1963



Faltou chover para finalizar a morbidade deste dia que ousa começar. Pronto. Agora está chovendo. Me parece que o êxito hoje é todo dele. Levanto da cama com a cabeça sendo esmagada por uma ressaca maldita, lembro de ter aceitado a bebedeira como ato unânime de redenção. Não consigo levantar, não quero. Sucumbo ao marasmo e fico sentada, tentando respirar algo além do cheiro de álcool que suo. Derrotada e sem tentar, imagino a vida dessas mulheres perfeitinhas, brancas como leite, loiras, de sorriso impecável. Vacas. Todas vacas. Pedaços de carne que vão apodrecendo até ninguém querer mais. Um risinho sufocado me vem ao começar a lembrar dela, a outra. Apanho um cigarro na cabeceira, não me vem ligar o abajur, não convém sair antes das duas da tarde e, por isso, nem busco as horas. Sou livre, faço o que quero. Eles rastejam aos meus pés, tenho dinheiro, fama e um marido. Ou melhor, tinha um marido. Não sei se puseram meu clamor em ação. Agora me arrependo de pedir ao meus seguranças que dessem um fim nele e, principalmente nela. Aquela branquela nojenta. O cigarro vai me inflando e derramo no ar o espesso gasoso de pura nicotina. Vou parar de fumar depois desse, prometo. Minhas costas doem, meus pés doem, e eu quero morrer. Preciso encarar os jornalistas escrotos que só acham manchete em relações desastrosas. Claro, não sou perfeita, mas ele quem deve estar com o crédito de maior canalha que alguém pode conhecer. Levo a mão ao rosto enxugando as lágrimas, sinto a mão tremer, o cigarro treme junto. E sinto uma mágoa, mais raiva e tristeza que me faz desabar. Um buraco que me suga para dentro. Se pudesse, sumiria. Vou voltar a ser anônima por um tempo, talvez até dê. O carpete se corrói em cinzas e bitucas, este quarto cheira a ressaca. O enjoou quer tomar conta da dor de cabeça. Decido levantar e, como mais um dia, postar meu eu ao que realmente me liberta: a música.
Porque sou mulher, porque sou negra, porque sou Simone.  

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