam e pagariam. Mas o que meu irmão precisava mesmo era de alguém que fosse por ele. E é aqui que eu me pego pensando hora e outra. Eu tinha uma relação amistosa e por vezes engraçada com meu irmão. Acompanhei alguns de seus relacionamentos, alguns de seus sucessos e quase todos seus fracassos. Minha mãe... nossa mãe era por ele 24 horas por dia. Fazia tudo o que achava certo, e às vezes, até o errado por ele. Tudo para vê-lo melhor do que antes, eles tinham medo do fantasma das drogas. E, acredito eu, se meu irmão tivesse acompanhamento psicológico após essa fase das drogas e tal, talvez hoje ele não estivesse morto. Se eu e ele fossemos mais próximos, talvez só mais um pouco, ele ainda estivesse vivo. Se eu tivesse o chamado para me visitar antes, talvez nada disso tivesse acontecido. E mataram meu irmão, é o "se" que não existe. Esses pensamento de "e se" me ocorrem e não me consomem. O que me consome quando bobeio é ouvir o choro da minha ecoando na memória de quando liguei para casa para saber dela. Ela. Minha mãe, a única preocupação real de tudo. Como ela estava lidando, como iria lidar. Meu irmão e minha mãe eram quase uma pessoa só. E eles tinham motivos para isso. Poderia ser melhor? Poderia. Mas se voltassem no tempo seria tudo igual. Eles se completavam como mãe e filho, nas conversas, no carinho, no desgosto, eram um exemplo de relação familiar, mesmo que você considere fracassada. Ainda era uma relação familiar forte. Eu nunca conheci meu irmão de fato. Na verdade ninguém da minha família. O mair real que chego é sobre minha mãe, sobre o azul que ela gosta como cor em tudo se pudesse, sobre o medo de altura inexplicável, sobre os traumas de infância dos pais complicados e por vezes violentos, sobre o primeiro namorado dela, sobre o casamento conturbado com meu pai... tudo sobre minha mãe não dão 10 páginas. E minha família sempre foi assim. Cada um pro seu lado.
Uma coisa que eu poderia escrever um livro inteiro é sobre como minha mãe ama o natal. Minha mãe sempre teve um sonho de ter o melhor natal da vida dela, com a mesa farta igual o comercial da Coca-cola, com todos os parentes possíveis juntos, com todos os amigos para celebrar o natal. Minha mãe amava o natal como amava meu irmão. Era tudo o que ela podia sonhar em ter de melhor. Os olhos brilhavam na época de natal, nas propagandas na tv, nas decorações do shopping, igual quando meu irmão contava as piadas para ela e ela se mijava de rir. Tudo o que eu lembro da minha mãe cabe no nome do meu irmão. E hoje, não existe mais natal. 
O Grinch é como eu chamo meu irmão agora. Ele acabou com o natal da vida dela. Ele se acabou. 
E embora eu não use como algo ruim, me faz lembrar dele como desenho animado. Desenho este que eu gostava bastante, lembro que meu pai chamou O Grinch (desenho) de esquizoide e fez muita gente procurar o significado. Outra coisa que algumas pessoas possam buscar significado é para a dor da minha mãe. A dor que todas as mães que tiveram seus filhos e filhas assinados sentem todos os dias. A falta que fará ouvir um "bença mainha", ou uma risada, não ter mais feriados para passarem juntos, ou ligarem por longas horas para falarem sobre bobagens ou coisas importantes. Não existe como expressar essa dor infinita que ela sentirá para sempre. 
Eu não conhecia meu irmão, não sabia o que ele queria ser ou fazer, sei que ele queria ter uma casa para não ter que pagar aluguel. Coisa que ele acabou tendo por um ano. Um ano de um pedaço de sonho alcançado. Meu irmão não era inteligente, mas era curioso. Se ele tivesse o apoio certo seria uma homem divertido, talvez não grandioso ou milionária, mas estaria feliz com sua vida pacata. Ele nunca teve grandes ambições, sempre foi medíocre nas escolhas, geralmente escolhia a coisa errada ou mais fácil. Nunca teve uma personalidade forte, sempre pendia para a escolha do mais próximo, e geralmente o mais próxima era alguém de má-índole.
Se minha mãe pudesse deixaria meu irmão numa cidade só para ele, não por egocentrismo, mas por precaução. Ela tentou ficar do lado dele sempre que podia, isso também chegava a sufocá-lo, mas o medo de deixá-lo um pouco de lado sempre acabava por nortear os caminhos deles. Meu irmão não era uma pessoa má, perversa ou traiçoeira. Ele era abobado, estabanado e cabeça-dura. Não estudou muito, depois não quis mais. Tentava trabalhar, não deu certo quando era para dar e depois já no fim da vida tirada estava fluindo.
Meu irmão não é um mártir para nenhuma história, contudo, deixo claro aqui minha plena convicção de que ele foi vítima de si. Isso em vários fatores. Tudo começou, pelo o que lembro, do boato de quando ele estava detido, onde a Marta Camelo, da lanchonete que tinha lá na rua principal, contou que queriam matar meu irmão. Ninguém nunca sou o porquê, mas todos sabiam quem queria. Meu irmão dizia no começo que era mentira, depois aceitou que poderia morrer a qualquer momento... e a saga de não deixar meu irmão no bairro seguiu por longos 10 anos aproximadamente. E se você não sabia que minha família tentou por várias vezes que meu irmão desse certo, fique sabendo. O problema é que, como te falei, meu irmão pendia pro lado mais ruim das árvores. Talvez por ser do nível intelectual dele (como meu pai falou umas vezes), talvez por vibração energética (falaram outras), não tenho como te dizer com certeza. Acontecia. Mudava ele daqui pra lá, de lá pra cá. Sempre nesse medo constate dele ser morto. Sempre uma tortura 24 horas, 7 dias na semana de que algo pode acontecer com ele. E aconteceu, mas não por esse motivo que espalharam sobre ele. Isso já tinha ficado claro faz tempo, mas continuavam tendo cautela. Hábitos talvez.
Mataram meu irmão e eu não sei o porquê, não sei quem foi e eu não o vi morrer.
Todas as noites, antes de finalmente pegar no sono eu o imagino como diz na matéria do jornal, imagino a cena como minha irmã contou para mim naquele final de noite. Antes de dormir eu vejo meu irmão, é final de tarde, os últimos raios amarelados de pôr do sol tentam se segurar nos prédios do condomínio. Ela está sentado na sua mureta da rotatória, com sua banca de venda de capinhas de celular e um cigarro na mão, às vezes ele está desmontando a banquinha enquanto dá oi pros vizinhos que passam. Tem alunos pegando ônibus na parada em frente ao ponto dele, tem carros e motos transitando. Eu vejo meu irmão todas as noites antes de dormir, ele acena e pro cara que vende mecaxeira no outro canteiro, faz piada com a careca do homem, meu irmão tem o cigarro na boca. Se aproximam um moto cinquentinha, dois homens nela, talvez dois garotos, encostam no meio-fio onde ele está, meu irmão fala com eles já percebendo algo de ruim. Todos veem a cena, o motorista do ônibus que passa por eles, o cara que vende macaxeira, as crianças voltando da escola. Todos os dias depois da madrugada 12/13 de dezembro eu vejo meu irmão assustado quando o garupa da moto põe a mão por baixo da camisa e aponta a arma para ele. Às vezes eles chegam de capacete para não serem reconhecidos, às vezes eles vão mostrando o rosto porque não têm nada a temer. Meu irmão não tem arma, nunca teve, meu irmão não era mal, nem tenha cacife pra isso, sempre foi medroso. E essa é a cara que ele faz, ele tem medo no rosto e tenta correr, ao se virar já sente a dor do fogo penetrando suas costas. A dor é tanta que ele cai. Nas piores noites, nas noites que mais demoro a dormir, ele olho para o assassino, sente muita dor e o quente escorrendo pelo corpo. Seu matador se aproxima, fala algumas palavras que não consigo decifrar e descarregar o revolver sem dó. Um, tiro rouco direto na cabeça, sem mira precisa, só a distância suficiente para garantir sua morte. Dois. Três. Quatro. Cindo. Um tiro nas costas e cinco na cabeça. Sobe de volta na cinquentinha e fogem deixando apenas um corpo para trás. Há gritos, sustos e curiosos. A vizinha dele liga na mesma hora para minha irmã, todos chorando em volta do Kris que morreu ali. Trabalhando ou indo para casa. Nas noites que escuto o eco do choro da minha mãe durante aquela ligação para saber do meu irmão que estava morto, nessas noites eu consigo ver claramente meu irmão caído ao chão, ele não olho pro bandido, ele só pede como suplica "socorro mãe, socorro". 
Kristófferson Fireman Tenório foi assassinado a queima roupa, por motivo desconhecido enquanto trabalhava no condomínio Maceió I, onde morava. 
Meu irmão virou notícia. Tenho ela aberta na página web do celular, ainda não conseguir sair dela. É uma memória física gravada de que foi real. 
Durante seu velório falei umas palavras com minha mãe, com a Lu e minha irmã. E, ao perguntarem se eu queria vê-lo, ali, no caixão, eu escolhi não vê-lo. Não ter essa memória por mais que minha mente imagine por ter visto outras pessoas na mesma situação. Eu preferi não vê-lo. Prefiro ter as memórias do pouco que consigo lembrar. Na verdade eu vou lembrá-lo mais pela minha mãe. Vou lembrá-lo quando for época de natal. Vou lembrar das situações que passamos e por muitas vezes das que poderíamos ter passado. Essas serão as lembranças que não deixaram cair no nada absoluto.
É possível que os pensamentos da cena de sua morte ocorram por ainda ser recente.
Talvez uma hora eu pare de vê-lo sendo assassinado, talvez eu pare de arranjar formas alternativas de me entorpecer e não pensar em nada. Por enquanto é madruga, e embora eu não estivesse lá, sei que seu último suspiro foi "socorro mãe, socorro."   

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Don't Worry Baby.



Após o quarto badalo é quando nos levantamos, parece que será mais um dia daqueles. Dias de pressa, dias de café preto, dias a mais... dias a menos. Faz tempo desde a ultima vez que nos vimos, lembro do teu cabelo grande e das sardas avançadas, parecia que seríamos jovens para sempre. Quando nos despedimos pela oitava vez, você me fez lembrar James Dean, jogou os quadris para o lado e sorriu levianamente. E assim se foi mais uma vez. Aquele dia também era uma daqueles. Dias que não sabíamos nada de nada, acreditávamos que tudo ia melhorar, que seríamos melhores amanhã, em outro lugar, com outra gente, tudo diferente. Não faz muito tempo quando eu deixei de acreditar nas coisas. E talvez seja por isso que cheguei até onde cheguei, na saída de emergência. Sei que você não sabe metade do que aconteceu comigo depois que atravessou os portões de embarque, também sei que continuas jovem e bela como sempre foi. Don't worry baby, cantava ela, a cidade dormia, as luzes apagadas e nós acordados para o mundo, como naqueles dias.
Agora, vendo tudo isso de cima, mais uma vez, posso perceber que continuamos seguindo a correnteza, seguindo o rio, pode parecer estranhos confirmar que não somos únicos, ímpares ou primos. É que nesta altura da vida, passei a acreditar no que vejo em vez do que sonho. E, por isso, sei que as coisas podem ou não melhorar, que podem ou não piorar, que podem ou não poderem. Pensar sobre as coisas sempre foi o nosso forte e as palavras as portas e janelas. Não se preocupe, bebê, você dizia rodopiando como se fosse cair em cima da cama. A cidade é bem diferente quando vista de cima, e nisso temos certeza depois dos balões, dos aviões e paraquedas. Será que você ainda lembra da música quando vê os pontos luminosos lá em baixo a cada voo? 
Amanhã será um dia daqueles, dias em que acordarei para um ano novo, dias de café preto, manhãs de preguiça e músicas ~Don't worry baby~, tardes de paz, noites a mais, sonhos que não deixaremos para trás. Após o quarto badalo é quando acordamos, sabendo que seremos melhores em tudo. O que todos vão dizer e aonde vão chegar, nem os olhos podem ver...

terça-feira, 31 de julho de 2018

Adágio Invocador



Ninguém está acima do céu e da terra, ninguém é perfeito, tampouco um exemplo de ética, moral e bons costumes desde o nascimento. Ser uma boa pessoa vai além de valores, costumes e religião, há um somatório além disso com índole, vivência e ambiente. Sim, a verdade não é absoluta e eu não estou aqui para dizer, mandar você fazer algo ou até mesmo deixar de fazer, mas obviamente abrir uma interrogação enorme para que você possa refletir.
Mas por que refletir? Pensar em pleno século XXI? Credo, vim aqui para ler textinho indie e agora estou sendo forçado a isso? Então, talvez você esteja alegre por achar que eu fiz algo especial pra ti, embora pareça verdade, fiz exclusivamente como lembrete para minha pessoa. Desculpe-me.
Bom, então por que refletir, por que pensar? Ora, a filosofia antiga já explicava isso lá bem antes de Cristo. Sim meu caro, a vida segue o fluxo mesmo você gostando ou não de filosofia, matemática, botânica... e assim é todos os dias. O mundo não vai parar porque você gosta ou não de uma coisa, se você faz ou não alguma coisa... isso quer dizer que o mundo é um aglomerado de acontecimentos e não exclusivamente uma aventura mental tua onde tudo se responde conforme teu querer. 
O que isso quer dizer? Bom, a filosofia segue uma lógica, é o conhecimento lógico e racional da realidade, ou seja, todo ser pensante consegue chegar nas discussões baseadas nos mesmo fundamentos.  É o entendimento do mundo, das coisas, é o sentimento de justificação da realidade. É você fazendo uma análise crítica sobre os fundamentos de alguma coisa. Em resumo, entenda como filosofar.
Okay, mas onde você quer chegar?
Filosofe, pense sobre as coisas, sobre os fundamentos, argumentos e situações onde ocorrem. Filosofia não é autoajuda ou um vale-tudo intelectual. Nem tudo pode ser respondido com o mero pensar sobre, pra isso existe a ciência. 
Questionar não é ser chato e ficar querendo saber o porquê das coisas a todo momento, saber como tudo é feito ou pra onde vão os animais quando morrem. Questionar é criar uma investigação na tua curiosidade, buscando a verdade. Não a sua verdade, nem algo autoritário, mas sim algo que contemple a verdade essencial, o que pode te deixar sem uma certeza. Sim, às vezes a verdade sobre algo te deixa sem conseguir definir, conceituar ou entender o que se passa, assim, algo que você achava absoluto, acaba por ficar com várias possibilididades.
Nem toda questão filosófica é relevante, do mesmo modo que nem todos assunto nos interessa. E por isso, deixo aqui meus comentários sobre a conversa sobre o FIG2018.
O Festival de Inverno de Garanhuns - FIG, acontece na cidade de mesmo nome no interior de Pernambuco. Sempre no mês de julho, onde faz mais frio por ser mais alto, daí é um modo dos habitantes e turistas experimentarem música ao vivo de diversos gêneros, de modo gratuito. Se você está lendo isso já te aviso que o evento acabou, mas deve se perpetuar em comentários nada inovadores até sei lá quando. O que aconteceu? Para uns um absurdo e para outros (como eu) nada demais. 
Um cantor, que até então nominaram como Johnny Hooker, em seu show no FIG 2018 comentou algo como "Queremos respeito" e "Jesus é travesti". Eu não sei ao certo como isso foi dito e nem se foi apenas isso mesmo, espero que não. E aqui levanto alguns pontos que conversamos sobre durante uma partida de jogo. 
Ela, inconformada com o desrespeito com a religião e com a sua figura de Jesus, disse que ele (J. Hooker) não pode falar aquelas coisas pois é errado falar de religião daquele modo, mancha a imagem do homossexual, pois se querem respeito, logo devem ser os primeiros a respeitar, e que a família tradicional brasileira que já não vê os homossexuais de uma maneira boa, com aquilo acabarão discriminando mais. Dizer que Jesus é travesti é como cuspir na imagem de Buda. Depois de alguns argumentos questionando aquelas idéias, ela mandou um eu não tenho nada contra os homossexuais, tenho até amigos que são, depois dessa máxima a conversa fora assassinada.
Em nenhum momento eu quero impor a minha ideia como verdade absoluta e fujam dessas pessoas caga-regra que a cada dia surge aí e se auto intitulam influencers. 
Daí vocês podem já querer gritar: mas é a opinião delas, você deve respeitar! 
Eu nenhum momento eu desrespeit(ei/o), apenas argumentei as palavras dela para entender qual era a razão dessa revolta, se religiosa, se opressora/oprimida, queria saber onde mora o inconformismo e não simplesmente a boa vontade dela de repetir coisas que já tem um monte na internet de maneira anônima. O que chamamos de "haters".
Meus argumentos foram ofensivos? Será que foi isso? Fico a pensar.

-Ele não pode falar aquilo, é errado.
-Ele falou onde, no show dele ou por aí? (Situação, uma das coisas que ocorrem aqui a todo tempo é a situação do fato, onde, quando e com quem. Baseando-se nessas três perguntas já é possível entender o contexto)
-No show, lá pra todo mundo ouvir.
-Tá, mas você escolheu ir lá no show. Ele pode falar qualquer coisa. (Partindo da lógica do espetáculo, a arte pode induzir certas questões reflexivas, e toda arte tem o dever de transmitir mensagem ao espectador, seja na literatura, música, teatro, cinema, artes plásticas... Além do que, pode ser apenas uma forma de chamar atenção, seja para visibilidade e/ou representatividade ou mero capital. Ele pode falar qualquer coisa, toda apresentação ao vivo é cheia de possibilidades, é tipo ver a Lady Gaga vomitar, Fernando [de Fernando e Sorocaba] tossir ou espirrar)
-Mancha a imagem do homossexual. (Como se a imagem do homossexual já não fosse pura utopia, homens brancos que se cuidam, todos lindos, malhados e ricos, ou feios, efeminados ao extremos e pobre. Já as mulheres, lindas, cabelo liso platinado, vestido curto mostrando a bunda, saltos e cara de atriz pornô trabalhando, ou então masculinizadas, cabelo militar, gordas e caminhoneiras)
-O homossexual, o negro e a mulher já têm a imagem manchada pelo héteros cis, o que ele fala não vai melhorar nem piorar, só vai chamar a questão pro debate.
-Se querem respeito, devem primeiro respeitar.
-A gente não desrespeita ninguém e ainda assim apanhamos durante toda escola, na rua somos xingados, não podemos andar muito junto, imagina de mãos dadas? Nem um selinho porque tem famílias perto, fora que vários relatos e manchetes sobre pessoas "não-gays" que apanharam ou foram hostilizados por apenas parecerem gays, como se tivesse um padrão gayzista que não deve existir e deve ser eliminado. 
-Ah, mas dizer que Jesus é travestir é como cuspir a imagem e Buda, sei lá.
-Okay, mas cuspir uma imagem, de qualquer religião é crime, e ali é um acontecimento artístico e você escolheu ir, não se encaixa aí. Ele não foi pra igreja católica no meio do culto falar. (As comparações em situações distorcidas me lembra muito uma conversa com minha mãe. Ela machista que pregava que a culpa do estupro é da mulher, até que muito que conversamos, uma vez ela parou para pensar com a seguinte situação: Se não existisse roupa no mundo, se todos fossem nús? A culpa ainda seria dela? Minha mãe parou, pensou, e disse que a mulher deve se reservar com outras mulheres para evitar o estupro. E foi aí que eu falei que o problema não é a mulher, a hora que ela está na rua, a roupa que ela veste, ou a voz que ela tem, mas sim a capacidade do homem de ser perigoso para ela. Foi aí que minha mãe percebeu que o problema ali era exclusivamente do homem)
-Eu não tenho nada contra os homossexuais, tenho até amigo que são.
-Mas? Pode continuar porque sempre que alguém começa com esse discurso tem um "mas" bem grande depois que derruba toda essa afirmação positiva. (E foi aí que eu me vi, mais uma vez, triste pela afirmação de peso. Peso? Sim, quando alguém fala algo assim, parece que é um esforço enorme que ela faz pois esse "até" é bem justificado depois. Eu não tenho nada contra, eu até tenho amigos negros, eu até vejo filme sobre, eu até até até... parece que há uma parede intransponível. Mas isso pode até ser algo pessoal, pode não ter algo a ver, porém pela lógica, alguém que realmente tem amigos homossexuais, não fala essa palavra, não é formal numa conversa casual. Chama apenas de gay, de lésbica, de viado ou sapatão. Quando ela usou homossexual numa chamada com três gays e um deles ser um dos amigos dela, ela segregou na hora. Ela montou uma barreira bem comum, como se usar a palavra homossexual demonstrasse respeito para a causa. Sim, numa conversa formal é tido como respeito e tal, mas no informal, é terrível. O amigo gay não se manifestou, ou melhor o amigo homossexual preferiu não se envolver. Pior que isso é ela ter dito que sabe do sofrimento do gay por ela ter um visual mais masculino. Será mesmo que ela sabe o que é ser chamada de sapatão? De apanhar na escola? De ter os olhares dos familiares estranhos? De perder amizades sem nem saber porquê? De ficarem de cochichos na rua sobre a filha sapatão? Será mesmo que um cabelo curto e uma arte marcial medalhista dá tanto sofrimento? Eu nunca vou saber, mas espero que ela não se importe com isso e tente ver apenas o lado bom das coisas, porque é difícil sobreviver em um ambiente hostil, é violento na escola, na rua e dentro de casa. Você não sabe o que tem de errado, só tem 13 anos, só quer ver desenho e brincar com os colegar de coisas comuns, daí vai perdendo os amigos aos poucos porque os irmãos mais velhos dizem que você é doente e riem de você, os pais mandam seus amigos se afastarem de você por seu uma má influência e a vizinhança já está comentando. Você acaba sozinho, passa os dias vendo tv, na escola só anda comas meninas porque os meninos batem em você, xingam você, destroem seus cadernos, comem seu lanche e você não sabe o que tem de errado. Você pergunta em casa e teu pai grita com você, te bate, tua mãe te leva ao psicólogo, você ouve ela chorar todas as noites, eles se perguntam o que fizeram de errado. Você não sabe o que você tem, o que você é. Espero que ela nunca tenha passado por isso.
Dizer que Jesus é travesti é uma analogia para a vida das travestis. Nenhuma travesti morre. NENHUM(A) TRAVESTI MORRE, TODAS SÃO ASSASSINADAS. TODAS.
Travestis não têm escolaridade porque fogem da escola logo cedo, em casa são espancadas e expulsas de casa, acabam na prostituição para tentar sobreviver, tentar mudar o corpo que já não as cabe e querem parar de ser aquilo que todo mundo odeia, quer tentar estar numa forma carnal aceitável para deixarem ela em paz. Travetis são marginalizadas, uma a mais ou uma menos você nunca vai ouvir sobre, no mais saberá que aquela lá da esquina que você passava, ou sumiu ou foi morta. 

Numa postagem de Túlio Barreto, em 30/07/2018, ele diz assim:

Jesus não pode ser negro;
Jesus não pode ser gay;
Jesus não pode ser trans;
Jesus não pode ser mulher.

Jesus só pode ser homem, branco, hétero, cis. Porque tudo mais "ofende" e diminui" a imagem de Jesus. Porque aqui, ser negro, gay, trans ou mulher, é algo ruim, que Jesus "não merece" ser, mas dizem que não é preconceito não, é questão de respeito (?).
Entenda, Jesus não precisa ter características físicas ou ser personificado com o estereótipo de surfista californiano de olhos azuis, Jesus é uma ideia universal de amor ao próximo e caridade com o semelhante, viveu e morreu por isso. Se você não consegue entender isso, você não entende nada de Jesus, só de religião.

E aqui eu ainda adiciono, nem religião. 

Segue o vídeo caso se interesse JH no FIG20018 e para quem quer saber sobre a Renata Carvalho mencionada no vídeo:Renata Carvalho

[TEXTO NÃO FINALIZADO]


sexta-feira, 6 de julho de 2018

Sonorus



 Um dos motivos de ter o diário digital é justamente poder abrir o site e ficar por horas ouvindo música boa. Pra falar a verdade, músicas ótimas. Todavia, não mais consegui manter o player como outrora, sempre fá erro. Daí, encostei o site por motivos práticos e fiquei acalentando meu esmero em ter em outras coisas, inclusive a própria mente. Gostaria que tudo voltasse a ser como antes, mas pouco sei sobre esses htmls da vida, então de logo ficarei ausente e apenas hora e outra testarei algo por esses lados.
 Caso alguém saiba como resolver esse erro, agradecerei de coração. Enquanto isso, fica o link:

Apenas o céu

Foto por @sanamaru O amargo remédio se espreme goela abaixo, a saliva seca e o gosto de rancor perdura por horas. Em vez de fazer dormir ele...