Instrumento

O sussurro fez a imersão. Sua figura ficou distante, as palavras pastosas e as cores monocromáticas. Os fios invadiram o quebradiço violentamente e me arrancaram dali, os cordões prateados eram característicos, já não sentia os membros, a mente não conseguia comandar os movimentos e fiquei sem entender. Os pico-segundos foram o suficiente para presenciar uma discussão nunca vista. Síndrome apareceu das sombras entre os carros, escorreu as platinadas e negras escamas pelo estacionamento e em ataque ficou posicionado, fintando os prateados cordões que me fizeram de marionete. Logo veio aquela voz, um suave e familiar timbre, era ele. O segundo demônio.
Saltou da árvore um ser pequeno, também com alguns cordões em seus membros, seus olhos plásticos eram distorcidamente fixos, algo perturbador, suas expressões eram mortas, pintadas, esboçando complacência sinistra. Sua roupa demonstrava uma versão clássica, modelada entre a era do vapor, e fingindo caminho se aproximou do meu corpo ao chão.
-É sério? 
O pequeno boneco mexeu boca mecanicamente, porém o som não viera dali. A voz ecoava do alto. Por força dos puxões das cordas eu fiquei de pé, e entendi porque às vezes o corpo não seguia o pensamento, pois este e suas atitudes eram escravas nascituras dele. Ventríloquo era seu nome. 
A mente conversava com ele, mas de resposta não tive a satisfação. A grande víbora derramou-se por cima do boneco, o instrumento de alusão ao poder maior. Logo começara ali uma briga ferrenha. a força de ventríloquo era bem maior que a serpente, os puxões já pragmáticos faziam a quase cega serpente bater nos carros em errados ataques, o boneco ria de forma medonha, quase um berro de terror. Tentei voltar a realidade pela mesma janela que fui arrancado, mas o corpo não obedecia, as palavras gritavam fora o silêncio do peito. Eu, mero marionete dele. Fui ao chão pela segunda vez quando o joguete feito de madeira rústica evadiu do bote de Síndrome, este acertou-me em cheio. Meu braço doeu como nunca!
Senti um fisgar saindo d'alma, a mão formigava e tremia. Foi naquela hora que percebi a chance única de fugir, a gigantesca cobra se esticou protegendo-me, vi quando ela espremeu os amarelados olhos, mirando os prateados que davam vida aquele abissal menor.
Ventríloquo sempre fora covarde, nunca deu a graça de sua presença, sempre usou de artifícios menores e mais práticos de controle, geralmente apenas a inercia do corpo era o necessário para que nada tirasse dele o controle sobre mim, por mais pensamentos e vontade que eu tivesse, o controle sobre as ações é sempre dele. Ágata já havia me avisado que um dos piores momentos da vida de alguém não era tomar uma decisão, mas sim escapar dos grilhões que autopreservam o corpo. 
E no ultimo momento da imersão avistei o pequeno me observar e fazer um sublime sinal de negação. Senti um arrepio de que não era o fim, e que este estaria muito longe de acontecer. Escutei Síndrome atacá-lo e Ventríloquo gritar em resposta.
Haverá uma vingança, sei bem, mas tentarei estar preparado, tentando cortar os fios que me fazem de marionete.



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