segunda-feira, 18 de maio de 2015

Querido Amigo Gay.



Querido amigo gay branco de classe média,

Sei que a sua luta por respeito ainda não está completa, mas ultimamente tenho notado que os pequenos avanços conquistados tem feito você se esquecer de outros problemas que ainda precisam ser enfrentados, como a transfobia, o machismo, o racismo e a marginalização de pessoas pobres. Talvez você esteja sendo colocado em uma lógica de mercado, na qual as boates, músicas pop, sites de notícias, blogs de humor e páginas de fofoca, tem feito você reproduzir alguns valores meio chatos. Desta forma esta carta tem o intuito de fazer alguns pedidos, para que você repense algumas ideias suas.

1- Pare imediatamente de dizer "ah! não sou racista, só acho que pessoas negras não são bonitas, tenho culpa de não me sentir atraído por negros?" Você está sendo racista sim! os padrões de beleza norte americanos e eurocentristas são originados de lógicas extremamente racistas e preconceituosas. Por muito tempo a mídia e as revistas só mostravam pessoas brancas, e agora, justamente quando os negros começaram a conseguir mais representatividade você vem com uma frase desta? faça-me o favor né!

2- Pare de dizer ao seu coleguinha Bi que ele está passando por uma fase e que logo logo vai se assumir gay. Só porque você é gay não quer dizer que todo mundo seja também, a tentativa de uniformizar pessoas somente piora a nossa luta que é por DIVERSIDADE, se flexibilize pra entender que existem sexualidades não-monosexistas, e abra sua mente para essas novas opções.

3- Pare de dizer que "não gosta de afeminados", e por favor pare de chamar seu coleguinha de "passiva, vadia, biscate, bicha, louca, descarada, etc." como forma de desmerecer o adjetivo feminino. As mulheres são incríveis, e as feministas (inclusive héteros) têm ajudado muito na luta LGBT, não queremos perdê-las como parceiras de movimento. Experimente usar elogios femininos para seus amigos, como "ahazadora, maravilhosa, incrível, fantástica, etc.". As mulheres já sofrem muito com o machismo de homens hétero, parem de ser machistas também. Parem de ter medo da figura feminina, se você conhecer caras afeminados, não considere isso como algo ruim, mas sim como algo revolucionário.

4- Pare de dizer que "eca! tenho nojo de vagina". As lésbicas não ficam constantemente dizendo que tem nojo de pênis, essa necessidade de rebaixar a genitália feminina é muito machista, e ficar repetindo isso o tempo todo vai começar a oprimir as mulheres. Ninguém tem nojo de genitália nenhuma ok? somos todas e todos lindos e maravilhosos.

5- Nunca mais diga que "ser gay tudo bem, mas querer ser mulher já é demais" isso é transfobia amigo! existem pessoas trans que foram designadas como gênero masculino mas se sentem mulheres por dentro, e a libertação dessas pessoas por meio dos seus corpos se modificando ao feminino é algo revolucionário e libertador, temos que apoiar isto! as trans permaneceram no ativismo LGBT mesmo quando ele respondia somente pelo nome de "ativismo gay", nada mais justo e democrático que ajudarmos elas a levantar as suas pautas e ganhar voz. (usei as trans, mas os trans também devem ser apoiados)

6- Pare de dizer que "A Madonna está velha, a Demi Lovato está gorda, a Taylor Swift é uma rodada, etc." As mulheres vivem sendo pressionadas pra serem perfeitas, e quando você fica impondo padrões de beleza está sendo machista e mega capitalista. A Madonna está feliz, a Demi está no peso que ela deveria estar, e a Taylor Swift não deve ser julgada independente do número de caras que ela namorar ok?

7- Não repita mais que "não vou na balada tal porque só tem gente com cara de pobre" Não existe e NUNCA existiu uma "cara de pobre", não existem "coisas de pobre, hábitos de pobre, e etc.", nós não fomos feitos unicamente para consumir, muito menos para sermos submetidos à sistemas de classe. Ninguém é melhor que ninguém pelo dinheiro que possui, e a nossa militância deve ser primeiramente por liberdade e igualdade.

Por fim, a todos os membros do grupo LGBT, vamos sempre pensar no próximo, defender o direito de TODOS e a liberdade de DIVERSIDADE.

Vamos todos fazer revolução JUNTOS, se não ninguém vai fazer revolução coisa nenhuma rsrsrsrsrsrsrs brincs.
Beijas! fiquem com a Deusa 
 
(Fonte: G-20)

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Impacto


A contagem é deprimente, mas necessária. Lá se vai outro dia, menos um, mais um.
Dias desperdiçados pela insatisfação de viver, em busca de um propósito, uma razão que faça sentido. Onde ficaram os dias luta, os dias de glória?
Onde está o brilho dos meus olhos?
Onde ficaram os sorrisos mais sinceros que almejavam a mudança, o novo, o incrível?
Fácil culpar alguém, algum lugar, algum fator propulsor de decadência, entretanto o que torna tudo isso difícil é encontrar um mero motivo ao qual se agarrar e não desistir. Tão mais fácil absorver a culpa de todos os dias, dos desastre da vida, da falta de sorte, das consequências tão temidas. Dizem os especialistas que a depressão é, em resumo, uma sensação de luto por alguma perda. Um momento que deveria ser passageiro e tornou-se constante. A depressão é perda, a introspecção é busca.
Buscar algo dentro de si que faça sentido em luta ao mundo que tenta te derrubar. E, caído, busco uma maneira de não namorar o arrepio. Sabe porquê eles colocam grades em parapeito? Não para que uma pessoa desavisada caia por um acaso, mas porque o corpo pode ser sequestrado pelo ímpeto da gravidade. Alguns chamam de vertigem, outros de desespero. Eu prefiro chamar de arrepio.
Cada pessoa possui seu próprio sentimento que delimita o corpo da água e margeia a sensação de trespassar a realidade. Pode ser um pouco abstrato, mas cada um de nós já teve o frio na barriga de ver um desastre prestes ao acontecimento, só que ao contrário de sentir os órgãos se revirando ao caos, você sentirá uma sensação diferente, curiosa, e apaixonante.
Alguns fazem disso um trabalho, essas tais coisas radicais, dizem que viciam. Chamam de adrenalina. Chamam de desafiar a morte. Eu chamo de arrepio. E o meu momento mais interessante disso não é apenas namorar a avenida e imaginar os carros em alta velocidade, indo cada vez mais veloz, mais veloz, mais e mais veloz, tão veloz que apenas os luminosos faróis costuram o caminho, fico no estrangular da sensação, em meio-fio, sentido a velocidade dos carros percorrerem meu corpo, me convidando a participar. Minha mente corrói os céus num mantra de libertação a cada passada de caminhão, ônibus ou carro qualquer.
O impulso é sempre o mesmo, e quanto mais os dias passam, quanto mais sufocante são os dias, quanto mais diálogos de ódio e mal-querer é proferido em sentença fustigante, quanto mais salubre e ermo é o sonho que se desconstrói, tudo isso perfura os sentidos da sanidade cruel, deixando apenas na rodovia a única forma de prazer quase que em microsegundo, um breve e singular momento em que os gritos de socorro serão ouvidos, tornar-se-ão pedidos de desculpas, o gutural se fará presente em forma de conforto.
Água deve vir, diz a previsão.
Será quase que um susto, mas passará tão rápida quanto a vida nos olhos quando, finalmente, chegar o momento que minha alma ficará liberta. Quando amanhã será apenas mais um dia, será o último dia, não mais outro dia qualquer. Eu farei tudo do mesmo jeito, ouvirei as mesmas culpas não minhas, tomarei pra si toda dor que nunca tive oportunidade em ter, serei tão amável que ousarão questionar quem sou, de onde vim, pra onde vou. Será um dia como outro qualquer, o dia de são ninguém. Mas amanhã, quando eu for embora, não levarei meus livros, meus jogos, minhas cartas, nem mesmo minhas roupas. Estarei finalmente livre. Estarei finalmente indo embora.
Enquanto namoro os sonhos de liberdade no trespassar dos carros em vento cortante, vejo as luzes da cidade se ascender, vejo em minha mão a estrela da ordem e do caos cerrarem a vida e no próximo passo, como de súbito, eu finalmente estarei livre. E por um breve momento eu serei completo, serei eterno. Eu finalmente sorrirei para você e sussurrarei te desejando o teu maior sonho em concreto.
Serei livre.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A minha fazenda é melhor que a sua vida.


       O facebook é ainda pior que o orkut porque está na palma da mão. Antes a informação social era cultuada apenas para quem tinha o acesso periódico à internet, mas hoje qualquer pessoa pode fazê-lo, e tudo isso de modo opcional de anonimato. 
       Quanto mais o tempo passa, mais acredito que a finalidade social de uma tal rede social chegou ao fim, ficou escancarado que as pessoas não têm limites, tampouco bom senso para o que fazem no mundo virtual. A cretinização jogada ao léu é tamanha que avacalha qualquer informação, e de logo as mesmas pessoas disseminam sem ter o mínimo de interesse em saber se aquilo é real ou apenas boato, mito.
       Por esse e outros motivos, me reservo ao acompanhamento de contáveis pessoas que, elas sim, espalham informações úteis e até as bobagens são de cunho socialmente significante. Uma diversão é para divertir e não humilhar, uma piada é para rir e não apenas criticar, um jogo é para entreter e não irritar e o seu comentário sobre tudo é para engolir ou vomitar. Sinceramente eu prefiro engolir calado do que questionar certos vazios intelectuais.
       Sou bem feliz utilizando minha ferramente social para poucos fins e até mesmo desinteressantes para a massa, já que filmes, músicas e livros é modinha, do contrário ao mundo político e vigoroso debate entre homossexuais e heterossexuais e suas vidas privadas. Chega a ser engraçado conhecer essas pessoas no mundo real, é praticamente um abismo entre o que elas vivem (como agem, o que comem e onde moram) e o mundo virtual como o Facebook. É notoriamente um Second Life.
       Me pergunto ainda porque as pessoas dizem que o homem não evolui, já que tudo o que ocorreu de 10 anos pra cá foi uma mega transformação, uma das maiores catalizações sociais da era pós moderna, e tudo isso se joga fora ao ver o que se é transmitido ao mundo. É crime, é falso testemunho, é teoria da conspiração das mais bizarras linhas de pensamento, são cruzadas virtuais, perseguições machistas/feministas/transgênero, politicagem sem fundamentações históricas, sensacionalismo exagerado tomado como verdade absoluta... tantas coisas que fogem do caráter normal da humanidade que chega a ser caótico seguir uma linha de tempo positiva.
       O Brasil e o mundo tem os seus problemas, as cidades, bairros e famílias, e o que torna tudo isso mínimo é a sua capacidade de alterar o humor da coisa. Em vez de imagens de catástrofes e mortes, tenta exibir captação de recursos e ajuda, entre discurso de ódio e "gênerofobia", discurse sobre a igualdade-fraternidade-liberdade, seja você a luz dessa escuridão em que o mundo se deixa engolir. Se você compartilha a imagenzinha de Jesus pra provar que tem fé, então tenha, seja cristão e ajude sem querer nada em troca, faça algo real e não virtual. Acabe com o pragmatismo de que tudo é um curtir, porque se você não for trabalhar o salário não será compartilhado pra sua conta, e é justamente aí que você sabe onde o mundo virtual acaba. Quando o bolso dói. E o dinheiro e que o produz continuam se instruindo nas maiores e mais intensificadas formas de se obter mais lucros, mais e mais, sem parar, enquanto isso você fica na miudez de vida serena e interiorana de se preocupar com a vida dos outros e não com a sua.
       FarmVille2 é o que mantem na onda da rede social, se não fosse isso eu teria apenas um holograma que as pessoas iriam interagir e não obter resposta. Sinto falta do MSN por isso, porque era apenas quem nós realmente queríamos que estivessem lá, e não essa polidez social de ter a figurinha do vizinho, do professor, do superior, ou daquele que pode me fazer um favor um dia. Ninguém é obrigado a ser amigo de ninguém, ao mesmo que as pessoas são melindrosas e hipócritas ao ponto de sempre se fazerem de vítimas de si em vez de encarar as próprias escolhas. Uma bipolaridade crítica mais rápida que miojo.
       Então, daí surge uma tag para combater algumas dessas barbaridades diárias. E aqui vai a primeira dica de como não ser um babaca virtual, como não ter uma Second Life: Leia!

Leia bastante.
Leia direto da fonte.
Leia várias fontes, autores e críticas.
Leia sua própria crítica e seus fundamentos.
Leia o seu próprio exemplo.
Leia o seu meio, leia a sua vida.
Leia os termos da lei, do regulamento, da circular.

Ler é encontrar nos símbolos alguma forma de aprendizado. 

Aprenda, se eduque, se transforme.

Quando isso não for mais suficiente, aí você estará pronto para começar a falar.
       
      Mas ainda assim não será mais um debate, porque você vai aprender que não há apenas um lado correto, não há um mero ponto de vista, porque existe um emaranhado de situações, pessoas e sociabilidade ética envolvida que chega a ser sufocante ao mero olhar, mas que dá pra saber exatamente onde existe falha, onde existe êxito. Serão conversas sadias, ideologias mescladas que começaram a emergir do âmago do teu ser. Você evoluirá como pessoa, se tornando então um ser humano e não será mais a massa.
       A minha fazenda é melhor que a sua vida, apenas por não me interessar o que você come, onde você vai todos os fins de semana, ou o quanto de álcool você aguenta tomar. Não me interessa sua ladainhas piegas quando você transa mais que uma profissional do sexo, ou quando você vai tomar soro na veia para não ir trabalhar... São tantos exemplos de desnecessidades postadas a cada segundo que me pergunto se a vida privada é algo que alguém compra, ou se alguém faz questão de comprar. Não sei ao certo. Entretanto, sei que tem retorno, e terá retorno, pelo menos de algumas das discussões, porque alguém tem que ser o guia, alguém tem que mostrar a luz. Enquanto isso, ficarei cuidando da minha fazenda, crescendo e aprendendo, me divertindo com esta tal rede social.


sábado, 28 de fevereiro de 2015

É preciso ir embora.






Ano passado, na festa de despedida de uma amiga, ouvia calada e com atenção seu dolorido discurso sobre o quanto ela se preocupava com a decisão de ir embora. Dizia se preocupar com a saudade antecipada da família, com a tristeza em deixar um amor pra trás e com a dor de se afastar dos amigos. Ela iria embora para Londres com tantas incertezas sobre cá e lá, que o intercambio mais parecia uma sentença ao exílio.
Dentre dicas e conselhos reconfortantes de outras amigas, lembro-me de interromper a discussão de forma mais fria e prática do que gostaria:
“Quando você estiver dentro daquele avião, olhar pra baixo e ver todas estas dúvidas e desculpas do tamanho de formigas, voltamos a falar. E você vai entrar naquele avião, nem que eu mesma te coloque nele.”
Ela engoliu seco e balançou a cabeça afirmativa.

Penso que na época poderia ter adoçado o conselho. Mas fato é que a minha certeza era irredutível, tudo que ela precisava era perspectiva. Olhar a situação de outro ângulo, de cima, e ver seus dilemas e problemas como quem olha o mundo de um avião. Óbvio, eu não tirei essa experiência da cartola. Eu, como ela, já havia sido a garota atormentada pelas dúvidas de partir, deixando tudo pra trás rumo ao desconhecido. Hoje sei que o medo nada mais era do que fruto da minha (nossa) obsessão em medir ações e ser assertiva. E foi só com o tempo e com as chances que me dei que descobri que não há nada mais libertador e esclarecedor do que o bom e velho tiro no escuro.

Hoje a minha amiga não tem mais dúvida. Celebra a vida que ela criou pra ela mesma lá na terra da rainha, onde eu mesma descobri tanto sobre minha própria realeza. Ironicamente – e também assim como eu – ela aprendeu que é preciso (e vai querer) muitas vezes uma certa distancia do ninho. Aprendeu que nem todo amor arrebatador é amor pra vida inteira. Que os amigos, aqueles de verdade, podem até estar longe, mas nunca distantes. Hoje ela chama o antigo exílio de lar, e adora pegar um avião rumo ao desconhecido. Outras, como eu, e como ela, fizeram o mesmo. Todas entenderam que era preciso ir embora.

É preciso ir embora.

Ir embora é importante para que você entenda que você não é tão importante assim,  que a vida segue, com ou sem você por perto. Pessoas nascem, morrem, casam, separam e resolvem os problemas que antes você acreditava só você resolver. É chocante e libertador – ninguém precisa de você pra seguir vivendo. Nem sua mãe, nem seu pai, nem seu ex-patrão, nem sua pegada, nem ninguém. Parece besteira, mas a maioria de nós tem uma noção bem distorcida da importância do próprio umbigo – novidade para quem sofre deste mal: ninguém é insubstituível ou imprescindível. Lide com isso.

É preciso ir embora.

Ir embora é importante para que você veja que você é muito importante sim! Seja por 2 minutos, seja por 2 anos, quem sente sua falta não sente menos ou mais porque você foi embora – apenas sente por mais tempo! O sentimento não muda. Algumas pessoas nunca vão esquecer do seu aniversario, você estando aqui ou na Austrália. Esse papo de “que saudades de você, vamos nos ver uma hora” é politicagem. Quem sente sua falta vai sempre sentir e agir. E não se preocupe, pois o filtro é natural. Vai ter sempre aquele seleto e especial grupo  que vai terminar a frase “Que saudade de você…” com  “por isso tô te mandando esse áudio”;  ou “porque tá tocando a nossa música” ou “então comprei uma passagem” ou ainda “desce agora que tô passando aí”.

Então vá embora. Vá embora do trabalho que te atormenta. Daquela relação que você sabe não vai dar certo. Vá embora “da galera” que está presente quando convém.  Vá embora da casa dos teus pais. Do teu país. Da sala. Vá embora. Por minutos, por anos ou pra vida. Se ausente, nem que seja pra encontrar com você mesmo. Quanto voltar – e se voltar – vai ver as coisas de outra perspectiva, lá de cima do avião.

As desculpas e preocupações sempre vão existir.  Basta você decidir encarar as mesmas como elas realmente são – do tamanho de formigas.

Fonte: antonianodiva.com.br

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Maria Clara Araújo



MEU MANIFESTO PELA IGUALDADE: SOBRE SER TRAVESTI E TER SIDO APROVADA EM UMA UNIVERSIDADE FEDERAL.

Hoje, eu tive minha sobrancelha raspada por minha mãe, emocionada por eu ter sido a primeira pessoa de minha família a ser aprovada na Universidade Federal de Pernambuco. O que pra ela é uma realização pessoal de mãe que, diga-se de passagem, sempre me incentivou a estudar, para mim, uma travesti negra, é uma conquista com imenso valor simbólico.
Desde muito cedo, o âmbito educacional deixou o mais explicito possível suas dificuldades em compreender as particularidades de minha vida: aos 6 anos, desejando ser a Power Range Rosa , aos 13 usando lenços na cabeça, aos 18 implorando pelo meu nome social e, logo, o reconhecimento de minha identidade de gênero. Nenhuma foi atendida. Nenhuma foi levado a sério como algo que eu, enquanto um ser humano, preciso daquilo para me construir e ter minha subjetividade.
Se ontem a professora tirou a boneca de minha mão, hoje o Reitor diz não ter demanda para meu nome social. 

Eu existo! Nós existimos! 

As violências por conta de minha identidade sempre trouxeram retaliações em salas, corredores e banheiros durante toda minha permanência na escola. Lembro-me de, inúmeras vezes, minhas amigas entrando em rodas feitas por rapazes para me bater e tentarem me salvar. ‘’Para com isso! Deixa ela!’’
Não era só comigo, mas fui a única que aguentei. Vi, de pouco em pouco, outras possíveis travestis e transexuais desaparecendo daquele ambiente, porque ele nunca simbolizou um espaço de acolhimento, educação e aprendizagem. Mas sim de opressão, dor e rejeição.
Uma vez encontrei na rua com uma das que estudou comigo. Eu voltava do curso, ela ia se prostituir. ‘’Mulher, o que tu ainda faz em lugares desse?’’, ela me perguntou. Indignada, aliás. Ela me questionava com a testa franzida porque eu insistia em permanecer em um lugar que, cada vez mais, desmarcava que eu não era bem-vinda. Quando fui?
Os banheiros femininos estão com as portas fechadas, o nome nas cadernetas não pode ser alterado e os olhares de escárnio estão por todas as partes. De corredor à sala, de banheiro à secretaria.
‘’O que ela faz aqui?’’, se perguntam diariamente ao me ver andando na luz do dia. Afinal, eu, enquanto travesti, devo ser uma figura noturna. Assim, sedimentando a posição que a sociedade me atribuiu: de sub-humana. E quando falo isso, meus queridos, estou sendo o mais honesta que posso.
Olhe ao seu redor! Quantas travestis e mulheres trans você se depara no seu dia a dia? Quantas estão na sua sala de aula? Quantas te atendem no supermercado? Quantas são suas médicas?
Espere até as 23hrs. Procure a avenida mais próxima. As encontrará. Porque lá, embaixo do poste clareando a rua escura, é onde nós fomos condicionadas a estar por uma sociedade internalizadamente transfóbica.
Quando vi minha aprovação, foi uma alegria por eu ter tido uma conquista, mas para além disso, eu tive a consciência de forma imediata, que dentro de minhas perspectivas de vida, ver uma pessoa como eu em um espaço acadêmico é algo utópico. Até quando será? Até quando minhas irmãs irão ter que ser submetidas a essas condições de vida?
Sem moradia, sem estudo, sem trabalho. Se prostituindo por 20 reais.
Onde está a dignidade?
Não somos iguais. Eu, travesti, não sou igual a você. Eu, travesti, além de ter batalhado por minha entrada, a partir de agora irei batalhar por minha permanência.
Optei por Pedagogia com a esperança de poder ser um diferencial. De finalmente pautar a busca por uma educação que nos liberta e não mais nos acorrente.
A escolha é apenas uma: lutar ou lutar. E eu, Maria Clara Araújo, escolhi ser um símbolo de força.
A revolução será travesti!

Apenas o céu

Foto por @sanamaru O amargo remédio se espreme goela abaixo, a saliva seca e o gosto de rancor perdura por horas. Em vez de fazer dormir ele...