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Muito prazer, me chamam de Otário.

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Com a mão estendida continuei por três segundos. Com um sorriso catedrático e um semblante caricato, tento não expor a incredulidade espontânea. "Nós nos já conhecemos", você afirmou desvinculando qualquer cordialidade. Retirei do vazio o punho já fechado, sem titubear, voltei a contar os pigmentos de céu. Se fosse outra pessoa, ficaria a tentar ser deveras gentil, mas não era o caso. Nós realmente já nos apresentamos e, muito embora, nunca conversamos ou conversaremos, fico a torto pensar se realmente fiz certo. Certo não,  necessário. Uma vez que somos apresentados, fixa-se uma concórdia de amistosa reciprocidade. E falando em reciprocidade, ainda não descobri porquê Minerva me odeia tanto. Acredito que nunca saberei. Atenção. Ela vai sair. Preparou-se para retirada de maneira religiosa e, cultuando a educação e polidez, se despediu sendo agradável como costume. "Você vai também, não é?", respondi e eles se entreolhavam: OTÁRIO, diziam entre si. Sem nenhuma sílab…

Infecto

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A foto trazia uma felicidade destemida. Não havia nada além de nós dois, em posição amistosa, eu estou projetado a tua frente, quase que abraçado, um pouco a cima está o teu sorriso, um pouco abaixo minha sobrancelha arqueada típica. A foto trazia uma felicidade saudosista. Não parece que somos tão distantes assim. As idades distantes, épocas distintas, moradas quilometradas, sonhos atmosféricos. O semblante pode até convencer, mas quando menos esperar ele vai acontecer. O burburinho já ouço ao fundo, como um turbilhão se formando de leves ondulações na crosta da pele, tomando por impulso ao estilo alienígena gangrena mortal. Surrupiando a intenção voraz de apenas estar ali, levanto instintivamente para sobreviver. Você não entende. Nunca vai entender. Todos olham e julgam, é assim, quase que o tempo todo. Quando você tem a marca, todos já sabem o que esperar de você, não podem confiar, não devem. Somos segregados para nossa própria proteção, ele diz ao entregar os frascos, um de manh…

Moonlight às 15 horas.

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E não chegamos ao consenso se detalhes são importantes ou não. Ou melhor, chegamos e você ficou com medo de admitir que será fatal, pois o detalhe dependerá sempre da perspectiva de quem observa. Os minimalistas adorariam essa cena. Afinal de contas, como se não ousasse interromper o dito, apareceu como se fosse costumeiro, ali, banalizando qualquer cordialidade. E, sabendo que a invasão me afeta profundamente, não disse "boa tarde", "olá", ou qualquer coisa que demonstrasse interesse ao diálogo. Assim, manifesto aqui meu repúdio a sua ofensa tácita e articulada quando batia corpo na pessoa do lado, incomodando-a e me incomodando ao perceber que era deveras proposital. Clamei pela mudança, ignorando o fato de ser ignorado e, como em um desafio de poder, questionou o motivo, talvez quisesse que eu falasse que estivera sendo incomodante, talvez quisesse que eu falasse que estavas agindo com rudez, porém, admitindo e controlando aquela sensação que sempre me toma por …

Algodão ou Frutas Vermelhas?

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Não havia resposta certa. O ato decisório é sempre instigante, ora pelo custo de oportunidade, ora por tentar agradar. E, com incerteza em demasia entre estes dois, aceitei a opção cítrica. Ao optar por algo com querer, não visualizamos o predicado que acompanha, então podemos errar sem querer. E, intencionalmente, houve a mensuração do desagradável, a desatenção ou moribunda tentativa de acerto, corroeu o cotidiano. Quebrou, de maneira abrupta, toda e qualquer certeza de que tudo estava bem posicionado. E nesta assíntota de valor, pereci no velho dilema de o que são acertos e erros mediante os valores tão específicos. Mais que uma maneira de enxugar partes, um rito de controle, que invariavelmente vai incomodar. Sempre incomoda. Adito ainda que, em circunstâncias tradicionais, eu apenas aceitaria a condição robótica de ser, entretanto, ao invés disso, navego em águas confusas de tentar ser humano também. O pior é quando esta conceituada insegurança é alvejada com comparativos (ir)rac…

Eu gosto é de pornô!

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E, embora não fosse sobre ela, mas veio a calhar com perfeição. Mudando o título por diversas vezes, me peguei com este que me foi dado de maneira sincera. Não contemplando o vulgar, mas a singularidade de interesses, o elogio conjecturava a plataforma de inércia e efetividade ocultista. Ela, com seus ossudos e compridos dedos de estalactite brilhante, expôs, de causa, aquilo que retrucou de início. Passando de um para o outro, como um cigarro de torpor, ficamos a divagar e discutir aos contentos do acaso. Se isto fosse um conto jornalístico, seria aqui lido seu depoimento "Não quero ir porque não quero ir". E essa é a maneira da inquietude de permanecer. Ela apenas não foi para onde deveria, para o que veio pronta, e não houve culpa ou remorso. Ela usou da absorção cósmica para aceitar que ela tem o controle das escolhas. Talvez, você esteja no mesmo ponto que eu, quando ela veio dizer que a tristeza era algo ruim, e sua transmissão poderia ser corrosivamente destrutiva. Nã…

Giramundo

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Desculpe dizer que não percebi onde você queria chegar verdadeiramente quando focou a folha. Rotacionei vagarosamente o aparelho, como se por algum motivo fosse despertar ali aquilo que em ti brilhava o olhar. Mordi a boca por dentro, sabia que não ia conseguir. Olhei para os lados, te devolvi a máquina. Engoli o seco quando disse que pra mim estava boa. Envergonhado, baixei a vista e sentei como se descarregasse meia tonelada das costas. Senti que vinha um monólogo prático de como não dou valor para tuas coisas, para os teus gostos e hobbies. Você ainda olhava feliz para imagem no monitor, era uma conquista que nenhum outro tinha conseguido. A captura perfeita de algo que em ti brotou figura tridimensional e disse "Aqui! Estou aqui!". Sem graça, observo o quanto aquilo te significa. Vejo as poses engraçadas que fazes quando clica e clica. "Essa não ficou boa", você diz, ajoelha-se, aponta novamente, mira com cautela como se fosse atacado a qualquer momento pela ví…

Sensibilidade

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Caído, aos prantos, soluçando e berrando como se isso fosse aliviar a dor. A cena é tão ridícula que a raiva consome mais e mais. Os socos no chão, deliberadamente, machucam algo tão menor quanto deveria. Queria estar no teu lugar agora. Queria ser qualquer outra pessoa, mas não posso. Não consigo. Tudo se move. Um balanço pertinente ao convés dessa embarcação falida e deteriorada que chamo de vida. A crise é deveras pertinente. Não consegui chegar ao chuveiro e me afogar nas minhas próprias lágrimas. Sucumbi, aqui, no chão da sala que não merecia. Os móveis fintando a ingratidão maciça dos meus dedos machucados de rancor. Tento buscar no catálogo mental algum livro de autoajuda que me faça querer parar de viver isso. Não me vem nada. Não enxergo nada além do leve enjoo a bombordo. O suor canalha desce com vontade, as mãos tremem desleixadamente, e eu não consigo relaxar, meu olhar se projeta para o nada. Vejo tudo em maré alta, chove em minhas roupas, o chão inundado de mentiras. Se …