terça-feira, 20 de setembro de 2016

O que você vê?


 Existem algumas coisas na nossa vida que são inexplicáveis. São eventos únicos e particulares que só cabem na memória. Não falo de sonhos de futuros bobos, de uma viagem ao continente cultural ou um abraço revigorante, nada disso. Falo de fatos que apenas nos acontecem, sabores que nos apetecem. São experiências que nunca, nada nem ninguém irá conseguir reproduzir, nem se quer transmutar em algo repetível e, desse modo, me desculpe Senhor Gatsby, mas não é possível repetir o passado, e, mesmo que pudesse, eu jamais tentaria essa ousadia.
 Sabe, senhor, certas coisas só acontecem pra que a gente siga em frente, tentando acreditar que existe algo tão bom quanto o que nos aconteceu. Lembre da linda Daisy e da primeira vez que a viu, lembra qual foi a sensação? E depois de tanto matutar qual o caminho a percorrer, me pego corroendo antigos dissabores. Deve ser por isso que me atento aos pequenos milagres que me ocorreram.
 Sinto a brisa salgada, a areia macia, o som do mar convidando ao paquerar da lua. A música que conheci, que me trouxe essa saudade, está comigo, sempre, como um dos favores diários e secretos que só resistem a um. E, desse mesmo modo, tento me agarrar às experiências que tive com tanto bom proveito. Talvez seja hora de me entregar de novo ao mundo, ao conhecimento, ao acaso, ao destino de apenas ser aquilo que sempre fui criado para ser. E, no abrir de olhos, contemplando a imensidão refletora que me sorri, me permito te dizer. Eu acredito na luz verde. Eu tenho que.
 Alegria, vida, fim.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O mundo tá chato ou é só você?


 O mundo tá chato, dizem os especialistas da procrastinação emergente, os palpitantes sábios e sagazes da vida alheia, os críticos literários de um livro só, os "experts" não-graduados. E olha que até os com suposta formação, às vezes, dão uma de gato de botas e choram bastante atenção. Afinal, o choro é livre. 
 Do mesmo acontece no ridículo cubículo semirrarefeito, de erros e acertos propositais, apostilando antigas cantigas de coragem e etiquetando novas virtudes como se um dia fosse olhá-las do mesmo modo como da primeira vez. E como de costume, aproveito para tentar forjar novos hábitos como outrora, uma releitura analfabética de símbolos apócrifos. Surge uma vontade repentina de ser bom em algo que ninguém se importa, ninguém da a mínima, e nisso eu sou bom. Sou até ótimo. Ser bom em algo que ninguém se importa é algo tão surpreendente que até pode ser considerado um ato olímpico. Claro que nas modalidades que nunca serão inventadas por ninguém, porque, claro, ninguém se importa. Não se esqueça disso, é a parte mais importante. 
 Um chá de gengibre com gota de limão ou um martíni pode acompanhar bem sua insônia, mas pode trocá-los por um bom café. E como o bom já sabe, café deve ser igual ao amor: forte e sem açúcar. Sempre tome algo quando for fazer algo miseravelmente útil para si, pois a voz pode ficar rouca, a garganta pode apertar e a respiração padece. Às vezes, nesse tentar de refazer o que gostávamos de fazer no passado, pode aparecer certas coisas na mente, ou até na vida, que pode nos tirar o foco. Por algum motivo torpe, essas lembranças nos tira o foco, nos embaça a vista e salga os lábios.
 Não digo que é ruim deixar fluir, na verdade é muito bom. É terapêutico. Tenta apenas reconhecer o que é teu, pra não segurar uma mágoa que não é tua, um amor que não é amor, uma dor que já passou. Caso as barragens não segurem a revolta, não se sinta culpado. Acontece. Deveria acontecer sempre, isso acalma a gente, sabia? Parece bobo, mas... no fundo, a gente só quer mesmo se sentir bem. Mesmo sem entender, ou nos entender, se permita. Dance quando quiser, converse o que quiser, pense o que quiser, seja o que for, mas seja. 
 O mundo tá chato. Você já deve ter sacado que o mundo é o que nós somos. E, te contando na real, se tu me achas interessante, por que o teu mundo tá chato? Se releve, isso mesmo, se sinta parte interessada, seja importante no mundo, no teu mundo. Acredito no que te faz bem, no sorriso do vizinho, nos abraços dos amigos, no beijo do teu amor. Sabe, eu nunca entendi essa de mundo chato, o meu sempre foi o maior barato. Sempre fui desajustado, maníaco em pequenas coisas, desbravador de conhecimentos simplificados, curioso por culturas, línguas, palavras e provérbios. O meu mundo sempre foi interessante, ainda que com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, porque... bem, é difícil explicar porque o meu mundo não é chato. Acredito que uma dica é válida, não seja tão mente fechada, acredite nas diversas opiniões, verifique as respostas, duvide sempre, sorria mais. Irreleve os problemas pequenos, mas não os ignore, nunca ignore nada, apenas se for um xingamento, isso você ignora, porque tem coisa que não vale à pena. Aquela viagem pelo mundo vale muito à pena, ainda está trabalhando nisso? Deveria, não é mesmo? É mesmo! 
 Hoje eu volto para 23 motivos que me agradam e eu ignorei. Sinto muito por isso, eu também faço essas coisas que vocês fazem. Ah, você sabe. Isso de viver, de sonhar e sofrer, de amar e morrer. Eu também faço. Tudo faz também. Talvez seja o mais legal. Então, me dedicarei novamente ao hobby de viajar por aí, em um conforto particular e uma playlist variada. Espero que consiga colocar em prática essas coisas de auto-ajuda, quase 30 não é quase 17, o sonho pode ser adolescente mas essa coluna aí... melhor não arriscar.
 Eu estou voltando.
Volte-se também, rumo além.
 Ah, cuidado com o degrau.


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Lembranças: guardava, mas hoje as queimo.


 Ao responder o comentário dela me surpreendi com a falta de coragem. "Para quê escrever num país que ninguém lê?", disse ela com toda pompa, tanta propriedade em sua indignação que senti sua saliva escapulir. Ainda que, passadas as semanas deste mesmo evento, minha resposta foi eficaz e demasiado sincera: "Alguém sempre lê. Sempre."
 E disto eu tenho plena convicção, ainda que alguns digam que escrevem para si, que escrevem para não morrer, todos tolos. Todo mundo escreve para alguém, uma hora ou outra este alguém é tomado por arroubo de uma frase, um texto, um comentário qualquer ainda que misdirecionado. Porque essa é a lógica de escrever, acertar ainda que fadigamente aquele ou aquela que se abre mão de estar fazendo qualquer coisa e parou, ainda que por um segundo, para ler. Para te ler.
 Deve ser por estas tantas que a gente acaba vítima de si. Obrigando-se quase que sempre à composição de novas e novas frases cimentadas com esmero. Sabe, vou ser sincero contigo, ou melhor, vou apenas dizer-te o quanto estou feliz por estar aqui dizendo nada. Porque esta mensagem não é para você que está lendo, não não. É para mim. No futuro. Quando eu ficar sem rumo, triste e desolado, me sentido como por esses dias cinzas que me tomam parte viciada. Terei que ver que alguém sempre irá nos escrever, e no momento certo a mensagem será recebida, abraçada quase que por completo à tentativa sagaz de contento.
 Caso você se depare com essas suavidades ora real ora insistente, não se reprima. Exprima. Apresente-se à alguma coisa que te possa explorar sem ser julgado. Escreva, ainda que amasse as folhas com raiva e jogue em fora tudo aquilo que está entalado na garganta; escreva mesmo que as folhas se abarrotem por ter as linhas embargadas com dor, com mágoa, com a angústia de ser; escreva freneticamente como se não tivesse tempo algum para respirar mesmo querendo mas o mundo pode acabar a qualquer momento e já não temos tempo para nada a não ser continuar; escreva, leia, escreva, respire, escreva e sinta que tudo fica mais leve.
 Sempre escrevo cartas aos que tenho saudades, talvez até tenha escrito ontem uma carta para ti. Minhas cartas são todas diagramadas conforme a norma culta, com cabeçalho, data, e muito dizer. Todas as cartas tem seu final distinto, um P.S.: com uma citação, o envelope é escolhido a dedo e, após colocar o remetente, queimo-a. Com medo de alguém encontrar minhas cartas endereçadas e postá-las, com medo de alguém violá-las sem qualquer pudor, queimo-as. Ato revolucionário que alivia e magoa. 
 Cada uma com sua própria primazia sedutora. Cada som gravado em celulose e, principalmente, o meu silêncio.


sexta-feira, 27 de maio de 2016

Sereno.




 Ontem, lá pelas tantas da madrugada, acordado por não poder dormir, por temer dormir, por temer sonhar com o amanhã, me deparei com solicitude drástica que vingou-se tão completamente. A vida se esparramou sobre a cama, uma bagunça tão significante que combalia qualquer esperança de quietude. Tomei impulso pequeno ao lançar os dedos trêmulos nas primeiras gravuras de passado, receio que era tristeza que me tenha sucumbido, pois havia tanto que gritava por mim, chamava meu nome, o meu verdadeiro nome. Tudo ali em cima da colcha pueril, desdenhada por prazer, me olhava, me julgava. O suspiro profundo denunciava remorso. A frieza da noite abraçou-me, as luzes da rua afagavam todo aquele contexto, era mais uma noite de solidão. Sozinho de si, passei a enfrentar tudo o que deixei para trás, todas as pequenas coisas que um dia ia consertar e nunca fiz, papéis que ia retomar e nunca mais voltei ali, as fotos... as nossas fotos de momentos tão incríveis estavam ali, amassadas pela dor, com o manto do tempo em jazigo. Ao tocar as laminas me toquei que fazia muito tempo que não era ouvido, que não falava sobre a coisa mais terrível do mundo, o segredo que já nem lembrava e que me marca para onde quer que vá. Uns minutos se passaram desde que comecei a organizar a vida tão exposta e vulnerável. Uns minutos, horas, dias... aproveitando cada sensação de culpa, remorso, alegria, prazer... tantas emoções engavetadas para o depois, para o quando eu tiver mais tempo, quando eu tiver mais dinheiro, quando... 
 O mais interessante disso tudo é que, ao se dar conta que finalmente eu estava onde nunca tinha sonhado antes, onde a possibilidade de estar fazendo aquilo, fazendo isto aqui, defrontando tudo e qualquer coisa de uma maneira tão sensata, é tão disforme da perspectiva global que me sequestra ao absorto universo particular. O meu próprio universo dentro de algo tão único quanto o primeiro átomo revelado, ao primeiro beijo, ao primeiro salário recebido depois de tanto esforço... o momento mais importante do dia não é realmente aquele que você aprendeu algo novo, ou alguém que conheceu, ou até mesmo se sorriu ou se chorou, nada disso. Na verdade isso nem existe, essa coisa de momento mais importante é uma mera invenção. 
 Você se dará conta, assim como eu, que o momento mais importante é aquele ao qual você parará, não dará conta mas o fará, será automático, será hilário e constrangedor ao mesmo tempo, uma sensação de importância e impotência tão grande que suas pernas podem fraquejar, suas mãos só encontraram o rosto e se banharão por água e sal. Este será o momento mais importante do presente, quando acontecer lá no futuro qualquer, a qualquer momento, você se lembrará do passado, olhará para trás com tanta vontade que seu peito não suportará tanta vergonha, tanta coragem, tanto orgulho esbugalhando as cordas vocais em pedido de ajuda. Ajuda nenhuma virá, e você sabe disso. Eu sei disso. Estou aqui agora. No exato momento em que tudo acontece, no momento perfeito da imperfeição clara e nua. Não é algo público, é algo ínfimo e íntimo, algo só nosso, perfeito. E quando você colocar tudo onde puder ver, quando espalhar toda a sua vida numa colcha que devora a solidão terá então, a minimização do que não importa. Será apenas você.
 Eu, conquistador de universos múltiplos, mero desbravador de paradigmas, estou no meio da construção desta nova etapa. Parei um pouco para sentir e entender os porquês de tanto por nada. E como um conselho adicional para você caro leitor, quando não tiver mais forças para continuar está jornada solitária do autoconhecimento, pare um pouco, pouse sua xícara ao canto, sorva os cheiros ao redor, os sons, veja as luzes que te circunda. Lembre que o mundo continua posto mesmo sem você, e aceite que nada é perfeito nem Deus, nem a vida, nem nada, e logo após que aceitar a imperfeição de tudo, saberá de fato que esta é a maior perfeição do momento. Aceitar que a vida é tão simplificada em confusão. Ande um pouco para que o aceite decante, assente na consciência. Veja a noite como é linda, fique nela, sinta-a. Sereno.

quarta-feira, 2 de março de 2016

As crônicas da alma viva: A hora extra (parte 4)



 Tomar o fretado rumo casa é quase que religioso, acabamos por conhecer os madrugadores da operação, quase sempre as mesmas pessoas. O motorista aguarda mais cinco minutos antes de partir. Sobem mais algumas mulheres, outros dois rapazes e por fim, o ônibus está meio cheio, meio vazio. Somos umas vinte pessoas quase. Fico próximo da porta de embarque pois gosto de ouvir o clique da porta ao fechar, isso me desperta. A rota é a mesma, estarei em casa em vinte minutos. Ele segue rumo ao fim do mundo, próximo da universidade, vai adentrando em ruas largas, depois as casas vão se estreitando, grandes portões, largos portões, portões, portas, portinhas... De casas para vilas. A conversa dentro do veículo é amigável, alguns conversando sobre o dia de trabalho, outros ao celular com familiares ou amores, não sei ao certo, e eu. Bem. Eu continuo aqui, tentando não pensar e nada a não ser chegar em casa e dormir. O balançar contínuo do ônibus embrenhando nas vísceras da cidade me embalam. Tento não cochilar, porém é em vão. Meu ponto é bem longe daqui e ainda nem deixamos a primeira pessoa. Uma grande imensidão negra escorre pela janela. Chegamos. Uma mulher desce do ônibus, acena para nós e logo sobe em uma motocicleta rumo à escuridão. Ela está entregue. Faltam apenas 6 para chegar a minha vez. Acordo com o bater da porta. Afasto em supetão a cortina da janela, corro olhos em busca de localização. Passei do meu ponto! Merda. Merda. Merda. Oi? Respondo para garota do lado. Ah, okay. Respiro em alívio. Ela me conversa que um rapaz pediu que fosse pela outra rua porque houve um bloqueio da companhia de saneamento. Estamos no número 4, faltam dois. Sorrio para a jovem com receio, acho que ela percebeu que eu cochilei com vontade dessa vez. A adrenalina não me permite mais dormir. Pigarreio. Tomo posição na poltrona. Risco a pista com meus olhos cansados. Uma breve chuva arrisca despencar. Alfinetes d'água fagulham no ar. Estudo os céus com temor, mas não haverá mais que uma leve garoa. O ônibus para ao sinal vermelho. Foco na esquina desconstruída do caminho que desbrava matagal. Há uma pessoa ali, na sombra. Na penumbra. Assaltante? Está ereto. Convicto. Não há contorno de gênero, pode ser qualquer pessoa. Ser andrógeno e sinistro. Desvio o olhar. O ônibus segue pista livre. Encaro novamente o ser. Ele não mais ali. Com certeza um bandido! Esperando a próxima vítima. Claro. Muito acontece por essas horas da madrugada. E principalmente quando está pra chover. Desce o quinto, o veículo indica à esquerda, primeiro condomínio. Após vários e vários metros e mais metros dentro dos condomínios, o sexto salta e saúda o motorista. Agora minha vez. O ônibus faz a volta, uma meia lua com proeza. Levanto da poltrona e vou para cabina do motorista. Ora, ora, diz ele sorrindo. Conversamos enquanto o vários e vários metros no traz de volta a pista principal. Passa a entrada do segundo condomínio. Pega a entrada do penúltimo. Alguns minutos e já salto na frente de casa. São e salvo dou tchau, atravesso a pista, passo pelo portão automático, atravesso a pista dentro do condomínio e sigo o calçamento até meu bloco, não há ninguém no parquinho, o balanço da esquerda está em movimento, não há som de criança, apenas o distante barulho do fretado com pretensões de desviar de buracos, subir as escadas é uma jogada dura depois de um dia longo, seguindo de hora extra então? A luz do hall me felicita, verifico os comunicados no mural rapidamente, subo as escadas. As luzes automáticas do primeiro piso avisam que estou chegando, logo acendem, logo apagam, só me deixam iluminado pelo movimento de continuar a subida. No segundo lance de escadas já procuro pelas chaves de casa, a luz automática não acende, continuo meu caminho, ela acende atrasada, dentro da mochila pego a chave com impulso, a luz se apaga, faço movimento, ela acende, derrubo as chaves sem querer, com o movimento de apanhar, a mochila desce o braço pousando-se também no chão, a luz se apaga, levanto de supetão junto com as coisas, a luz se acende. No final do corredor alguém me assiste. Um contorno sombrio me encara, não enxergo sem os óculos. Respiro tremidamente. A luz se apaga. Faço movimento para abrir a porta. Rápido. Mexo as voltas da chave. Não consigo acertar a fechadura. Tento abrir a maçaneta. A luz se acende. Olho com medo novamente pro corredor. Nada. Avisto a fechadura, coloco a chave. A luz se apaga. A porta abre. Entro rapidamente. Tiro a chave. Fecho a porta. Tranco. Ofegante, dou passos para trás. O medo revira estômago, tremendo limpo a testa de suor pesado. A luz se acende. Prendo a respiração. Estou no escuro. Minha casa está em pleno breu. A luz do corredor nasce na fresta da porta, o chão se irradia. Alguém está do outro lado. Dá pra ver pela sombra por baixo da porta. Não consigo respirar. A maçaneta tenta girar vagarosamente. Ela vai girando como uma aplicação de injeção que doí, suavemente até o final. A luz se apaga. O telefone toca.   

Apenas o céu

Foto por @sanamaru O amargo remédio se espreme goela abaixo, a saliva seca e o gosto de rancor perdura por horas. Em vez de fazer dormir ele...