quarta-feira, 22 de julho de 2015

Na manhã do primeiro dia.


Acordando como um animal, cacei com os olhos por algo irregular. As janelas recebiam o calor do sol, as cortinas dançavam ao convite do vento e eu... bem, eu começava a entender que a dor de cabeça era apenas parte de tudo, não só consequência de vinho barato. Levanto com o gosto amargo na boca, gosto de ferro. A cama revirada não seria a melhor descrição para o furacão que deve ter passado por aqui ontem, os lençóis parte no chão, parte na cama, tem livro jogado, papel de parede rasgado, e a minha cabeça apenas dói, pulsando para que eu não tente lembrar de ontem. Aspirina, é isso que ela quer que eu lembre. O pisar no chão é modesto, sinto um calor diferente, como se o carpete abraçasse meus pés, tão macio que dá vontade de se esfregar todo nele.
O pijama já era, só tento vestir alguma coisa porque me sinto vulnerável quando estou pelado. Esse gosto já está me dando enjoo. Acho uma calça de moleton debruçada na cadeira da escrivaninha. Sigo ao banheiro em busca de aspirira, não sei bem onde guardo remédio, se é que tem algum aqui em casa. Bom, pelo menos no banheiro o furacão não passou, está tudo limpo e em ordem, as toalhas nos devidos lugares, o espelho limpo, a pia também, o vaso nem se fala, aproveito ele pra não deixar tudo tão limpo, afinal de contas urinar é quase que ritual sagrado depois de levantar da cama. Esse cheiro... Não é minha urina que está cheirando a perfume, e também não sou eu. Aqui não, esse lado também não, minha calça também não é, cheirei ela antes de vestir só para saber se estava limpa. Abro o box do chuveiro farejando. A porta tem cheiro de nada, as paredes também, levanto o pescoço para tentar cheirar o chuveiro, mas não é dali. Me ajoelho para checar o ralo. Esse cheiro... 
Terra. Cheiro de terra, não de perfume. Não existe perfume de terra, não é? Estranho demais isso. O chão está seco, não úmido ou molhado. Seco. O chuveiro está frio, não lembro de ter tomado banho quando cheguei, se é que essa dor me deixa lembrar alguma coisa. Tiro as calças ali mesmo, jogo para fora e ligo o chuveiro para acabar com a sensação de sujo. 
A água é morna, achei que seria gelada. Esfrego meu corpo todo só com as mãos mesmo, deixando a camada de suor escorrer pelo ralo. Sinto como se o mundo escorresse pelas minhas costas, o peso todo vai sendo levado, e o cansaço vai dando lugar ao novo fôlego. Me apoio para molhar apenas a cabeça, em um enxágue demorado, massageando minha cabeça parece que a dor também está indo embora. O que foi isso?
Desligo o chuveiro bruscamente ao ouvi alguém falando. Fico quieto para tentar ouvir novamente. Será que foi lá fora? Será que eu ouvi alguém me chamando? Os pingos do corpo não perturbam minha concentração, e demoradamente abro o box, atento, pego a toalha ali posta, e enrolo no em mim. Continuo com a sensação de que tem um perfume no ar, é doce mas não muito irritante, como se já tivesse ali faz muito tempo, apenas uma marca deixada para fazer presença, seria alguma mulher que eu acabei trazendo para casa? Volto em passos contados ao quarto, procuro algum indício de mulher. Nada. O perfume deve ter impregnado o meu nariz, isso sim.
"Acorde!", ouço novamente, giro para ver mas não tem nada. Acho que estou ficando louco, só pode. Quero a dor de cabeça de volta, ponho a mão nela procurando algum galo, corte, ou sei lá. Muito cedo para ouvir coisas. Meu coração acelera, sinto o sangue correndo pelas veias com violência, algo está acontecendo. Está acontecendo! Começo a ficar ofegante, confuso, tento me segurar em alguma coisa. Não consigo me mexer direito! Não sinto minhas pernas. Essa... essa sensação... mas o quê? 
 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Quem pode fazer literatura, afinal?

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É muito comum, ao se falar de literatura, pensar em um campo de liberdade, lugar frequentado por qualquer um que tenha algo a expressar sobre o mundo e sua experiência nele. Das teorias que afirmam a literatura como um espaço aberto à diversidade àquelas que a prescrevem como remédio para todas as mazelas sociais (da desinformação à ausência de cidadania), podemos acompanhar o processo de idealização de um meio expressivo que é tão contaminado ideologicamente quanto qualquer outro, pelo simples fato de ser construído, avaliado e legitimado em meio a disputas por reconhecimento e poder. Ao contrário do que apregoam os defensores da arte como algo acima e além de suas circunstâncias, o discurso literário não está livre das injunções de seu tempo e tampouco pode prescindir dele – o que não o faz pior nem melhor do que o resto.
Mas é preciso reconhecer que o campo literário brasileiro ainda é extremamente homogêneo. Houve, é claro, uma ampliação de espaços de publicação, seja nas grandes editoras comerciais, seja a partir de pequenas casas editoriais, em edições pagas, blogs, sites etc. Isso não quer dizer que esses espaços sejam valorados da mesma forma. Afinal, publicar um livro – um conjunto de páginas impressas e encadernadas – não transforma ninguém em escritor, ou seja, alguém que está nas livrarias, nas resenhas de jornais e revistas, nas listas dos premiados dos concursos literários, nos programas das disciplinas das universidades e escolas, nas prateleiras das bibliotecas. Basta observar quem são os autores contemplados em vários dos itens citados acima, como são parecidos entre si, como pertencem a uma mesma classe social, quando não têm as mesmas profissões, vivem nas mesmas cidades, tem a mesma cor e, em geral, o mesmo sexo…
Números não esgotam a situação, mas ajudam a indicar algumas de suas características. Em todos os principais prêmios literários brasileiros (Portugal Telecom, Jabuti, Machado de Assis, São Paulo de Literatura, Passo Fundo Zaffari & Bourbon), entre os anos de 2000 e 2014, foram premiados 39 autores homens e apenas três mulheres. Outra pesquisa, mais extensa, mostra que de todos os romances publicados pelas principais editoras brasileiras, em um período de 25 anos (de 1990 a 2014), 71% dos escritores são homens e 96% são brancos. As personagens não são diferentes: 60% são homens, 79% são brancas, 80% pertencem às camadas economicamente privilegiadas – e os percentuais sobem significativamente quando são isolados narradores e protagonistas. É significativo, também, que mais de 60% dos autores vivam no Rio de Janeiro e em São Paulo e que quase todos estejam em profissões que abarcam espaços já privilegiados de produção de discurso: os meios jornalístico e acadêmico.
Por isso, a entrada em cena de autores, ou autoras, que destoam desse perfil causa desconforto quase imediato. A taxista da esquina, o senhor que conserta geladeiras, o cabelereiro do shopping, a faxineira do prédio – são pessoas que certamente têm muitas histórias para contar. No entanto, quem visualizaria seus retratos na orelha de um livro, quem pensaria neles como escritores? A imagem não combina, simplesmente porque não é esse o retrato que estamos acostumados a ver, não é esse o retrato que eles estão acostumados a ver, não é esse o retrato que muitos defensores da Língua e da Literatura (tudo com L maiúsculo, é claro) querem ver. Afinal, nos dizem eles, essas pessoas têm pouca educação formal, pouco domínio da língua portuguesa, pouca experiência de leitura, pouco tempo para se dedicar à escrita.
E, ainda assim, alguns deles escrevem e publicam e tanto insistem que acabam atraindo nossa atenção, porque, como diz o rapper Emicida,“uma frase bonita escrita com a grafia errada continua bonita”. O que não significa que a ideia seja plenamente aceita. Afinal, o domínio da norma culta serve como fator primário de exclusão e há, é claro, quem se beneficie com isso. Aqueles que valorizam a si próprios por saberem usar a norma culta da língua não têm interesse em desvalorizar essa vantagem, conquistada, às vezes, com muito esforço. Não é raro ouvir, em sala de aula ou em eventos acadêmicos, alguém se referindo a Carolina Maria de Jesus, por exemplo, como “escritora semianalfabeta”, como se uma autora capaz de escrever livros com a força e a beleza de Quarto de despejo ou Diário de Bitita fosse ser analfabeta só por escapar, vez ou outra, daquilo que é determinado pelo Vocabulário ortográfico da Academia Brasileira de Letras.

Dá para imaginar o quanto é grande o desejo de escrever para que essas pessoas se submetam a isso – a fazer o que “não lhes cabe”, aquilo para o que “não foram talhadas”. Vivem, assim, o constante desconforto de se querer escritor, ou escritora, em um meio que lhe diz o tempo inteiro que isso é “muita pretensão”. Daí as suas obras serem marcadas, desde que surgem, por uma espécie de tensão, que se evidencia, especialmente, pela necessidade de se contrapor a representações já fixadas na tradição literária e, ao mesmo tempo, de reafirmar a legitimidade de sua própria construção. E isso aparece de diferentes modos. Às vezes, está no interior da própria narrativa: “É preciso conhecer a fome para descrevê-la”, dizia Carolina Maria de Jesus. Às vezes está em prefácios, como os de Ferréz, que defende a importância de deixar de ser um retrato feito pelos outros e assumir de vez a construção da própria imagem. Ou então em manifestos, como o de Sérgio Vaz, que diz que “a arte que liberta não pode vir da mão que escraviza”. E há ainda as apresentações dos livros, as orelhas e os textos da quarta de capa que reforçam isso, ressaltando a legitimidade do lugar de fala do escritor.

Por isso é tão importante a presença de autores e autoras provenientes de diferentes espaços sociais, com diferentes cores, interesses, profissões, desejos, conhecimentos, razões. Autores e autoras que façam barulho, causem dissonâncias, firam as belas letras, desmontem as regras do jogo. Eles, e elas, estão por aí, publicando por conta própria, criando coletivos, apostando na internet e no boca-a-boca para vender seus livros. Alguns até conseguem se projetar em editoras de maior fôlego, a maioria batalha junto de pequenas (algumas já históricas) casas editoriais, mas com circulação muito restrita. Há ainda aqueles que se dão por satisfeitos ao recitar seus poemas em um dos vários saraus literários que se espalham e se fortalecem nas periferias das grandes cidades brasileiras, só “curtindo o barato”. Há até os que já começaram a produzir uma reflexão própria sobre literatura, e certamente têm muito o que dizer. Mas nós, enquanto críticos e enquanto leitores, precisamos ter como alcançá-los, e isso ainda depende, em grande medida, de seu acesso ao campo literário – às editoras e livrarias, às páginas dos jornais e bibliotecas, aos prêmios literários e às traduções, aos programas de disciplinas e aos eventos acadêmicos. Deixá-los falar sozinhos é perder a oportunidade de ampliar nossas referências sobre o mundo.

Por Regina Dalcastagnè, blog do Demodê.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Querido Amigo Gay.



Querido amigo gay branco de classe média,

Sei que a sua luta por respeito ainda não está completa, mas ultimamente tenho notado que os pequenos avanços conquistados tem feito você se esquecer de outros problemas que ainda precisam ser enfrentados, como a transfobia, o machismo, o racismo e a marginalização de pessoas pobres. Talvez você esteja sendo colocado em uma lógica de mercado, na qual as boates, músicas pop, sites de notícias, blogs de humor e páginas de fofoca, tem feito você reproduzir alguns valores meio chatos. Desta forma esta carta tem o intuito de fazer alguns pedidos, para que você repense algumas ideias suas.

1- Pare imediatamente de dizer "ah! não sou racista, só acho que pessoas negras não são bonitas, tenho culpa de não me sentir atraído por negros?" Você está sendo racista sim! os padrões de beleza norte americanos e eurocentristas são originados de lógicas extremamente racistas e preconceituosas. Por muito tempo a mídia e as revistas só mostravam pessoas brancas, e agora, justamente quando os negros começaram a conseguir mais representatividade você vem com uma frase desta? faça-me o favor né!

2- Pare de dizer ao seu coleguinha Bi que ele está passando por uma fase e que logo logo vai se assumir gay. Só porque você é gay não quer dizer que todo mundo seja também, a tentativa de uniformizar pessoas somente piora a nossa luta que é por DIVERSIDADE, se flexibilize pra entender que existem sexualidades não-monosexistas, e abra sua mente para essas novas opções.

3- Pare de dizer que "não gosta de afeminados", e por favor pare de chamar seu coleguinha de "passiva, vadia, biscate, bicha, louca, descarada, etc." como forma de desmerecer o adjetivo feminino. As mulheres são incríveis, e as feministas (inclusive héteros) têm ajudado muito na luta LGBT, não queremos perdê-las como parceiras de movimento. Experimente usar elogios femininos para seus amigos, como "ahazadora, maravilhosa, incrível, fantástica, etc.". As mulheres já sofrem muito com o machismo de homens hétero, parem de ser machistas também. Parem de ter medo da figura feminina, se você conhecer caras afeminados, não considere isso como algo ruim, mas sim como algo revolucionário.

4- Pare de dizer que "eca! tenho nojo de vagina". As lésbicas não ficam constantemente dizendo que tem nojo de pênis, essa necessidade de rebaixar a genitália feminina é muito machista, e ficar repetindo isso o tempo todo vai começar a oprimir as mulheres. Ninguém tem nojo de genitália nenhuma ok? somos todas e todos lindos e maravilhosos.

5- Nunca mais diga que "ser gay tudo bem, mas querer ser mulher já é demais" isso é transfobia amigo! existem pessoas trans que foram designadas como gênero masculino mas se sentem mulheres por dentro, e a libertação dessas pessoas por meio dos seus corpos se modificando ao feminino é algo revolucionário e libertador, temos que apoiar isto! as trans permaneceram no ativismo LGBT mesmo quando ele respondia somente pelo nome de "ativismo gay", nada mais justo e democrático que ajudarmos elas a levantar as suas pautas e ganhar voz. (usei as trans, mas os trans também devem ser apoiados)

6- Pare de dizer que "A Madonna está velha, a Demi Lovato está gorda, a Taylor Swift é uma rodada, etc." As mulheres vivem sendo pressionadas pra serem perfeitas, e quando você fica impondo padrões de beleza está sendo machista e mega capitalista. A Madonna está feliz, a Demi está no peso que ela deveria estar, e a Taylor Swift não deve ser julgada independente do número de caras que ela namorar ok?

7- Não repita mais que "não vou na balada tal porque só tem gente com cara de pobre" Não existe e NUNCA existiu uma "cara de pobre", não existem "coisas de pobre, hábitos de pobre, e etc.", nós não fomos feitos unicamente para consumir, muito menos para sermos submetidos à sistemas de classe. Ninguém é melhor que ninguém pelo dinheiro que possui, e a nossa militância deve ser primeiramente por liberdade e igualdade.

Por fim, a todos os membros do grupo LGBT, vamos sempre pensar no próximo, defender o direito de TODOS e a liberdade de DIVERSIDADE.

Vamos todos fazer revolução JUNTOS, se não ninguém vai fazer revolução coisa nenhuma rsrsrsrsrsrsrs brincs.
Beijas! fiquem com a Deusa 
 
(Fonte: G-20)

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Impacto


A contagem é deprimente, mas necessária. Lá se vai outro dia, menos um, mais um.
Dias desperdiçados pela insatisfação de viver, em busca de um propósito, uma razão que faça sentido. Onde ficaram os dias luta, os dias de glória?
Onde está o brilho dos meus olhos?
Onde ficaram os sorrisos mais sinceros que almejavam a mudança, o novo, o incrível?
Fácil culpar alguém, algum lugar, algum fator propulsor de decadência, entretanto o que torna tudo isso difícil é encontrar um mero motivo ao qual se agarrar e não desistir. Tão mais fácil absorver a culpa de todos os dias, dos desastre da vida, da falta de sorte, das consequências tão temidas. Dizem os especialistas que a depressão é, em resumo, uma sensação de luto por alguma perda. Um momento que deveria ser passageiro e tornou-se constante. A depressão é perda, a introspecção é busca.
Buscar algo dentro de si que faça sentido em luta ao mundo que tenta te derrubar. E, caído, busco uma maneira de não namorar o arrepio. Sabe porquê eles colocam grades em parapeito? Não para que uma pessoa desavisada caia por um acaso, mas porque o corpo pode ser sequestrado pelo ímpeto da gravidade. Alguns chamam de vertigem, outros de desespero. Eu prefiro chamar de arrepio.
Cada pessoa possui seu próprio sentimento que delimita o corpo da água e margeia a sensação de trespassar a realidade. Pode ser um pouco abstrato, mas cada um de nós já teve o frio na barriga de ver um desastre prestes ao acontecimento, só que ao contrário de sentir os órgãos se revirando ao caos, você sentirá uma sensação diferente, curiosa, e apaixonante.
Alguns fazem disso um trabalho, essas tais coisas radicais, dizem que viciam. Chamam de adrenalina. Chamam de desafiar a morte. Eu chamo de arrepio. E o meu momento mais interessante disso não é apenas namorar a avenida e imaginar os carros em alta velocidade, indo cada vez mais veloz, mais veloz, mais e mais veloz, tão veloz que apenas os luminosos faróis costuram o caminho, fico no estrangular da sensação, em meio-fio, sentido a velocidade dos carros percorrerem meu corpo, me convidando a participar. Minha mente corrói os céus num mantra de libertação a cada passada de caminhão, ônibus ou carro qualquer.
O impulso é sempre o mesmo, e quanto mais os dias passam, quanto mais sufocante são os dias, quanto mais diálogos de ódio e mal-querer é proferido em sentença fustigante, quanto mais salubre e ermo é o sonho que se desconstrói, tudo isso perfura os sentidos da sanidade cruel, deixando apenas na rodovia a única forma de prazer quase que em microsegundo, um breve e singular momento em que os gritos de socorro serão ouvidos, tornar-se-ão pedidos de desculpas, o gutural se fará presente em forma de conforto.
Água deve vir, diz a previsão.
Será quase que um susto, mas passará tão rápida quanto a vida nos olhos quando, finalmente, chegar o momento que minha alma ficará liberta. Quando amanhã será apenas mais um dia, será o último dia, não mais outro dia qualquer. Eu farei tudo do mesmo jeito, ouvirei as mesmas culpas não minhas, tomarei pra si toda dor que nunca tive oportunidade em ter, serei tão amável que ousarão questionar quem sou, de onde vim, pra onde vou. Será um dia como outro qualquer, o dia de são ninguém. Mas amanhã, quando eu for embora, não levarei meus livros, meus jogos, minhas cartas, nem mesmo minhas roupas. Estarei finalmente livre. Estarei finalmente indo embora.
Enquanto namoro os sonhos de liberdade no trespassar dos carros em vento cortante, vejo as luzes da cidade se ascender, vejo em minha mão a estrela da ordem e do caos cerrarem a vida e no próximo passo, como de súbito, eu finalmente estarei livre. E por um breve momento eu serei completo, serei eterno. Eu finalmente sorrirei para você e sussurrarei te desejando o teu maior sonho em concreto.
Serei livre.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A minha fazenda é melhor que a sua vida.


       O facebook é ainda pior que o orkut porque está na palma da mão. Antes a informação social era cultuada apenas para quem tinha o acesso periódico à internet, mas hoje qualquer pessoa pode fazê-lo, e tudo isso de modo opcional de anonimato. 
       Quanto mais o tempo passa, mais acredito que a finalidade social de uma tal rede social chegou ao fim, ficou escancarado que as pessoas não têm limites, tampouco bom senso para o que fazem no mundo virtual. A cretinização jogada ao léu é tamanha que avacalha qualquer informação, e de logo as mesmas pessoas disseminam sem ter o mínimo de interesse em saber se aquilo é real ou apenas boato, mito.
       Por esse e outros motivos, me reservo ao acompanhamento de contáveis pessoas que, elas sim, espalham informações úteis e até as bobagens são de cunho socialmente significante. Uma diversão é para divertir e não humilhar, uma piada é para rir e não apenas criticar, um jogo é para entreter e não irritar e o seu comentário sobre tudo é para engolir ou vomitar. Sinceramente eu prefiro engolir calado do que questionar certos vazios intelectuais.
       Sou bem feliz utilizando minha ferramente social para poucos fins e até mesmo desinteressantes para a massa, já que filmes, músicas e livros é modinha, do contrário ao mundo político e vigoroso debate entre homossexuais e heterossexuais e suas vidas privadas. Chega a ser engraçado conhecer essas pessoas no mundo real, é praticamente um abismo entre o que elas vivem (como agem, o que comem e onde moram) e o mundo virtual como o Facebook. É notoriamente um Second Life.
       Me pergunto ainda porque as pessoas dizem que o homem não evolui, já que tudo o que ocorreu de 10 anos pra cá foi uma mega transformação, uma das maiores catalizações sociais da era pós moderna, e tudo isso se joga fora ao ver o que se é transmitido ao mundo. É crime, é falso testemunho, é teoria da conspiração das mais bizarras linhas de pensamento, são cruzadas virtuais, perseguições machistas/feministas/transgênero, politicagem sem fundamentações históricas, sensacionalismo exagerado tomado como verdade absoluta... tantas coisas que fogem do caráter normal da humanidade que chega a ser caótico seguir uma linha de tempo positiva.
       O Brasil e o mundo tem os seus problemas, as cidades, bairros e famílias, e o que torna tudo isso mínimo é a sua capacidade de alterar o humor da coisa. Em vez de imagens de catástrofes e mortes, tenta exibir captação de recursos e ajuda, entre discurso de ódio e "gênerofobia", discurse sobre a igualdade-fraternidade-liberdade, seja você a luz dessa escuridão em que o mundo se deixa engolir. Se você compartilha a imagenzinha de Jesus pra provar que tem fé, então tenha, seja cristão e ajude sem querer nada em troca, faça algo real e não virtual. Acabe com o pragmatismo de que tudo é um curtir, porque se você não for trabalhar o salário não será compartilhado pra sua conta, e é justamente aí que você sabe onde o mundo virtual acaba. Quando o bolso dói. E o dinheiro e que o produz continuam se instruindo nas maiores e mais intensificadas formas de se obter mais lucros, mais e mais, sem parar, enquanto isso você fica na miudez de vida serena e interiorana de se preocupar com a vida dos outros e não com a sua.
       FarmVille2 é o que mantem na onda da rede social, se não fosse isso eu teria apenas um holograma que as pessoas iriam interagir e não obter resposta. Sinto falta do MSN por isso, porque era apenas quem nós realmente queríamos que estivessem lá, e não essa polidez social de ter a figurinha do vizinho, do professor, do superior, ou daquele que pode me fazer um favor um dia. Ninguém é obrigado a ser amigo de ninguém, ao mesmo que as pessoas são melindrosas e hipócritas ao ponto de sempre se fazerem de vítimas de si em vez de encarar as próprias escolhas. Uma bipolaridade crítica mais rápida que miojo.
       Então, daí surge uma tag para combater algumas dessas barbaridades diárias. E aqui vai a primeira dica de como não ser um babaca virtual, como não ter uma Second Life: Leia!

Leia bastante.
Leia direto da fonte.
Leia várias fontes, autores e críticas.
Leia sua própria crítica e seus fundamentos.
Leia o seu próprio exemplo.
Leia o seu meio, leia a sua vida.
Leia os termos da lei, do regulamento, da circular.

Ler é encontrar nos símbolos alguma forma de aprendizado. 

Aprenda, se eduque, se transforme.

Quando isso não for mais suficiente, aí você estará pronto para começar a falar.
       
      Mas ainda assim não será mais um debate, porque você vai aprender que não há apenas um lado correto, não há um mero ponto de vista, porque existe um emaranhado de situações, pessoas e sociabilidade ética envolvida que chega a ser sufocante ao mero olhar, mas que dá pra saber exatamente onde existe falha, onde existe êxito. Serão conversas sadias, ideologias mescladas que começaram a emergir do âmago do teu ser. Você evoluirá como pessoa, se tornando então um ser humano e não será mais a massa.
       A minha fazenda é melhor que a sua vida, apenas por não me interessar o que você come, onde você vai todos os fins de semana, ou o quanto de álcool você aguenta tomar. Não me interessa sua ladainhas piegas quando você transa mais que uma profissional do sexo, ou quando você vai tomar soro na veia para não ir trabalhar... São tantos exemplos de desnecessidades postadas a cada segundo que me pergunto se a vida privada é algo que alguém compra, ou se alguém faz questão de comprar. Não sei ao certo. Entretanto, sei que tem retorno, e terá retorno, pelo menos de algumas das discussões, porque alguém tem que ser o guia, alguém tem que mostrar a luz. Enquanto isso, ficarei cuidando da minha fazenda, crescendo e aprendendo, me divertindo com esta tal rede social.


Apenas o céu

Foto por @sanamaru O amargo remédio se espreme goela abaixo, a saliva seca e o gosto de rancor perdura por horas. Em vez de fazer dormir ele...