quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Para quê serve uma relação?

 

Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela,  para ter sexo sem não-me-toques ou para cair no sono logo após o jantar, pregado.


Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas, para ter alguém que instale o som novo enquanto você prepara uma omelete,  para ter alguém com quem viajar para um país distante, para ter alguém com quem ficar em silêncio sem que nenhum dos dois se incomode com isso.

Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada e bonita a seu modo. 

Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações, para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa. 


Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem corpo um do outro quando o cobertor cair.
Uma relação tem que servir para um acompanhar o outro ao médico, para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois.

-Drauzio Varella

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O Manifesto do Silêncio - part. 1


E quando todos partirem, estarei de volta ao normal. Sozinho.


Os papéis tantos que rabisquei ficaram encharcados com água e sal, esta linha que atravessava a trave dos olhos aliviando o peito. As linhas que se formam gritam meu silêncio, falam do meu coração.

Escrevi uma, duas, setenta cartas diferentes para que eu pudesse compreender o que se passava ao meu redor, o que ebulia aqui dentro, o que ribombava na mente. Escrevi, li, corrigi, escrevi. E assim passaram os dias na minha crise existencial. 
Essa crise, geralmente, acontece no momento mais forte da vida de uma pessoa, bem quando ela se sente vulnerável, perdida ou desconsolada. A existência neste momento determina passos futuros, projeções traumáticas e remorso. E o redemoinho que se faz é infinito, levando sempre para as mesmas questões já respondidas e não compreendidas.


Calma.
Tenha calma.


O que geralmente não se responde de dentro para fora, já é sabido de fora para dentro. É nesses momentos que a palavra amiga é tida como apoio irrefutável, o braço estendido no abismo. É de onde vem as explicações variadas, a ladainha repetida, o olhar de compaixão. É posto em prova a paciência, carinho, e afeto. Porém, tem-se dois efeitos: pra quem ouve toda a explicação e presença em apoio,  não faz sentido nada de nada, e pode misturar ainda mais a confusão mental, e para quem fala é algo infinitamente desgastante, pois a ajuda tem que ser insistente para ser satisfatória.

Quando você ouve, você tem que provar que está pronto para ajudar, limitar-se aos problemas alheios dando-os extrema importância, mesmo esses problemas sendo poucos ou diminutos. Cada um sabe exatamente os pesos da própria vontade, do próprio viver. Caberá ao ouvinte estar presente, haja o que houver, a sua missão será suportar os pesos, dos mais pesados aos mais leves, e ajudar na divisão.
Muito embora a ladainha repetitiva torne o diálogo frustrante, alterne com a divagação dos sentidos. Martelar um prego batido não fará efeito, use então de artifício para dispensar, mesmo que por alguns instantes, o conflito íntimo do outro. Ajude ao outro da melhor forma possível, estando apenas presente, organizando ideias, fazendo-o esquecer do mundo, coisas deste tipo.


Se você é o epicentro da tormenta, calma.

Tenha calma.

Vou contar-te um segredo, antigamente, em meados de 2007 para ser hipoteticamente preciso, eu tive uma crise existencial forte, as coisas mais imbecis eram, pra mim, as maiores coisas do mundo. E o engraçado é que eu sabia exatamente o que fazer e como fazer, mas algo me perturbava de uma forma avassaladora. E sabe como eu superei? Ele me ajudou. Ficou comigo quase em todos os momentos, quando eu ficava muito triste e já desistindo do mundo, ele ficava ali do meu lado, apenas olhava com um olhar de um carinho tão grande que eu lia em sua feição "Aconteça o que acontecer, eu sempre estarei aqui." E eu respirava fundo com isso ouvindo um suave, quase firme, "Calma, vai ficar tudo bem". A crise acabou quando o prazo de viver chegou no próximo nível, quando o medo do novo foi obrigado a ter coragem. E assim foi superado. O tempo decantou minhas ideias. 
O interessante é que a crise existencial era justamente pelo crescer, pelas novas obrigações, era como se eu não estivesse preparado para aquilo e rogasse por outra opção. Não há opção na vida além do crescimento ou estagnação. E se eu fosse você optava pelo primeiro.

O agente do caos, ou seja, a pessoa que está em crise, ela não tem noção dos fatos. Ela perde a sensibilidade de pensar em três dimensões. A profundidade das coisas se torna superficial demais, profunda demais, confusa demais. É como estar perdido em uma floresta, e você tem vários caminho diferentes, e de todos os caminhos você ouve o chamado do teu nome. Qual o caminho à seguir? Você saberá quando a chuva cair, abafando assim as vozes do medo. E terá certeza do caminho certo para seu íntimo, e uma vez escolhido terá que enfrentá-lo. É por isso que quando estamos em conflito, é de extrema importância, relevância, e sabedoria o não agir por impulso. NÃO agir eu disse, Não! Pode ser difícil tentar parar o mundo enquanto tudo gira, quando a mente atordoa o sono, quando escapam as lágrimas e ninguém aparece para, no mínimo, perguntar com sinceridade se você está bem. Na verdade, é isso que nos faz perecer, escolher o caminho mais fácil, a gente escolhe desistir. Acredito que isso seja para a autopreservação, ao instintivo que nos fez sobreviver por anos e anos, sem enfrentar as adversidades do mundo externo.

Ser um agente do caos é tarefa difícil de se entender, ao mesmo que muito fácil. O que rege nesses momentos de inexatidão é o estopim para a fuga. Qualquer coisa pode culminar em ásperas palavras, ações vingativas, desprezo múltiplo, ou indiferença potencialmente localizada. O final sempre é o afastamento. Parece que o mundo vai desabar sobre a cabeça a qualquer instante. Mas não tenha medo em pedir auxílio, uma ajuda, um conversar sobre qualquer coisa. A tendência é aspirar-se umbigo a dentro, afastando toda e qualquer pessoa que dê início ao refletir, que mostre a saída.
Se o casulo se formar, não maltrate quem tentar te salvar. 



sábado, 2 de novembro de 2013

Aviso.


 Quem dera fosse verdade essa tal história de amor. Já ouvi tanto esse verbo que hoje é igual ao céu, contemplado às vezes, mas na maioria ele está lá, ignorado. Aqui dói, dói muito. Lágrimas incessantes me fazem soluçar. E isto já era previsto de acontecer a qualquer momento.
 Ontem eu vi um beija-flor. Ele era lindo, todo escuro e vivaz. Lembrei do dia que vi uma felicidade igual, lembrei do dia que conheci um lugar novo, lembrei de uma tarde silenciosa, lembrei de filmes engraçados, lembrei de músicas distintas, lembrei do meu coração. Será que o beijar-flor veio beber do meu coração? Pobre beija-flor, quando viu que aqui estava vazio ele olhou-me estranho, bateu asas no mesmo lugar. Levitou. Buscou aqui e ali pelo potinho com água açucarada. Pousou em meu ombro e piou. 
 Senhor Beija-flor- disse explicando-me-, eu não tenho mais açúcar em mim. O meu amor foi jogado fora.
O passarinho abaixou a cabeça e piou fraco. Bateu asas novamente e fintou-me. A lágrima do passarinho fez meu estômago remexer. Senti que ele queria tentar dizer que eu poderia mudar, que poderia ser diferente, mas ele não sabia que eu vivo na contra-mão.

 Logo o passarinho pousou em grades. Cansado. Peguei-lhe em mãos, ele não reagiu, senti seu fôlego vibrante.
 Chorei.
 A vida que tinha em mãos era como todo o sentimento que me faltava, tudo o que fora pra nunca mais voltar. O ser frágil foi deixado numa árvore próxima onde ele poderia buscar abrigo, um lar. A tarde custou a passar com a mente no beija-flor. Nunca pude acreditar que uma criatura pudesse ver em mim uma esperança de conforto, acredito que nunca sentirei isso novamente, assim é a vida. Ontem eu vi um beija-flor, que me deu alegria em alma moribunda.  



quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A Escolha


 Cansei de ser incompreensível. Cansei de sempre concordar, de entender os fatos e casos, cansei de tentar valorizar a vida, a sociedade, o bem-estar comum. Cansei de mediar conflitos, de abordar soluções, de ignorar xingamentos e maus tratos. Cansei. Agora vou ser compreensível como eles me pedem parar ser, ou seja, vou ser a pessoa mais egoísta e mesquinha possível, já que é o que eles pedem. 

 Surge, então, uma nova pessoa. Ou melhor, supre-se, então, uma nova pessoa. O ruim disto tudo não é o que eu perco, afinal de contas ser bonzinho e caridoso nunca surtiu efeito, acredito que seja pelo caminho mais agressivo que as coisas se firmem ou se mostrem. O silêncio imperará, evitando a ladainha sacra de todos os dias, os inefetivos monólogos que perduram por horas em busca de satisfazer o silêncio das paredes. E quando for necessária, a voz será objetiva e não repetida. Assim é uma pessoa compreensível.
 Desculpe-me se fui rude contigo por esses dias, ou se deixei de ser por algum motivo, é que ficar sozinho é mais prazeroso do que qualquer coisa. Um bom livro substitui facilmente você que age por impulso, que tem uma vidinha vazia a custa de aparência. Isso mesmo. Mas calma, não tenha raiva de mim. A autopreservação é instintiva, e polpar-te o esforço de levar um fora ou uma soco na cara é ainda cabível.
 Ir para academia todos os dias para dizer que está malhando e tomando hiperproteicos, sair quase todas as noites para gastar o dinheiro da pensão ou só do papai e da mamãe e por fim reclamar da vida, viajar pelo mundo e não dar valor a terra em que vive, amar alguém que não te ama... Tudo isso eu troco por um belo livro. Esquivo tranquilamente dos assuntos do dia para que eu possa, em minha mente, ter uma conversa mais prazerosa sobre algo mais interessante, ou seja, qualquer coisa que não seja a sua vida. Sabe por que? Porque eu não quero saber!
 Dos amigos, a saudade. Da família, o desprezo. E assim vão os dias, já já será 2014, e outro ciclo começará. O que não quer dizer que tudo será novo, não não. Será a mesma coisa, só que um pouco diferente. A não ser que aconteça um desastre, fora isso será o comum e inerte dia-a-dia. 
 Se você está triste ou irritado por saber que eu não dou a mínima para o que você pensa, eu te aviso: não dou mesmo. Tenho uma coleção de coisas para fazer e nenhuma delas você terá a oportunidade de ver/conhecer. Pois, cada pessoa que agregou-se em mim, elas, sim, sabem o verdadeiro significado de vida, de correr atrás, de reclamar para liberar mais energia enquanto estão enfrentando as desavenças da vida.  



 Cansei de correr atrás das coisas impossíveis, de mostrar-se capaz das coisas como se elas fossem tudo. Aprendi. Cai. Levantei mais uma vez. Cá estou eu dizendo para mim que o esforço só é merecido depois do aprendizado, que a valoração das coisas vem com a implicância de saber o que é o raro, o que é belo, o que é único. Uma vez me disseram que era muito fácil ser feliz com pouca coisa, pois eu não tinha nada, isso me acertou bem no hipotálamo, como um machado que, maciçamente, atravessou o crânio e partiu-me em dois. Ouvi tantas outras coisas que me fizeram perceber como eu era, como o mundo era, como as coisas são. Nunca duvidei das coisas, mas sempre as aceitei com dois olhares duvidosos, um para quem os dizia e outro para o que realmente significava e, só consegui realmente me entender quando isso passou a não mais importar, quando a circunscrição de moral e valores se fundiram. Aprendi.

 Do empírico fica o trauma, a memória boa ou ruim, ficam chagas no espírito que, possivelmente, nunca sararão. O que pode, ou não, transformar um indivíduo. No meu caso, só aliviou o peso de admitir as próprias escolhas. Algumas significantes, outras desastrosas. Entretanto, sempre serão tidas com orgulho.



 O grau de importância que você dá as pessoas/coisas é o que fará diferença no seu mundo. Exemplos, uma feira de livros pode ser mais esperada do que um espetáculo de um artista, uma ligação pode fazer mais efeito restaurador de felicidade do que uma mensagem qualquer, uma fuga de aniversário pode realizar desejos maiores que o planejar de uma grande viajem pra outro país, uma presilha de cabelo quebrada pode ter mais sentimento de saudade do que uma foto da juventude, uma roupa pode contar mais histórias que uma roda de amigos, o olhar de quem te ama pode te dar forças para continuar, mais que antidepressivos.

 Não importa de onde surja o carinho, o afeto. Se você tem isso no peito, rogará por demonstrá-lo, seja fisicamente, seja vocalmente, seja mentalmente. Uma prece também é uma forma de carinho. Nem sempre estaremos ao lado de quem gostamos, seja familiar ou não, a vida corre depressa e para alcançá-la, perdemos de vista muitas pessoas, trocamos situações por outras, o conforto pelo conflito, ou vice-versa. Tudo para a satisfação nossa, tudo pela escolha certa. Visto isso, pergunto-te: Você fez a escolha certa?
A única pessoa que pode responder isto é você mesmo, tanto para esta pergunta quanto para todas as outras, e ninguém poderá julgá-lo, saber por que? Porque não lemos as almas das pessoas. Não sabemos o que ela carrega em corpo fechado. Vejo a vida através de olhos de proporções singulares, quer entender como eu penso? Imagine um seriado dramático, vamos pegar Lost como exemplo, cada pessoa daquela ilha tinha uma história antes de chegar lá, e isso não é levado em conta nos momentos "selvagens", mas nos momentos "sociais", eles vão se revelando. Montando um quebra-cabeça de situações. Bem assim somos nós, um apanhado de cenas que refletem em outras pessoas e por aí vai. Cada um com várias histórias próprias e experiências, boas e ruins. E sabendo desta máxima, não cabe a nós julgar ninguém além de si, pois só você sabe o que se passa na sua cabeça, seus problemas, seus desejos, seus êxitos e frustrações. Só você sabe o motivo que você fez a escolha, esta qualquer que seja.

A vida é o que você vê, e é o que acontece quando você não está lá.






quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Feito Cristal


 Este sou eu, uma soma confusa entre valores sociais e experimentações próprias. Talvez seja por isso que eu seja assim, bem peculiar. Trago ao mundo conhecimento diverso sobre tudo e qualquer coisa, obtidos por estudos e experimentos íntimos, por traumas e aventuras, por colher os frutos podres com sorriso no rosto, por ver a alegria dos outros e roubá-la, por um breve momento, para mim.
 Sou assim, meio sentimental demais, mas não venho falar do coração. Este é mero músculo calmo que palpita moribundo. Não se engane, hoje ele é feliz, sim. Isso mesmo, já não se corrói pelo abandono, por ver o egoísmo, por cair em enganações, ele já não faz essas coisas, hoje ele apenas palpita. O bater é fraco, mas o suficiente para a vida seguir em frente, com espasmos de esperança e coragem, ele pulsa o tempo que algo bom virá, onde finalmente ele poderá descansar sereno.
 Pensei por um tempo sobre os ensinamentos de alguém raro que conheci num dia desses de novidades. Em um ambiente particular, nos reencontramos e continuamos nosso afeto. Me pergunto, às vezes, se ela continua vivendo o ardor da vida com aquela força toda, porque ela tinha nos olhos algo que é raro hoje, esperança. Mãe faz uns meses, passou adiante seu amor, espero que essa criança tenha, também, a força que ela carrega, algo que contamina qualquer pessoa, algo que constrói o caráter e bem estar.
 Ela me ensinou tantas coisas boas, mas a principal delas é que devemos ser aquela pessoa que vive para si. Não que faz tudo sem ajuda de ninguém, mas que quando o vento gelado bate no buraco do coração você não pode deixar doer, tem que substituir o vazio por algo bom, um hobbie, um ajudar-o-próximo, algo que perpetue o sorriso. Ela diz que o sorriso é a marca de qualquer pessoa, não importa onde ela esteja ou como, o sorriso sempre será seu expositor de sentimento verdadeiro. Suspeito que ela seja uma dessas pessoas sonhadoras, que acredita em outros mundos, vidas e histórias, só isso explica o fato de que ela tem tanta fé na humanidade, na vontade de mudar. Ela é do tipo de pessoa que se não tivesse um membro, estaria facilmente no Panamericano.

 Temos que entender que o físico e o emocional não devem se entrelaçar ao menos que para o lado positivo. Quando eles se misturam de todo e qualquer modo, então complica, destrói, deturpa. Aparece o ímpeto errôneo, o marasmo negligente, e outras combinações mortais para os laços sociais. Acaba em escolhas que mortificam o presente. Não se deixe nunca levar pelas paixões, elas são tontas, são tantas. Devora-nos pelo "E se".
 Eu tenho esta vontade de mudar de tempos em tempos, quando a alegria está em maré alta, quando as coisas de fora me sufocam e as de dentro continuam firme, apanhando, gritando por socorro, e segurando vida contra o adverso. Esta vontade de mudar vem da verdade, do planejar futuro, do acreditar no amanhã, mesmo que precedido de outra vontade de mudar, mesmo vindo de outro alguém. Agente modificadora, ela sempre pousará nos meus pensamentos imaginando como ela faria para escapar de tanto barulho voraz, ainda que a resposta seja a mesma: enfrentando-os. E se não conseguir sozinha, pedirá ajuda, mas nunca deixará de lutar.

 A carne e o pensamento firmam aspecto concreto, mas os sentimentos... esses são frágeis. 


Apenas o céu

Foto por @sanamaru O amargo remédio se espreme goela abaixo, a saliva seca e o gosto de rancor perdura por horas. Em vez de fazer dormir ele...