sexta-feira, 6 de julho de 2018

Sonorus



 Um dos motivos de ter o diário digital é justamente poder abrir o site e ficar por horas ouvindo música boa. Pra falar a verdade, músicas ótimas. Todavia, não mais consegui manter o player como outrora, sempre fá erro. Daí, encostei o site por motivos práticos e fiquei acalentando meu esmero em ter em outras coisas, inclusive a própria mente. Gostaria que tudo voltasse a ser como antes, mas pouco sei sobre esses htmls da vida, então de logo ficarei ausente e apenas hora e outra testarei algo por esses lados.
 Caso alguém saiba como resolver esse erro, agradecerei de coração. Enquanto isso, fica o link:

terça-feira, 29 de maio de 2018

Vermelho como o esmalte que ela gosta.


Vejo o suor escorrer vagarosamente, como lava de um vulcão em erupção. Ela se demora e se derrama como se reclamasse aquele território para ele. Suor. É isso o que eu vejo nas manhãs de frio. Nas janelas. O calor que aqui figura é algo que apenas é sentido quando se trocado, de dentro para fora ou de fora para dentro. Ameaço o suor com o indicador, desenho um rosto feliz. Smile. Mas não sorrio, não mais. É assim quase todas as manhãs agora, quando a temperatura cai drasticamente na madrugada, quando a hora se torna mais escura antes do amanhecer. Não há pássaros cantando, buzinas, ar condicionado ou um assobio se quer. As manhãs são acordadas pela diminuta vontade pecaminosa de sair das cobertas.
Falando com palavras hostis de quem não quer sair por rua abaixo, deixo aqui meu aviso de que hoje será outro dia daqueles. Me preparo, alongo, desjejuo, vejo as notícias, tomo algo quente, como algo frio, banho em vapor, roupas e mais roupas para o corpo não se esfriar, eletrônicos na mochila, cadarços amarrados, o titilins das chaves já anunciam o próximo alvo. A serpente de ar já me mordisca sem piedade. Oito graus, o sol nem tenta sair, mas já vamos ao trabalho. Pessoas já transitam nas ruas, calçadas com rodas e pés, com patas e folhas varridas. Destranco, ajeito, impulsiono e vou. O equilíbrio é algo nato, pouquinho pra lá e pouquinho para cá. Vou sem culpa, descendo pela via. A touca aperta os fones de ouvido, a garganta tenta pigarrear para o próximo "bom dia", mas é só lá na chegada que todos se afeiçoam. Corro contra o tempo, contra o vento, contra a música. Ela atordoa a visão com força, me faz pensar, me faz observar os detalhes. O ânimo é apenas se tiver um motivo, um motivo. Os carros da avenida se vão, feito um caminhão de gás, são vários, indo e vindo, carros, motos, bicicletas. Freio. A travessia da avenida é sempre minha preferida, pois é colocar o corpo na faixa e todos param, motorista acena, "bom dia", sorrisos, acenos, aceleração. 
Ouço sempre um álbum na ida. Cícero, Rubel, Engenheiros, Kid Abelha, sempre algo que me faça balbuciar como se a minha vida dependesse daquele refrão. Observo a rua. Uma rua só minha agora. A ciclovia escoa nas duas quinas, as esquinas são floridas, montes de flores azuis ou amarelas tentam engolir toda a calçada. A ladeira está ficando mais ingrime, sinto o frio do lago chegando, mais frio. A respiração aqui dói um pouco, o nariz escorre rápido, mas logo pára. O sol resplandece, bom dia amigas capivaras, digo sorrindo para as duas amigas da manhã de sol fraco. Força mais algumas vezes. O caminho é sempre o mesmo e bem simples, bem pertinho na verdade. Às vezes, vou tão empolgado no cantarolar que esqueço de ver as árvores dançando com a melodia, não vejo as crianças brincando na frente da escola, não ouço os pássaros que já alimentam os filhotes nas calhas das casas de madeira. Hoje, como quase nunca, estou bem adiantado, paro um instante, tiro uma foto e concordo "eu não vim até aqui para desistir agora", se depender de mim eu vou até o fim. O percurso já se completa, estaciono, ponho o cadeado, e começo a me despir, primeiro as mãos, depois a cabeça, por ultimo, sempre por ultimo até o quanto dá, os ouvidos. No bolso mais uma trilha sonora de um lugar qualquer, tão rico, tão bonito e tão querido. Em pensar que na volta é tudo tão diferente... na volta.


terça-feira, 3 de abril de 2018

A Pescaria [a isca e o anzol]



 Diário de bordo,[a isca e o anzol] três de abril de outro ano, o mar continua agitado, mas não tão revolto como outrora. A capitã diz que a tempestade passou, mas continua com a cabeça erguida lendo os céus, tocando as ondas com as pontas dos dedos hora e outra, na tentativa de sentir as correntes quentes da boa sorte, nem a brisa ricocheteante em sua face faz ela parar de seguir em frente. Sua visão é firme, para o futuro, seus cabelos ficam soltos e vívidos de uma cor que acentua sua prontidão. [a isca e o anzol] Eu já permaneço sentado, ouvindo o som da maré, a capitã reclama dos joelhos, da coluna, da rigidez dos ossos que permanecem crentes que tudo vai dar certo. Meu trabalho desde o começo é ficar atento à isca e o azol, todos os dias, sempre a isca e o anzol, nada mais. Ela controla o barco, durante os dias e as noites. E mesmo não pegando nada bom por várias tentativas, ela ainda comemora a cada puxada na vara de pescar, a cada rede puxada fortemente de volta à proa, ela comemora. Parece que tudo é novo, mas é só uma repetição. Entendi, depois da primeira noite fria, que tudo tem seu tempo, ela me ensinou com seus atos que devemos ter menos fome de querer, de precisar, de possuir, e assim, racionamos o fogo, a comida, as esperanças. [a isca e o anzol] Me mostrou que a curiosidade nunca é demais, é buscando que conseguimos, que conhecemos, que acabaremos por encontrar nosso próprio caminho. O conhecimento nunca é desperdiçado. O medo é algo real e vivido todos os dias, sem essa de tubarões gigantes inteligentes e assassinos, ela cantou que o medo real está na escuridão, apontou para o mar que era puro breu, não consegui distinguir entre mar e céu, tudo era tensa negritude. E ainda assim, há beleza. Ela aponta para as estrelas, um polvilhado de cintilantes celebrações de que não somos os únicos. [a isca e o anzol] Na alvorada, o neon do sol risca o firmamento ameaçando a marcha das nuvens para um novo dia. Os corais mais coloridos só acontecem quando estamos ao lado de alguém que nos faz bem, caso não, é apenas pedra. Ela me fez pegar um pedaço de coral enquanto estávamos na maré baixa, caminhamos por bancos de areias vendos os peixes, ouriços e mais um monte de criaturas esquisitas e encantadoras que só no mar existe. Sei agora que essas criaturas são os nossos próprios sentimentos em relação aos outros, nem sempre bonito, nem sempre sabemos dizer o que é, mas há uma existência única e majestosa em toda vida presente em nossas vidas. [a isca e o anzol] Ela canta, religiosamente, todas as manhãs, confessa que acredita em sereias e por isso não pode deixar aqueles seres ganharem do canto e beleza dela. "Somos melhores no que somos", afirma ela. Em momento de tédio falamos de todas as coisas, coisas que éramos, coisas que gostávamos, coisas que seríamos... Eu até me aventuro e narro uma história ou outra dessas minhas, ela adora ouvir as palavras de um livro sem final.
 Opa! O anzol foi puxado, acho que pegamos alguma coisa! Capitã! Rápido! Já comemoro a tentativa de fisgar mais uma oportunidade, vibrando em energias positivas... ela puxa uma vez, prende a respiração, cola os cotovelos ao corpo dando mais firmeza, solta a linha, prende-a novamente, espera uns segundos, puxa de leve dedilhando, prende em súbito, solta um pouco, prende novamente, gira o molinete depressa, apoia o peso do corpo em uma perna, franze a testa, puxa a vara, aperta os lábios, continua puxando... Não sei se iremos pegar algo bom, espero que sim. A única coisa certa que sei quando a isca é mordida, é que a Capitã dirá ao final da tentativa: Valeu a pena. [a isca e o anzol]



quinta-feira, 22 de março de 2018

Onde você dorme?


Ela me perguntou desbravando a selva que é este primeiro encontro. Nunca fui bom em diálogos com novas pessoas, porque às vezes é difícil saber quando elas são sarcásticas, engraçadas ou hostis. "Onde você dorme então?", ela me perguntou pela segunda vez, ainda não tinha pensado em como responder sem parecer grosso, então logo falei "No chão". Ela olhou com dúvidas e, claro, seguiu-se por mais e mais perguntas. Dias depois, por caminho mesmo, ela acabou conhecendo tudo, e entendeu, por fim, os motivos que me trouxeram a dormir no chão. Claro, antes de tudo isso, se fosse o caso, ela iria se deparar com e mesma situação. Depois de duas mudanças eu desisti de montar a cama, só dava trabalho e ranger de madeira. Para quem tem o sono leve, qualquer som no silêncio é um trovão. Interessante é observar o quanto nosso mundo íntimo nos soa tão comum, e quando conhecemos os dos outros, acabamos comparando automaticamente, avaliando o quanto gostamos disso e daquilo, desgostando daquele e do outro. Parece razoável te confessar que quanto mais se gosta de alguém, menos valorizamos o campo material, a presença dele/dela se sobressai dos ambientes. Comprovo isso nas festas ruins e pessoas ótimas, de viagens longas e desconfortáveis, mas com pessoas memoráveis e que nos dar um suspiro profundo em imaginar como elas estão agora. Quanto mais você aproveitar as pessoas, mais memórias terão. E nada se compara as fotos e vídeos de uma narrativa de uma pessoa que nos gosta, porque ela vê detalhes que não vemos, ela nos coloca em situações deveras inusitadas, com traços únicos. Aprendo, a cada dia, a valorizar as pessoas, os pequenos dizeres e gestos singulares, porque isto é o que enriquece qualquer relação, inclusive a da saudade. É assim que nunca nos esqueceremos das pessoas que passam por nossas vidas. Faça um teste, pensa no ultimo encontro que teve com familiares, o melhor e o pior, pensa também nos amigos, nos colegas de trabalho e/ou escola, nos estranhos das festas, das conduções, perceba o quanto de vida percorre teu dia e às vezes a gente só ignora, por mero egoísmo cotidiano.  


Blackout


Houve outro blackout, desta vez mais longo. Parece que quando nos falta energia tudo muda, mesmo que por algumas horas, já podemos sentir a diferença. Nosso ritmo desacelera em automático. Por isso, poupe energia. Seria fácil tomar sol todos os dias e continuar em atividade, mas o corpo precisa de diversos tipos de energia, e uma das principais está tão rara quanto um dia de sol sem reclamação. Houve outro blackout, fiquei atordoado quando dei por mim, tudo se apagara de repente, mas como posso terminar se o mundo se apaga? A vida nos espera enquanto estamos no vazio? Usando menos comprimidos, utilizando de mais cores durante o dia, respirando a noite do jeito que se deve fazer. A energia que falta pouco-a-pouco se coleta, é mais difícil do que parece. Fico a pensar nisto depois do apagão, ainda deitado em um gramado, o sol aquece confortavelmente, o vento gelado refresca ao seu passar, assim são algumas tardes da minha vida. Se me pedissem para voltar, logo vos diria que já não lembro o caminho. Ninguém gosta de mudar quando se está bem, quando tudo se faz bem, ao contrário, pedimos que tomem cuidado desses minutos, que se cuidem o quanto podem. A energia  aqui faltou em preguiça, porque tudo ao redor está em pleno vapor. Dá pra ver as lojas, as igrejas, os carros na pista, as crianças no parquinho, os pais em conversas, cachorros em passeios... só quero que você entenda que algumas energias nos faltam, mas sempre podem ser repostas. Lembro desta conversa ao ar livre, caminhando pelo milharal, o céu pigmentado de estrelas pulsantes e o frio desafiador... Levanto preguiçosamente por alguns segundos, desisto e repouso novamente, pois é hora de voltar ao meu apagão. 

Apenas o céu

Foto por @sanamaru O amargo remédio se espreme goela abaixo, a saliva seca e o gosto de rancor perdura por horas. Em vez de fazer dormir ele...