segunda-feira, 27 de abril de 2020

Por onde começar?


Arte de Yun Ling ou apenas @lingy000

Este é o título do primeiro projeto audiovisual que me propus junto ao amigo oculto. Não é algo grande, revelador ou modificador de vidas. É algo simples, íntimo e sincero. E como assunto, joguei uma proposta singular. Perguntei-o sobre o começo de tudo e, por incrível que pareça, ficamos por horas falando e falando sobre as coisas.
Por onde começar? Do início, claro! Mas onde seria esse início? Bem, isso depende bastante.
Se você fala de um texto, por exemplo, você começa do conceito, da origem histórica ou etimológica. Assim, acabamos alcançando alguns contextos e colocamos o leitor em uma situação sabida. Para começar a cozinhar, gosto de primeiro lavar os pratos e copos, deixar a pia limpa e pronto para receber a próxima rodada. Com tudo limpo, sinto-me satisfeito para começar uma prato simples, um almoço elaborado ou uma janta conterrânea. Para começar exercícios físicos, começamos com o alongamento. Aquecer o corpo para trilhar os caminhos do estica-e-puxa. Claro que isso também serve para o canto, a dança e o instrumento musical. Aquecimento é válido e necessário quando se põe músculos à prova.
Para começar a ler do nada, indico sempre começar por algo que sabemos que gostamos. Um tema, uma trama, um autor. Do mesmo modo acontece com as maratonas de séries e filmes. Começar um projeto, assim como começar a ler este texto, vem da proposta inicial de querer e quando você percebe, já está quase acabando. Começar às vezes só cabe você parar e fazer. Se dedicar uns minutos para aquela tarefa, sair um pouco das redes sociais e cair em um mundo meio arisco: o mundo real.
Ao começar uma conversa, elogie, ao começar um trabalho, seja grato, ao começar a arrumar a casa, seja música.
Limpo a mesa para começar a digitação prolongada. É um ritual. Faço mapas mentais para organizar os assuntos por tema. É uma mania. Traço um cronograma para trilhar as matérias desse semestre, é hábito. Mas, no fim, de todo esse começo, faço o que me prometi a fazer. Não uso de procrastinação ativa para desviar do objetivo. Fazer faxina no quarto para estar tudo limpo e, assim, estudar por horas sem se preocupar com o entorno é sensacional. Só que... faxina todo dia e acabar cansada em sequer tocar no livro... bem, sabemos onde isso vai dar. 
Começar não é fácil, por isso, não se cobre tanto. Comece, recomece, repita e tente mais uma vez. Com o tempo, lá na frente, você verá que é simples e até mesmo prazeroso. Dá uma lida um pouco por dia, converse sobre as coisas, assista aquele filme que tu tanto queria, mas não deixe de começar a viver as coisas do jeito que deve ser. 
Podemos começar todos os dias, mas o final é sempre o mesmo.


quarta-feira, 22 de abril de 2020

Convite


Art by @chantal_horei

O sol aquece as calçadas, as copas das árvores e avoaça sobre os carros. É um novo dia, um breve até. São poucas horas da manhã e o mundo já acontece lá fora. Vejo as pessoas indo e vindo daqui da sacada, meu café ainda está acordando para esta nova realidade. O vapor soturno abriga meus nervos. O sol aquece minha pele, o vento frio me treme, e assim é mais um dia de outono. Avisto os carros saindo, crianças sorrindo e muita agitação para uma segunda-feira. Se não fosse por um detalhe até que eu pensaria que é mais uma segunda-feira.
Estamos em quarentena, já é meu trigésimo terceiro dia de abrigo. Sem sair para nada. A alimentação é pedida todas as quintas-feiras, por telefone, passo a lista de compras e alguém do supermercado garante a qualidade e a entrega. Os produtos é meio que por sorte, ora uma promoção ou um preço comum, ora um produto muito caro que não tiver oportunidade de troca. Com a dispensa abastecida gradualmente me mantenho. Escolhi as quintas-feiras por ser um dia bom para música. Assim que as compras chegam, começa todo o processo de higienização do processo. Primeiro a forma de receber, depois tirar as compras dos sacos e caixas, passar água e sabão em tudo, embalagens plásticas esfregadas, embalagens de papelão trocadas, frutas e verduras no hipoclorito. O processo é lento e bem cuidado. Em tempos de quarentena, qualquer movimento brusco é um deslize para contaminação. 
O estoque de alimentos e produtos de limpeza deixa tudo com cheiro de limpo. O que tem lugar em potes e vidros vão para os potes e vidros, o que é da geladeira, na geladeira e o que é para fim apenas um banho bem tomado. Esterilizado. É assim que vejo as todas as coisas que passam pelo portal doméstico. As plantas tomam sol na varanda como se não soubessem o que se passa, mas já contei tudo o que sabia. São todas minhas amigas. Me ouvem, me cantam e ficam no meu silêncio matinal, assistindo o dia dos outros ignorarem uma tragédia natural. 
Aquecer o corpo com goles de café preto ou com o sol que tenta ganhar do frio da estação é tão gostosinho que você deveria tentar qualquer dia desses. Parece que a solidão que derroca da quarentena não é tão fustigante como muita gente diz. Aprender a se gostar e pensar na vida te torna sagaz. Não há necessidade de contato, de demonstração de poder, tampouco menção à ostentação. Estar em quarentena sozinho e ver o mundo abrir mão da visão da ciência é, como diria Maquiavel, tentador.
Existe vida na quarenta, assim como sensações e sentimentos. Tudo é multiplicado por mil quando se fala de si. É muita falta, é muita sobra, é muito tempo para poder se equilibrar. Saber que sou suficiente é satisfatório. Acreditar que serei o mesmo daqui ao pós quarentena é, deliberadamente, ilusório. Não quero que essa fase seja apagada da memória das coisas, não acho justo com todo mundo que já se foi, não acho justo com todo mundo que ainda vai, nem com quem fica assistindo isso sem poder fazer nada. E neste nada maroto que imploramos por acontecer é permanecer em casa, o lar seguro de tudo e todos. Sem festas particulares, sem jantares, sem visita no final de semana, sem amores casuais nem humilhações sazonais. Se estar no quadrado continuar evitando o alastre da morte, continuarei aqui na sacada, café na mão, frio na pele, Low Hum aos céus e a reza ao infinito. Vem comigo, mas fique em casa.



segunda-feira, 20 de abril de 2020

Convide


art by @thuta_vares


Se os artistas sempre preferiram fazer alusão ao impossível, agora mais que nunca. Em tempos de quarentena e isolamento social, a arte prevalece como constante companheira. É do ramo das ciências humanas que vem os atores, cantores, pintores e demais profissionais que reforçam que este seguimento é muito mais que apenas cultura, é a perpetuação das ações do mundo como um todo. 
Com o isolamento e alguns toques de recolher, o mundo se vê em consumo maciço de internete, tevê e música. Sim, se você ficar nos créditos ao final do filme ou da série, até mesmo um programa da tevê aberta, você verá as pessoas diretamente ligadas aquilo. 
Num program de tevê, como uma novela, por exemplo, você pode pensar apenas nos atores em sim, mas tem um corpo de direção, montagem, figurino, som, edição, executivos que arrecadam dinheiro pra produção e tantas outras coisas diretamente ligadas. Ou seja, mesmo que seja uma série de tevê que uma pessoa fica em monologo suspendendo 30 minutos por episódio, inda assim você terá pelo menos umas cinquenta pessoas por trás. No youtube não seria diferente. Existem canais e canais com o mais diverso conteúdo divulgado para o mundo todo e equipes que só trabalham com os bastidores do processo.
As ciências humanas são inúteis ao ponto de: se não existissem, você não teria seu programa favorito, sua saga seja ela Harry Potter, Game of Thrones, Senhor dos Anéis ou mesmo o entre Star Wars e Star Trek não existiriam. Atente que falo de modo amplo e contundente que a ciência humana, quando vazada na arte te devora o tempo inteiro e você finge que ela não é importante e deixa os outros quererem aboli-las sem pensar.
Em pesquisa de simples conceito a famosa página wiki nos trás uma dicotomia entre ciências humanas e ciências sociais, mostrando o que é social (como psicologia e sociologia) e o que é humano (como letras e filosofia). O mais interessante é que o ensino de filosofia, história, dança, música e afins são alvos da extrema direita nacional. A história como ciência fica entre as duas e cada nacionalidade vai defini-la a seu critério. 
De acordo com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, ou para os íntimos apenas CAPES, as ciências humanas englobam as seguintes linhas de conhecimento:

1) Filosofia;
2) Sociologia;
3) Antropologia;
4) Arqueologia;
5) História;
6) Geografia;
7) Psicologia;
8) Educação;
9) Ciência Política;
10) Teologia.

Dentro destes dez itens existem inúmeros subitens que encaminhas as linhas das ciências de cordo com sua própria estrutura metodológica científica. Mas o que isso quer dizer? É simples: se a CAPES, a responsável pela estrutura da árvore do conhecimento, fizer a exclusão da essencialidade das ciências humanas dos currículos pedagógicos, tudo vira um caos. A ciência humana em conceito não tem arte, não tem dança, canto ou teatro. Se retirar das universidades a Educação, por exemplo, acabam os cursos de licenciatura e a própria pedagogia por não terem mais uma estrutura que fundamentem as teorias e práticas do ensino-aprendizagem. Como formar professores sem esse galho da árvore? Outra coisa, retirar Filosofia e Sociologia não farão as pessoas parar o pensamento, o questionamento, as revoltas, manifestações e inquietudes que são, sabidamente, intrínsecas ao ser humano.


Falar que a extrema direita está errada ao pedir extinção das Ciências Humanas é certo para você?
Você consegue imaginar um mundo sem esses 10 itens sendo ensinados e estudados? 
Em tempos de pandemia e isolamento social tudo pode ser gatilho. Pandemia e isolamento social é fato novo, não se engane. Assisto com muito medo todas as manifestações que o movimento autoritário faz: movimentos contra democracia, gritos contra cultura, banalização do conhecimento científico e todo dia é uma blasfêmia histórica e social diferente. 
Toda essa raiva vem da falta de poder absoluto, toda essa raiva não é nova, toda essa raiva não vai passar assim do nada. A luta contra a ignorância é vital, é através do diálogo ou da porrada. Cada época tem sua arma.
Dizem que quanto mais evoluída a civilização, menos violência. Em que tipo de civilização você está?
Aproveito esta ultima para te dizer que o processo reflexivo é inquietante e divertido. Te mostro que essas questões promovem sabedoria. Vem comigo?



domingo, 12 de abril de 2020

Midnight dinner


art by @pigeoncindy_

A imagem da cidade toma conta do cenário. O caminho é nítido pela cidade noturna. A trilha que acompanha não te energiza. Ela te diminui e te comprime ao máximo que dá. Assim, você cabe no teu próprio vazio, um bolso te molda e você segue pela avenida movimentada. Há tanta gente na rua, as luzes fortes dos letreiros nos cegam por reflexo. 
A faixa de pedestres é inundada pelo cardume de gente. Indo e vindo eles vão, eles vêm. A trilha não aprimora a leveza, ela sutilmente te deixa entorpecido e se deseja triste. A tristeza consiste numa tendência quase que automática. A noite é solitária, as pessoas não se completam mais, elas apenas se conectam. A tristeza que vos falo não é deprimente, enfadonha ou lacrimeja uma nota sequer. A tristeza que acalenta é aquela soturna, esta que nos acolhe antes de cair no sono. 
Chamo de tristeza porque é o mais próximo do conceito, poderia ser uma melancolia serena, uma solicitude sagaz, ou alguma dessas combinações não tradicionais.
Como algo que me afetou tão profundamente poderia ser tão fungível naquela hora. E foi isso que pensei ao sobrevoar as ruas de Tokyo. Respiro fundo e a cicatriz não tem marca, sobrou dela um nome que desejei guardar por mágoa. Mágoa esta que cultivo em troca de um livro insistente.
A minha coleção foi tomada para si com bravura e boca cheia. As palavras fartas e incisivas me cortaram o ultimo fio de relação que outrora havia. Era derradeiro o fim já sabido, e prontamente protelei para que não fosse real, mas é. 
A realidade, assim como a verdade, pode tardar a te jorrar os olhos, mas uma hora ou outra te trará lágrimas e ranger de dentes. E pedindo meu jantar da meia-noite me peguei contando meus botões, buscando prazer em memórias que justifiquem um mero sorriso. Não encontro prazer nessas memórias que queimam ardentemente ao som de uma verdade irreal. Uma certeza tão podre e fulgural que rompe qualquer sensação boa que tento fisgar do passado. 
Tokyo me traz essa tristeza pelas ruas, ao ver vitrines com coleções de coisas, tantas coisas. Coisas tantas que nem saberia por onde te falar. Acontece tanta coisa por aqui, queria te contar tudo a toda hora. Vejo as luzes da cidade, os semáforos, ouço as conversas vazadas e os sons das emoções. Nada disso vai ser levado adiante e, como um tesouro só meu, enterro nos travesseiros todas as noites. Deixei em caixas todo meu acervo passado, a que chamei tolamente de tesouro e, como piratas, elas  me conquistaram, me amarraram em promessas, cavaram no tempo e enterraram o meu sonho. No mapa existem vários xis marcando a localização não-precisa: as águas são bem-vindas, o tempo é tentador... bem, umas coisa que aprendi aqui em Shinjuku é que uma hora as coisas vão deixar de te fazer mal e fluirá em calor confortante. Meu jantar está pronto, itadakimasu, comerei vendo mestre satisfeito com minha presença, talvez ele queira saber que meu dia foi bom, inda que meu aspecto seja cabisbaixo. 
Só mais uma refeição delicada que me faz pensar nas coisas. Pensar no que realmente vale a pena. Provavelmente, tudo o que deixei para trás não signifique tanto assim. Afinal de contas, eu só sou uma conexão, um ícone que em alguns cenário vai te lembrar de épocas passadas. Ao sumir do virtual nada me sobrará e você terá apenas a promessa moribunda que nunca passou de palavras ao vento. E carregado por eles irei mais uma vez, sair pela cidade ao som de uma morna sensação de dever cumprido.  Jaa, mata ne!


segunda-feira, 9 de março de 2020

Pequenas Grandes Conquistas

Arte de Yaoyao Ma Van As

A pergunta era simples: Qual a grande conquista que você só conseguiu quando adulto? As pessoas respondiam coisas diferentes umas das outras. Algumas sobre materialidade como ter um carro ou viagem feita para Europa, outras sobre coisas mais simples como ter um pet, um jantar num lugar desejado e seguia o fio. Para mim, uma coisa que eu só vim conquistar na vida adulta foi algo perturbador. Eu sempre tive um desejo peculiar de poder dormir vendo o céu. Sei que para sua realidade isso seja algo um tanto idiota, mas para minha infância e adolescência, tudo o que eu fazia era imaginar a imensidão sideral. Podia desmanchar o teto rapidamente, imaginar as constelações, alguma nuvens aqui e ali, raios e trovões.
Ver o céu ao dormir e ao acordar era um privilégio tão simples. E eu não tinha. A casa que habitei por décadas tinha muros altos e janelas para o concreto. Ver o céu era uma atividade não-permitida. Quando criança, para não ficar doente no sereno, o quintal que era o lar das minhas atividades solitárias não era permitido ficar depois das dez da noite. Trancas e cadeados nos segurava com precisão. Quando adolescente, o quintal fora engolido por uma reforma tão esperançosa que, por um momento, acreditei que fosse findar em algo tão esperado: um quarto só meu, sem precisar disputar silêncio ou me preocupar com o sumiço das minhas coisas. Acabou que o meu espaço sideral sufocou-e em ripas de solidão. Para ter uma visão das nuvens, eu teria que pleitear entre vigas de concreto. Algo tão simples e tão profundo. Ter a capacidade de acordar vendo o céu claro, ou ver a chuva cair, ou ver os últimos raios de sol.   
Quando já adulto, ainda na transição entre jovem e não tanto, consegui morar num apartamento perfeito. Todos o cômodos tinham janelas que davam para o infinito. Eu amava ficar olhando pela janela, ver o sol do fim de tarde criando murais na parede, correr para fechar as janelas quando da chuva... amava poder ter esse privilégio tão tolo. Lembro das muitas vezes que sorri com aquilo, que chorei com aquilo, que me senti tão satisfeito em ter aquele momento de vislumbre. Fogos de artifício já riscaram os céus e eu pude ver, também vi pássaros voando, pipas planando, aviões fingindo não se importar. 
Hoje é noite de lua. Lembro dessa sensação de orgulho ao poder ver a lua de um lugar confortável, seja da sala, do quarto ou banheiro. A inquietação única e valente que se dá quando percebo que o céu está bem ali. A estrelas me acompanham até a ultima gota de prontidão, a árvore balança tentando me hipnotizar, e assim é meu dormir hoje. Ao acordar não é diferente. Os pássaros cantam e voam, vejo todos afoitos pelo novo dia, prevejo chuva pelo serrilhar das nuvens, elas marcham enquanto me acordo. Estou olhando para cima, é o esforço que faço para admirar meu quadro dos desejos.
Se eu puder continuar com essa possibilidade de ver o céu assim tão simples, farei sem duvidar. Admiramos a passagem da lua cheia em um conforto tão incrível, sem sereno, com um café quente e música calma. É essa minha conquista mais admirável que tenho hoje. Ver o céu através de uma janela, sonhar que tudo está bem ou está ficando, esquecer dos problemas ou dores e ser uma estrela na imensidão sideral.

Apenas o céu

Foto por @sanamaru O amargo remédio se espreme goela abaixo, a saliva seca e o gosto de rancor perdura por horas. Em vez de fazer dormir ele...