quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Momento


     Seus olhos encheram-se de saudade. E ao contar sem detalhes sobre o ocorrido, ela viveu por um breve momento todo aquele amor. Apenas dois meses, disse ela falando sobre duração, mas seu peito contava mais do que aqueles dias, eram vários anos de paixão, de carinho, de problemas e promessas. Por fim, saudades.
     Não é questão de saber lidar com a realidade, mas ter em mente o que pode-se fazer quando o coração aperta na calada da noite, quando o silêncio é ensurdecedor, quando o frio percorrer o corpo sussurrando arrepio. Como pode você gostar tanto de alguém e você não poder estar perto dele? Isso corrói qualquer pessoa, mesmo entre brigas e discussões só a gente sabe como é gostar de alguém. Não é cegueira, é conforto. De algum modo, nem que seja miraculoso, esse alguém nos fornece uma paz, um refúgio, um amor.
     Espero que ela, figura simpática que recebe estranhos todos os dias como se fosse a primeira vez, esperançosamente aguardo receber daqueles lábios as boas novas, seja desse ou qualquer outro relacionamento, quero ouvir histórias confortáveis de felicidade. Ouço a tristeza com tanta naturalidade que um simples sorriso é destacável, principalmente vindo de alguém que você gosta, assim de graça, como se já  conhecesse por tempos antigos, um nexo amistoso que pode nunca se desenvolver, mas que naquele momento, só o conversar, desabafo d'alma triste, fora necessário para recomeçar.
    Talvez ela nunca supere a perda, talvez ela ainda sofra todos os dias ao acordar e não encontrá-lo ao lado sorrindo para ela com tom de bom dia, talvez ela encontre um novo amor, talvez ele volte para ela, talvez eles nunca mais se vejam na vida, talvez ele morra, talvez ela morra, talvez o sentimento morra naquele momento. 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Alienígenas


     E foi o ego que rasgou o peito e gritou: Acorde!

Entrei ligeiro naquele lugar, olhei para trás em suspeita, não vi ninguém se bem me lembro. Era ali onde eu guardara, era ali que estivera escondido todo esse tempo. Agi rápido, eles não poderiam saber que eu estava ali, não agora. Com luvas de algodão selênico cor púrpura peguei a caixa que rogava um mistério e, sem pensar duas vezes, abri. Vi uma única e brusca esfera meio ímpar, meio translúcida. Minha memória de você.


    Acorde! Sempre caio em mim com esse dizer, são novamente três e tantos da manhã e, como de costume, tentarei voltar a dormir até às 4:00, pontualmente para ver o sol nascer. Quem sabe dessa vez eu vejo o neon do alvorecer, quem sabe assim ou tanto faz. Acorde! São já umas quatro, a penumbra era convidativa, postei ao sereno com meu velho e amargo café, e assim, lapidei a memória daquela aventura. Lembro vagamente que era carnaval, uma seresta talvez, um nojo de um lado e uma comédia do outro, uma alegria que tomara conta de todos naquele, acho, galpão. Uma simples conversa e sorrisos perdurou no tempo, de um esticada na calçada da vida até uma lasanha cumpliciada. Cortei a noite como uma sutil faca na realidade, conversas, risadas, carinho, refúgio. Faz um longo tempo, um mal entendido, uma tremenda perda de tempo. Creio que por mais simples e marcantes sejam as coisas, como em um iô-iô, mesmo que volte ao normal, nunca será normal.
    Assim como eu já era ligeiramente incomum, hoje sou muito mais. E tantas coisas muito menos. Talvez eu veja o mundo como as girafas, o único animal do planeta que eu nunca vi credibilidade cristã. Laranjas da cor do calor, com "antenas", línguas azuis e longos pescoços. De todos da Savana, o mais caricato. Porém, meu amargurado ornitorrinco  meu animal favorito por ser nem isso e nem aquilo, e tudo ao mesmo tempo, nem ele é capaz de julgar nada ou ninguém, apenas vê o rio passar e quando possível ele age. Conforta, desconforta, encanta e se faz por odiar.
    No fundo, lá no fundo, ninguém é daqui. Somos todos alienígenas do universo de outrem. Mas por várias vezes o ser extraterrestre nos ensina tanto que acaba por habitar nossa realidade. Nosso ser.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Quarto de Dormir



     E rolando de um lado ao outro da cama abracei o travesseiro em descontento. Era um abraço. Meu abraço. Aquele ao qual recuso receber por não confiar nas pessoas, por achar ato voluntário de intimidade relevante, mas um abraço de um objeto é como um abraço ao meu eu. E foi naquele abraço ao morto macio que percebi que tinha que levantar.
     Levantei os olhos ao infinito e regressei aos passos que deu para lembrar, sem mágoas, cobranças ou qualquer tipo de sentimento. Fui expectador de uma série de acontecimentos até chegar de volta ao meu corpo, ao meu abraço. Percebi que muito cobrei de mim, analisei todas as possibilidades, descobri que posso ser uma pessoa com melhores atitudes. De certo uma retrospectiva para engasgar o peito. Quanto tempo já desperdicei aguardando o momento certo, quanta gente já partiu para nunca mais voltar... Tantas coisas que já vivi que me pego abraçado em mim.
     Mas de nada mudaria, por nada mudarei. Ser quem sou é o que tenho que ser. Não tenho que esperar outras atitudes senão a própria, seja ela bondosa ou rude, atenciosa ou um mero desdém, isso é personalidade, isso é resquícios da vida, umas cicatrizes e um bolso cheio de sonhos. O que me dói não é mais que perguntas mortais, são os porquês da vida, atitudes e situações onde não controlo, não opto e sou coadjuvante.
      E de todos os atos do mundo, um abraço no meio da noite pode ser o que busco nos reboliços entre lençóis, no apalpar travesseiros em busca de afagos, no cruzar pernas em busca de outras pernas, poderia ser a falta de alguém para chamar de meu. A carência cotidiana surge com a insônia, parceiras de um coração falido em desgosto, são por elas que busco as fotos para lembrar do teu rosto, já que meu cérebro bloqueou todas as lembranças... Não lembro da tua voz, do teu sorriso, não sinto mais teu toque ou enlouqueço com teu cheiro... Nada.
     Todas as palavras são guardadas nos arcabouços da mente. Não desejo-te nada além de felicidade, esta que nunca virá de mim, pois meus sentimentos são meus, sem compartilhar, sem expor, sem dizer um A sequer. Apenas observo e sorrio vendo você seguir em frente, esse sou eu, apesar de tudo continuo a ser aquele cuja felicidade de outrem é sempre maior que a própria, mas isso é segredo. Sentimentos são secretos, nos torna vulneráveis e frágeis e neste mundo, no mundo fora do meu quarto de dormir, todo sentimento não é nada além de meros joguetes.
     Estar triste é abraçar o travesseiro e chorar ouvindo uma música que diz exatamente aquilo que você está sentindo. Já ser triste, é deixar de acreditar no amanhã, é ignorar as possibilidades e não mais se permitir. Tal como a madrugada que consola um sonhador em busca de respostas já sabidas, o dia também trará outras convicções, estas mais vívidas e cheias de esperanças e enquanto o sol riscar os céus com os alaranjados tons cor de âmbar, ou o neon translucido do alvorecer, enquanto houver outras cores para se viver, deixarei meus segredos nos travesseiros e meus problemas afundados. 
     

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Ao Crepúsculo


Não...
Depois de te amar eu não posso amar mais ninguém.
De que me importa se as ruas estão cheias de homens esbanjando beleza e promessas ao alcance das mãos;
Se tu já não me queres, é funda e sem remédio a minha solidão.
Era tão fácil ser feliz quando estavas comigo.
Quantas vezes vezes sem motivo nenhum, ouvi teu riso, rindo feliz, como um guizo em tua boca.
E a todo momento, mesmo sem te beijar, eu estava te beijando...
Com as mãos, com os olhos, com o pensamento, numa ansiedade louca.
Nosso olhos, ah meu deus, os nossos olhos...
Eram os meus nos teus e os teus nos meus como olhos que dizem adeus.
Não era adeus no entanto, o que estava vivendo nos meus olhos e nos teus,
Era extase, ternura, infinito langor.
Era uma estranha, uma esquisita mistura de ternura com ternura, em um mesmo olhar de amor.
Ainda ontem, cada instante uma nova espera,
Deslumbramento, alegria exuberante e sem limite.
E de repente... de repente eu me sinto como um velho muro.
Cheio de eras, embora a luz do sol num delírio palpite.
Não, depois de te amar assim,
Como um deus, como um louco,
nada me bastará e se tudo tão pouco,
Eu deveria morrer.

(Pablo Neruda)


Why?


     Sabe aquele momento em que o ego desinflama e você se pergunta, de várias formas, os porquês de tudo? Então, estou nesta fase.
     Em uma conversa casual com alguém especial, eu obtive a seguinte resposta: Namorar é umas da metas para 2013! - Automaticamente eu sorri para ela por simples ingenuidade. 
     Nunca pensei em por na lista uma coisa tão volátil quanto um relacionamento. Principalmente, exigente do jeito que sou, não desmereço a busca do compartilhar momentos, ao contrário, admiro quem usa de perspicácia para a construção da vida conjunta.

     Faz-se mister, a diferença entre querer e precisar. Há casos onde a busca é sumariamente para excluir a solidão, podemos então observar os namoricos de pouca duração (os famosos "de galho-em-galho) ou os místicos (os quais ninguém sabe explicar o motivo daquela relação). Alguns desses namoros dito místicos (sem explicação plausível) advém de duas fontes: A primeira e mais comum é o apego ao mais prático; o combate à solidão vai sendo asperamente executado, mesmo que a relação seja contraditória ou tensa. O segundo, e bem visto popularmente, é o "empurrar com a barriga". É tipicamente carregado de atos reflectivos, possuidores de desdém e frases específicas como "... enquanto não aparece nada melhor..."

     Querer namorar requer o seguimento de protocolos sociais, já que o título é algo a ser respeitado nada melhor que não abusar deste. Abrir as seletivas para o posto de companheiro é algo que pode ser divertido ou penoso. Humano comum: uma parte do ser tem comportamento distrativo, viajado, relaxado, sua mente procura algo que reforço a endorfina socio-emocional; Outro comportamento tem a construção, criatividade e formação como aspectos primários, a mente deste é consolidada, uma primazia de objetividade.
Essas duas partes separadas são respectivamente o infantil e o maduro. Juntas elas formas a personalidade comum. É onde origina-se as brincadeiras irresponsáveis e as grandes decisões. Saber dosar entre uma e outra é o que nos faz driblar ou fincar-se nas coisas boas e ruins.

Visto isso, o temperamento emocional fixa-se, e a vivência em dupla torna-se por demasiado querida.

     Ter alguém que se importa contigo, que te cuida, e até mesmo te irrita é muito bom. Nos sentimos especiais. É como se no meio de tantos bichinhos, estes mais belos e macios, alguém nos escolheu. Apostou a ficha em nós.

Ninguém é obrigado a estar com alguém por mais que o sentimento de escravidão amorosa exista. Ainda assim, temos a opção de enfrentar ou acovardar-se.

     O início de uma relação pode acontecer de duas formas: a primeira é o preenchimento de algumas lacunas que temos como requisitos  Buscamos a similaridade em aspectos econômicos  sociais e personalísticos. (Aceite ou não, mas só o fato de você buscar alguém em um local qualquer, já é similaridade) - Você consegue imaginar a probabilidade de dois roqueiros hardcores estereotipados se conhecerem numa swuigueira? É quase nulo.
Do outro lado temos a supressão desses requisitos, dando oportunidade ao acaso e surpresas. Quando os requisitos não estão estabelecidos, o "conhecer o outro", namorar e tudo mais, é uma descoberta maior. Podendo nos encantar ou desencantar de forma gigantesca.

Na busca de companhia podemos excluir um ou outro requisito da lista  mas isso faz com que as chances de parcerias aumentem, do mesmo que nos faculta o desespero, podendo nos fazer ficar com "qualquer um".

Apenas o céu

Foto por @sanamaru O amargo remédio se espreme goela abaixo, a saliva seca e o gosto de rancor perdura por horas. Em vez de fazer dormir ele...