Caprese





 Quando a revolta é maior do que o medo de sair, é justamente quando as coisas inimagináveis podem acontecer. Nem pensei duas vezes ao fechar a porta, deixando para trás um escarcéu efusivo, apenas queria ir para qualquer lugar que não fosse minha casa. Geralmente, as pessoas comuns querem deixar tudo e ir à casa como refúgio perfeito. Comigo é justamente o contrário, parece que o barulho do mundo é mais silencioso do que aqui dentro. 
 A chuva castigava a cidade como outrora, entretanto não seria isso que pararia a vontade de fugir. Uma vontade máxima que evolui com o passar da vida. A cada dia, a cada minuto, mais e mais vontade de apenas sumir. Ser arrebatado por uma ordem superior, aliens, ou seja lá o que for. E foi assim que segui o mantra até o ponto de encontro. Uma frase reiterada de que o novo poderia ser melhor do que eu já tinha até ali. Segui com receio preso na garganta, quebrando um, dois, três pontos de segurança. O frio não me deixava mostrar que eu suava de nervoso, as unhas já tinham sido roídas e, por sorte, o dinheiro do Uber-Fuga já estava bem preparado. Porém, ao se declarar um estranho no circulo, um neófito no castelo, um anônimo entre os bancos, me senti confortável. Tudo era novo, e eu poderia ser quem eu quiser. Escolhi o personagem mais caricato e audacioso de todos que já vi. Escolhi vestir a máscara do meu eu polido. O que não mente, não distrai, não se incomodar em incomodar.  
 Falei muito sobre as coisas que me apetecem, sobre situações confusas, vozes asperas e tendências de solidão. Falei muito sobre tanta coisa em um mix quase que ensaiado. Comendo pizza de Natália Klein, bebendo água de Victor Hugo, nas paredes via Downton Abbey, nas roupas Warner Bros e Sony, o ar era 212 e Polo, um clima Friends e Happy Endings. Referências em uma noite irreverente. Essa foi a noite em que desafiei o normal, o certo, a contramão. Me lembrei que Vanessa me sequestrava para dias assim, para noites também. Lembrava de muitas vidas e pessoas, lugares e sabores, lembrei da França, do frio de Montpellier para ser exato, lembre da Gréia, Marrocos, Itália, Emirados Árabes, Chile, Bolívia, México e Guiana (mas a francesa). Fiz um tour nas minhas lembranças de tudo o que já vivi em tantos tons diferentes. 
 A noite seguia em um fluxo de risadas, questionamentos e aprendizado. Todos estavam ali apenas para celebrar um dia comum de sábado. E eu, celebrando uma saudade. E foi aí que me vi triste. Por estar celebrando algo que eu já não podia, algo que já não era bem-vindo. Quando te olhei, quando você sorrio de maneira automática e envergonhada, fugindo do meu olhar de saudade, foi nessa hora que eu vi o sabor da pizza. Não é errado você querer experimentar outros sabores, mas você sempre terá um preferido, ou um que você consome mais. É natural experimentar, mas, quando se come uma pizza do mesmo sabor que você já conhece, não se pode esperar degustar uma coisa diferente. Caprese é caprese, frango é frango, mista é mista, e por assim vai. 
 Essa noite foi a noite da Caprese. Ora por curiosidade e ora por ousadia. Mas, não sei se me acostumaria a ter o mesmo saber todos os dias, não esse que já conheço e que um dia me engasgou. A vida tem disso. Tem umas saudades que são ruins mas confortam. Vai entender. 

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