Nada como ter um local onde deixar o seu pensamento, sua marca, seu grito, seu silêncio. Cansei de carregar agendas, cadernos, rascunhos, prefiro hoje o Blog. Deixando aqui meu ultimo suspiro de cada dia.
O tédio dominical já fazia parte de mim desde a metade da semana. As cores dos dias e das noites tornaram-se um grande borrão. E mais uma vez, mais um desamor. É inverno no hemisfério sul, e as pessoas continuam se vestindo para o verão. Elas querem ver o calor humano na verdade. Isso é bem simples de perceber, mas porquê as cores também?
A força voltou, acho que ela também tinha ido à praia. Domingos são assim: praia, família, churrasco, shopping, família, fantástico. Meu domingo é assim: nada. Não que me falte coisas para fazer, não não. Há uma pilha de livros não-lidos, músicas não tocadas, papeis ainda em branco. E claro, muita matéria para revisar. Mas, continuo vagando entre o preto e branco.
Quando a energia voltou, foi aí que decidi levantar, eram umas 15 horas ou algo assim. Só percebi que já era tarde quando o relógio sentenciou, por mim ainda eram 4 da manhã. Para finalizar a tarde com desdém, pensei em visitar as páginas locais e olhar o movimento na rua. E bem, foi aí que tudo começou.
Não que seja uma coisa extraordinária, entretanto, algo mui incomum por sinal. Tudo começou quando eu clamei pelas luzes. Elas mesmas. As luzes de outrora. Tudo começa como um ritual, ainda que pareça por acaso, sempre há fragmentos que sempre se repetem, e dessa vez não foi diferente.
Responder emails, olhar o clima da semana, tendências do mercado, datas de aniversários e por fim, mensagens. E estas ultimas já faziam lista, fui do mais simples ao mais complexo. Atendi aos chamados, até o curioso encontro da música. E como qualquer coisa na minha vida, de início não dei muito valor, apenas respondi. Não conectei o nome à pessoa, a pessoa ao ambiente e o ambiente à minha vida; um fato deveras curioso entre a Letra e a Música onde, claro, não passou de alguns contados minutos de conversa.
Há quem diga que o mundo é feito de amor que se busca e amor que é buscado, entre terminantes e terminados, entre o dar e o receber. Bem, essa dicotomia yin yang não me parece nada interessante em discutir. Me lembra muito religião, e desse tema eu margeio para longe, não pisando em ovos. Sei que parece cético o suficiente para você lograr êxito e rir bastante, porém não vejo mais que necessidade humana nesse tal momento.
Também posso ser fantasioso o bastante e sugar toda a essência de criatividade e cores, cheiros e sons que não vejo faz um bom tempo. Essas coisas chamadas apenas de amor, que evapora ao despertar.
O ser humano é bicho previsível e dificilmente se surpreende. Mas quando acontece, aquece o peito por um bom tempo. E, embora eu te diga para não se empolgar por tão pouco, também te digo para aproveitar o máximo que puder. Isso mesmo, aproveite todos os momentos antes do fim. Quando esse fim chega, meu caro, é tão triste que deixa um gosto amargo de derrota. Não é possível viver plenamente em um dos lados, como um Yin Yang puro, sempre haverá uns pontos intrínsecos.
E quando você pediu pra ir embora, eu disse corre! Cada um sabe o que é melhor para si, ainda que passe por momentos ruins, dificuldades e dias de monocromática solidão. Deixe seu pensamento fluir, as pessoas agem para que o mundo não pare. A vida acontece, e quando se der conta, estará por um triz. Por um triz. E nada mais vai importar. A vontade de lutar por aquilo que acredita será impetuosa. Você derrubará todas as barreiras, passará por todos os problemas como uma flecha destemida, mas nunca terá plena certeza se o que faz é certo ou errado, porque sempre estará por um triz.
E eu desejo tanto que ele pare, mas via de regra segue em frente. Pergunta em curioso afeto. Não quero falar muito, alimentar uma propensão marginal ao gostar irracional. Não consigo parar de falar, é um clima estranho. Minhas têmporas exprimem joguetes de coesão, meu coração almeja uma alimentação romântica e meu corpo, ah meu corpo... Este já não resiste, fica estático com furioso movimento de criar. Acontecer de fato tudo aquilo que se constrói em mente, uma facilidade remota de esperançar, igual ao respirar. Tácito e profundo. A fonte com certeza é platônica, como eu poderia resistir?
Não é todo dia que alguém se interessa por você. Não de forma ao parar e se descalçar. O timbre impacta o vento e sibila em contemplação ao infinito minimalista. Um simples "olá" ecoa como oração. Repetida sacramente pelo singelo mecanismo que o corpo tem em perpetuar a bondade. A resposta não demora, mas é carregada de "me traz um café?". Ninguém gosta de ouvir problemas, mas todo mundo gosta de dividir os causos e causas. E é nessa conversa contextualizada que o formalismo vai se fazendo barreira, o informal é saudade, e a linguística é um mero encontro fatídico de acasos.
Em breve vamos nos ver, compartilhar, multiplicar e viajar. E sempre perguntará: açúcar ou adoçante?
Fragmentadas nos cantos do céu, elas permaneciam brilhantes. Pequenos pontos azuis. Observei sem me preocupar onde eu estava, quem eu era, aonde eu iria. Fiquei ali. Contemplei os céus e a cor que dele brotava. Todo o ambiente se inundava em calmaria que perturbava. Algo dizia que era mais uma vez, talvez a ultima, que as cores do mar iriam invadir meu eu.
Pode parecer um pouco triste, porém a iluminação combinava com tudo. Decorava bem ao se derramar pelas paredes, riscava calculadamente os armários, fazia as letras dos livros boiarem confortavelmente. E a mim... Bem, eu era só um corpo. Enrijecido pela vontade de não ser nada nem ninguém, e era exatamente isso que eu eu ali. Nada além de um ponto azul, em imensidão profunda e azul.
O gelado chão que aquecia minhas costas foi ficando distante, era hora de seguir em frente. Pouco salutar é o desejo de mudança, mas alguém tem que fazer alguma coisa. Não adianta ficar na zona de uma só verdade e esquecer por um momento que nada existe. Porque tudo continua a acontecer. E eu preciso acontecer. Foi então que, ainda sentado em lótus, abri os olhos e capturei toda a luz para dentro do ego. Pereceu a carne, firmou-se a perspicácia por outra vez.
Não importando quantas vezes mais eu volte aqui, sob a cor da perpétua da certeza, eu estarei livre para lutar por aquilo que ainda não teve vez. A coroa não vai cair, ela será derrubada. Será violentamente jogada ao chão, toda a mediocridade cairá junto, por terra. Rápido e vorpal. O ataque com a inteligência nunca deixa transparecer, meio ironia, meio destino. Ninguém nunca saberá o que aconteceu, apenas verão a ascensão do justo.
Acordando como um animal, cacei com os olhos por algo irregular. As janelas recebiam o calor do sol, as cortinas dançavam ao convite do vento e eu... bem, eu começava a entender que a dor de cabeça era apenas parte de tudo, não só consequência de vinho barato. Levanto com o gosto amargo na boca, gosto de ferro. A cama revirada não seria a melhor descrição para o furacão que deve ter passado por aqui ontem, os lençóis parte no chão, parte na cama, tem livro jogado, papel de parede rasgado, e a minha cabeça apenas dói, pulsando para que eu não tente lembrar de ontem. Aspirina, é isso que ela quer que eu lembre. O pisar no chão é modesto, sinto um calor diferente, como se o carpete abraçasse meus pés, tão macio que dá vontade de se esfregar todo nele.
O pijama já era, só tento vestir alguma coisa porque me sinto vulnerável quando estou pelado. Esse gosto já está me dando enjoo. Acho uma calça de moleton debruçada na cadeira da escrivaninha. Sigo ao banheiro em busca de aspirira, não sei bem onde guardo remédio, se é que tem algum aqui em casa. Bom, pelo menos no banheiro o furacão não passou, está tudo limpo e em ordem, as toalhas nos devidos lugares, o espelho limpo, a pia também, o vaso nem se fala, aproveito ele pra não deixar tudo tão limpo, afinal de contas urinar é quase que ritual sagrado depois de levantar da cama. Esse cheiro... Não é minha urina que está cheirando a perfume, e também não sou eu. Aqui não, esse lado também não, minha calça também não é, cheirei ela antes de vestir só para saber se estava limpa. Abro o box do chuveiro farejando. A porta tem cheiro de nada, as paredes também, levanto o pescoço para tentar cheirar o chuveiro, mas não é dali. Me ajoelho para checar o ralo. Esse cheiro...
Terra. Cheiro de terra, não de perfume. Não existe perfume de terra, não é? Estranho demais isso. O chão está seco, não úmido ou molhado. Seco. O chuveiro está frio, não lembro de ter tomado banho quando cheguei, se é que essa dor me deixa lembrar alguma coisa. Tiro as calças ali mesmo, jogo para fora e ligo o chuveiro para acabar com a sensação de sujo.
A água é morna, achei que seria gelada. Esfrego meu corpo todo só com as mãos mesmo, deixando a camada de suor escorrer pelo ralo. Sinto como se o mundo escorresse pelas minhas costas, o peso todo vai sendo levado, e o cansaço vai dando lugar ao novo fôlego. Me apoio para molhar apenas a cabeça, em um enxágue demorado, massageando minha cabeça parece que a dor também está indo embora. O que foi isso?
Desligo o chuveiro bruscamente ao ouvi alguém falando. Fico quieto para tentar ouvir novamente. Será que foi lá fora? Será que eu ouvi alguém me chamando? Os pingos do corpo não perturbam minha concentração, e demoradamente abro o box, atento, pego a toalha ali posta, e enrolo no em mim. Continuo com a sensação de que tem um perfume no ar, é doce mas não muito irritante, como se já tivesse ali faz muito tempo, apenas uma marca deixada para fazer presença, seria alguma mulher que eu acabei trazendo para casa? Volto em passos contados ao quarto, procuro algum indício de mulher. Nada. O perfume deve ter impregnado o meu nariz, isso sim.
"Acorde!", ouço novamente, giro para ver mas não tem nada. Acho que estou ficando louco, só pode. Quero a dor de cabeça de volta, ponho a mão nela procurando algum galo, corte, ou sei lá. Muito cedo para ouvir coisas. Meu coração acelera, sinto o sangue correndo pelas veias com violência, algo está acontecendo. Está acontecendo! Começo a ficar ofegante, confuso, tento me segurar em alguma coisa. Não consigo me mexer direito! Não sinto minhas pernas. Essa... essa sensação... mas o quê?
É muito
comum, ao se falar de literatura, pensar em um campo de liberdade, lugar
frequentado por qualquer um que tenha algo a expressar sobre o mundo e sua
experiência nele. Das teorias que afirmam a literatura como um espaço aberto à
diversidade àquelas que a prescrevem como remédio para todas as mazelas sociais
(da desinformação à ausência de cidadania), podemos acompanhar o processo de
idealização de um meio expressivo que é tão contaminado ideologicamente quanto
qualquer outro, pelo simples fato de ser construído, avaliado e legitimado em
meio a disputas por reconhecimento e poder. Ao contrário do que apregoam os
defensores da arte como algo acima e além de suas circunstâncias, o discurso
literário não está livre das injunções de seu tempo e tampouco pode prescindir
dele – o que não o faz pior nem melhor do que o resto.
Mas é preciso
reconhecer que o campo literário brasileiro ainda é extremamente homogêneo. Houve,
é claro, uma ampliação de espaços de publicação, seja nas grandes editoras
comerciais, seja a partir de pequenas casas editoriais, em edições pagas,
blogs, sites etc. Isso não quer dizer que esses espaços sejam valorados da
mesma forma. Afinal, publicar um livro – um conjunto de páginas impressas e
encadernadas – não transforma ninguém em escritor, ou seja, alguém que está nas
livrarias, nas resenhas de jornais e revistas, nas listas dos premiados dos
concursos literários, nos programas das disciplinas das universidades e escolas,
nas prateleiras das bibliotecas. Basta observar quem são os autores
contemplados em vários dos itens citados acima, como são parecidos entre si,
como pertencem a uma mesma classe social, quando não têm as mesmas profissões,
vivem nas mesmas cidades, tem a mesma cor e, em geral, o mesmo sexo…
Números não esgotam a
situação, mas ajudam a indicar algumas de suas características. Em todos os
principais prêmios literários brasileiros (Portugal Telecom, Jabuti, Machado de
Assis, São Paulo de Literatura, Passo Fundo Zaffari & Bourbon), entre os
anos de 2000 e 2014, foram premiados 39 autores homens e apenas três mulheres.
Outra pesquisa, mais extensa, mostra que de todos os romances publicados pelas
principais editoras brasileiras, em um período de 25 anos (de 1990 a 2014), 71% dos escritores são homens e
96% são brancos. As personagens não são diferentes: 60% são homens, 79% são
brancas, 80% pertencem às camadas economicamente privilegiadas – e os
percentuais sobem significativamente quando são isolados narradores e
protagonistas. É significativo, também, que mais de 60% dos
autores vivam no Rio de Janeiro e em São Paulo e que quase todos estejam em
profissões que abarcam espaços já privilegiados de produção de discurso: os
meios jornalístico e acadêmico.
Por isso, a entrada em
cena de autores, ou autoras, que destoam desse perfil causa desconforto quase
imediato. A taxista da esquina, o senhor que conserta geladeiras, o cabelereiro
do shopping, a faxineira do prédio – são pessoas que certamente têm muitas histórias
para contar. No entanto, quem visualizaria seus retratos na orelha de um livro,
quem pensaria neles como escritores? A imagem não combina, simplesmente porque
não é esse o retrato que estamos acostumados a ver, não é esse o retrato que
eles estão acostumados a ver, não é esse o retrato que muitos defensores da
Língua e da Literatura (tudo com L maiúsculo, é claro) querem ver. Afinal, nos
dizem eles, essas pessoas têm pouca educação formal, pouco domínio da língua
portuguesa, pouca experiência de leitura, pouco tempo para se dedicar à
escrita.
E, ainda assim, alguns
deles escrevem e publicam e tanto insistem que acabam atraindo nossa atenção,
porque, como diz o rapper Emicida,“uma frase bonita escrita com a grafia errada
continua bonita”. O que não
significa que a ideia seja plenamente aceita. Afinal, o domínio da norma culta
serve como fator primário de exclusão e há, é claro, quem se beneficie com
isso. Aqueles que valorizam a si próprios por saberem usar a norma culta da
língua não têm interesse em desvalorizar essa vantagem, conquistada, às vezes,
com muito esforço. Não é raro ouvir, em sala de aula ou em eventos acadêmicos,
alguém se referindo a Carolina Maria de Jesus, por exemplo, como “escritora
semianalfabeta”, como se uma autora capaz de escrever livros com a força e a
beleza de Quarto de despejo ou Diário de Bitita fosse ser analfabeta só
por escapar, vez ou outra, daquilo que é determinado pelo Vocabulário ortográfico da Academia Brasileira de Letras.
Dá para imaginar o
quanto é grande o desejo de escrever para que essas pessoas se submetam a isso
– a fazer o que “não lhes cabe”, aquilo para o que “não foram talhadas”. Vivem,
assim, o constante desconforto de se querer escritor, ou escritora, em um meio
que lhe diz o tempo inteiro que isso é “muita pretensão”. Daí as suas obras
serem marcadas, desde que surgem, por uma espécie de tensão, que se evidencia,
especialmente, pela necessidade de se contrapor a representações já fixadas na
tradição literária e, ao mesmo tempo, de reafirmar a legitimidade de sua
própria construção. E isso aparece de diferentes modos. Às vezes, está no
interior da própria narrativa: “É preciso conhecer a fome para descrevê-la”,
dizia Carolina Maria de Jesus. Às vezes está em prefácios, como os de Ferréz,
que defende a importância de deixar de ser um retrato feito pelos outros e
assumir de vez a construção da própria imagem. Ou então em manifestos, como o
de Sérgio Vaz, que diz que “a arte que liberta não pode vir da mão que
escraviza”. E há ainda as apresentações dos livros, as orelhas e os textos da
quarta de capa que reforçam isso, ressaltando a legitimidade do lugar de fala
do escritor.
Por isso
é tão importante a presença de autores e autoras provenientes de diferentes
espaços sociais, com diferentes cores, interesses, profissões, desejos,
conhecimentos, razões. Autores e autoras que façam barulho, causem
dissonâncias, firam as belas letras, desmontem as regras do jogo. Eles, e elas,
estão por aí, publicando por conta própria, criando coletivos, apostando na
internet e no boca-a-boca para vender seus livros. Alguns até conseguem se
projetar em editoras de maior fôlego, a maioria batalha junto de pequenas
(algumas já históricas) casas editoriais, mas com circulação muito restrita. Há
ainda aqueles que se dão por satisfeitos ao recitar seus poemas em um dos
vários saraus literários que se espalham e se fortalecem nas periferias das
grandes cidades brasileiras, só “curtindo o barato”. Há até os que já começaram
a produzir uma reflexão própria sobre literatura, e certamente têm muito o que
dizer. Mas nós, enquanto críticos e enquanto leitores, precisamos ter como
alcançá-los, e isso ainda depende, em grande medida, de seu acesso ao campo
literário – às editoras e livrarias, às páginas dos jornais e bibliotecas, aos
prêmios literários e às traduções, aos programas de disciplinas e aos eventos
acadêmicos. Deixá-los falar sozinhos é perder a oportunidade de ampliar nossas
referências sobre o mundo.