quinta-feira, 30 de maio de 2013

Ideia.


Peguei a caneca, pousei-a sobre a mesa, logo adicionei o tradicional café preto, forte e amargo. O vapor que sublimava daquela tradição era o que eu mais gostava de tudo aquilo, gosto de sentir o calor do preferido percorrer a face, como em um afago popular. O primeiro gole é como o primeiro beijo em qualquer pessoa.
Sabemos o que fazer, conhecemos os movimentos, mas a expectativa é quase maior que nossa curiosidade em conhecer aquele sabor, com gosto igual a todos os outros, mas unicamente perfeito. Os lábios tocam com cautela, como se temendo a temperatura primária, e depois do primeiro toque o decorrer do movimento é natural, é fácil de desenvolver e aproveitar cada instante.
Entretanto, desta vez foi diferente.
O saboroso amargo engelhou minha face, estava ruim, faltava algo que nunca senti falta. Foi exatamente com aquele gole de café, meu tradicional café, que percebi o que estava acontecendo. Experimentei ainda mais umas duas amargantes e não-engolíveis vezes, mas não dera certo. Fui obrigado ao acrescentar de açúcar. Uma colher de chá, provei, ainda não perfeito, mais uma colher pequena, mexi lentamente as contadas treze vezes e experimentei novamente. Perfeito! O favorito não era mais bem-quisto, faltava-lhe algo, algo que hoje reside aqui dentro, algo que deve ser acompanhado em todos os momentos. Senti falta do doce do afeto, dos esbranquiçados cristais que lembram o brilho do teu olhar.
Vejo hoje que a mudança é positiva, não viciante, mas pomposamente agradável. Algo como tua presença, que é um arremedo de vários medos e coragens, uma duplicata da parte boa e um esboço de algo ruim, uma construção pré modelada que não garante futuro, mas não se basila no passado. Um momento de rápido marasmo que antecede a ação.
O primeiro gole de café sempre é temeroso, por mais coragem de queimar-língua que possa ter. Tudo na primeira vez remete a sensação única de uma primeira vez, algo que o espírito não abriga conhecimento prático por mais de cetenas-de-dezenas de vezes já teorizado. É um momento único que marca a mente, mente a verdade que está tudo bem, constipando as entranhas enquanto a respiração ligeiriza. Por um breve momento o cérebro entorpece, o corpo se guia pela vontade, a assimilação se torna primordial, os estalos nas sinapses se voluntariam no aperfeiçoar do método, na gravação de informações desta nova experiência.
Foi assim naquela noite fria de quente café. Foi assim com a primeira briga, o primeiro voto, a primeira viagem, o primeiro beijo.

Vai ser sempre assim com as primeiras vezes. Construindo novas informações e esticando os conceitos teóricos, vivendo a vida em prosa e polpa, polpando articulados verbetes. Quando foi a ultima vez que você fez algo pela primeira vez?




Instrumento

O sussurro fez a imersão. Sua figura ficou distante, as palavras pastosas e as cores monocromáticas. Os fios invadiram o quebradiço violentamente e me arrancaram dali, os cordões prateados eram característicos, já não sentia os membros, a mente não conseguia comandar os movimentos e fiquei sem entender. Os pico-segundos foram o suficiente para presenciar uma discussão nunca vista. Síndrome apareceu das sombras entre os carros, escorreu as platinadas e negras escamas pelo estacionamento e em ataque ficou posicionado, fintando os prateados cordões que me fizeram de marionete. Logo veio aquela voz, um suave e familiar timbre, era ele. O segundo demônio.
Saltou da árvore um ser pequeno, também com alguns cordões em seus membros, seus olhos plásticos eram distorcidamente fixos, algo perturbador, suas expressões eram mortas, pintadas, esboçando complacência sinistra. Sua roupa demonstrava uma versão clássica, modelada entre a era do vapor, e fingindo caminho se aproximou do meu corpo ao chão.
-É sério? 
O pequeno boneco mexeu boca mecanicamente, porém o som não viera dali. A voz ecoava do alto. Por força dos puxões das cordas eu fiquei de pé, e entendi porque às vezes o corpo não seguia o pensamento, pois este e suas atitudes eram escravas nascituras dele. Ventríloquo era seu nome. 
A mente conversava com ele, mas de resposta não tive a satisfação. A grande víbora derramou-se por cima do boneco, o instrumento de alusão ao poder maior. Logo começara ali uma briga ferrenha. a força de ventríloquo era bem maior que a serpente, os puxões já pragmáticos faziam a quase cega serpente bater nos carros em errados ataques, o boneco ria de forma medonha, quase um berro de terror. Tentei voltar a realidade pela mesma janela que fui arrancado, mas o corpo não obedecia, as palavras gritavam fora o silêncio do peito. Eu, mero marionete dele. Fui ao chão pela segunda vez quando o joguete feito de madeira rústica evadiu do bote de Síndrome, este acertou-me em cheio. Meu braço doeu como nunca!
Senti um fisgar saindo d'alma, a mão formigava e tremia. Foi naquela hora que percebi a chance única de fugir, a gigantesca cobra se esticou protegendo-me, vi quando ela espremeu os amarelados olhos, mirando os prateados que davam vida aquele abissal menor.
Ventríloquo sempre fora covarde, nunca deu a graça de sua presença, sempre usou de artifícios menores e mais práticos de controle, geralmente apenas a inercia do corpo era o necessário para que nada tirasse dele o controle sobre mim, por mais pensamentos e vontade que eu tivesse, o controle sobre as ações é sempre dele. Ágata já havia me avisado que um dos piores momentos da vida de alguém não era tomar uma decisão, mas sim escapar dos grilhões que autopreservam o corpo. 
E no ultimo momento da imersão avistei o pequeno me observar e fazer um sublime sinal de negação. Senti um arrepio de que não era o fim, e que este estaria muito longe de acontecer. Escutei Síndrome atacá-lo e Ventríloquo gritar em resposta.
Haverá uma vingança, sei bem, mas tentarei estar preparado, tentando cortar os fios que me fazem de marionete.



sexta-feira, 24 de maio de 2013

Porta-chaves


Respirei fundo não querendo administrar a culpa, mas a verdade ainda que vulgar tem que ser dita. E é sempre assim que acabo chamando atenção para o não necessário, para o lado escuro da lua, onde ninguém quer ir, onde ninguém volta de lá. E, mesmo, sem qualquer intenção modeladora, você vem cheio de floreios para os meus borrões. Por isso queria uma cópia tua. Um pedaço minimalista do teu ser, disto que projeto teu todos os dias. Algo que alimenta minha fome de conquista, cuida dos males tradicionais, entrelaça os cordões de afeto, e vai seguindo, assim como der, de qualquer jeito. Mas tão natural como o dia que nasce, o sorriso que brota face, natural como um devaneio contemplado com curiosidade, uma gargalhada compartilhada sem julgamentos. Isso é você.
Carregaria você para todos os lados, acenaria com teus costurados bracinhos esbranquiçados e riscados para pelugem, andaria saltitando as perninhas que se esticam com o brisar, apertaria sua barriga bem como eu faço sempre que possível, imaginando então teu gargalhar e o rubor de saúde encharcando teu sorriso, também brincaria de mudar eu rosto, para cada situação uma expressão diferente, todas belas de fotografia, todas elas fixas e bem lembradas, mas dos acessórios não carregaria muitos, apenas um ou outro, tipo um bonezinho para quando o cabelinho feito de lã escura tiver grande, os oclinhos de hipster neo-londrino, mesmo com os olhos costurados com tanto esmero tem aquele brilho, um olhar com brilho de faca que ainda perfura toda minha amargura. Te penduraria no retrovisor, nas chaves agudas, no guarda-roupas, pousaria na estante, na mesa de centro, dormiria abraçado pra sentir teu cheiro que marca minha roupa feito mancha. 
E se apertar você carinhosamente, qual seria o som que emitiria?

O Teorema

A conversa adentrou um caminho já percorrido, aquele das justificativas sobre o objetivo, logo ficamos ali, batucando as estribeiras e dedilhando guardanapos. (Qual a metáfora afinal? Para quem seria a mensagem subliminar? Onde foi o que você teorizou tudo?) São sempre as mesmas perguntas para aquilo já sabido. Não há motivação, alvo ou circunstância para fazer um pensamento fluir, ou para haver uma ramificação de um favoritismo ou similaridade sentimental. Surge o nexo, as possibilidades, assim, do nada. Como algo pré-fabricado. Uma corrente invisível vai juntando, somando, agregando, interagindo, conceituando, criando um nexo, e pronto. Feito. Surge então uma tese, uma proposta, um teorema. Algo que corroborará de logo.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Maximum Argenteum


Firmado tempo para um novo momento no âmago obsoleto e despertado do abstrato e solitário ciclo, sem mais esperar por Ele, por algum aviso ou condição, foi naquela noite de tradição que validou-se um novo temperamento. Uma condição totalmente estapafúrdia e contradita ao comparar com o mimetismo anterior, porém de inicio peculiar. Ignorando todos os preceitos e valores, sai em busca de nada além das máscaras e joguetes, sem querer saber os motivos que regem o mundo, ou das convicções pessoais de outrem.
Dizem por aí que eu não existo, ou que minha vida irrita outras almas. De fato eu até que me importaria, se fosse antes, hoje não mais. Não me permito infligir nisto que cresce em mim, o monocromático pensamento em ser feliz um passo atrás do outro, e este sentimento dendítrico envereda lugares nunca habitado, deixando tudo novo, experiencias abraçadas em conforto e crença que tudo ficará bem. Assim eu me permiti, sim de forma bem natural e vulgar, nada além do comportamento másculo de ser mais uma noite, sem pretensões ou promessas. Ainda que o corpo não estivesse conectado à alma, foi ouvido e vivenciado tudo aquilo, de uma maneira nunca antes, com olhares observadores de um analítico e com olhares de um caçador, duas medidas para um único peso, o que me fez protelar naquele momento tudo que eu tinha postergado. 
Decantou ao longo das horas o ser real, agregando novos sons e temas. E em vez de apenas separar o joio do trigo, adquiri um modo novo de colher, o não julgar. Por enquanto Ele não fez menção desde o episódio das Águas Mornas de Trevas Ângelas, acredito que seja isso o grande diferencial neste momento, uma concretização dos sentimentos reais com os valores imaginários das ações predeterminadas com a espontaneparidade corrente.

Apenas o céu

Foto por @sanamaru O amargo remédio se espreme goela abaixo, a saliva seca e o gosto de rancor perdura por horas. Em vez de fazer dormir ele...