Chocolate


A noite já estava alongada quando finalmente nos encontramos, sinto muito. Faz tempo que não percorria essa parte da cidade, fico muito tempo imerso em minha própria zona de conforto, minha utopia significante de marasmo. Pode até parecer piegas, mas o frio bem-vindo deixa tudo mais ameno. Li no Bonde sobre a frente fria, vi na rua a noite que teria evento, talvez um concerto ou uma mostra. Fico feliz por ter recebido o convite mútuo deste encontro. Embora nos falamos mais por distância que em presente, nossos sorrisos se encontram desprovidos de qualquer passado, de qualquer mágoa, como quando visitamos uma cidade acalourada pela primeira vez. E, neste calor que perdura dentro de mim, pergunto se tu não queres contrariar o hoje. Vamos à sorveteria, duas de flocos para mim, duas de chocolate para ti. Algumas coisas nunca mudam. Teu hábito por chocolate, teu charme ao passar os dedos no cabelo, tua piscadela de controle. Sim, algumas coisas parecem que permaneceram. 
Prometi que não ficaria por muito tempo e você afirmou que tudo estava bem, que ficaria bem. Logo, nos entrelaçamos no nosso cotidiano informativo, o que tu fez nestes últimos anos soa tão encantador que contemplo teu desdém ao citar coisas tão fantásticas como se contasse os botões da camisa. Você esqueceu o quanto de extraordinário já fez só por não notarem, esqueceu do que somos feitos, não lembra mais de dançar ao estar se sentido feliz e, bem, te peço que lembre sempre. A canção é de Iorc, e não poderia embalar melhor essa noite que amei te ver, outras tantas músicas percorrem o teu lugar de escolha e sinto nossa suavidade ímpar. Sabe, quando a gente se distrai, muita coisa pode acontecer, inclusive o nada. Tu eras tão melhor que isso, isso de apenas ser, ter medo de perecer, de se aventurar. O que nos tornamos afinal?
O caminhar de volta ao ponto de encontro deixou para trás uma sorveteria agitada de cores fortes, suavizamos carinhos e cordialidades ao fixar um programa qualquer na tv que nos estava posta. Entendo que não somos tão jovens, a marca de qualquer deslise frisa as costas em ardor, pois agora, ser responsável é como respirar, ter metas e produções é o que acabamos por aderir como normal, como esperado. Daí surgem aquelas expectativas que nos privamos. Deixamos de ouvir um trocadilho e rir de maneira boba, deixamos de curtir o tão pouco. As garrafinhas d'água que nos encara como velas de essência francesa nos convida a poesia de tempos outros.
Sinto tua pele como nunca antes, teu sabor, teu receio e tua lascívia ao querer sempre mais. Ponderamos como em um primeiro encontro, não sabemos ao certo o que fazer agora. O peito palpita, mas relaxamos. Estamos aqui. Unidos, juntos, como antigamente, estranhos em um ninho familiar. Afinal de contas crescemos. Me envergonho pelas manias sagazes que correm meu lustro, você sorri. Talvez, apenas talvez, agora que eu preciso ir e sei que você ficará bem, talvez agora você não mais esqueça que vivemos em um mundo de possibilidades. Deixe registrado, como numa fotografia, que existe sim coisas intermináveis como um cansaço que nos apodera mas não apagamos, não vale a pena fechar os olhos quando esses mesmos olhos apreciam a felicidade. 
Talvez um dia eu volte para este lado da cidade, quando não mais tiver medo de começar. Não te peço que me procures, entretanto, se um dia ousar me encontrar, serei de todo o mesmo. No lugar de sempre, com calda extra de chocolate e um pouco de amendoim, para quebrar o clima e mostrar que sou do contra. Contra tudo o que não é eterno. 


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