As crônicas da alma viva: A hora extra (parte 3)

 A tela acinzentada toma conta novamente. Disponível emparelha em verde. Respiro fundo. Clico em deslogar. Por hoje basta. Quero esquecer essa maluquice, não posso surtar. Finalizo o programa, fecho as abas de instrução, do financeiro e da tabela de preços e ofertas. Fazer logoff. Aperto novamente no dac para saber que estou saindo. Preciso apenas dormir. É disso que preciso. Rio comigo mesmo. É cada coisa que acontece com a gente que... olha, sei não viu? Retiro a espuma do headset, o tubo de voz e sigo rumo casa. Me despeço das pessoas com um breve aceno de estou-caindo-fora-otários e para alguns um aceno até-amanhã, disfarço meu ofegar, sinto aquela agonia da única gota de suor desbravando a testa. Enxugo com a camisa, ombro testa, vejo a garota com o cabelo azul descer as escadas. Caça ou caçador? Será que foi ela? Ou melhor, será que foi com ela? Ou para ela? Apresso os passos, a catraca demora para ativar o bip de acesso permitido, jogo o crachá de passe novamente. Ela aceita, passo apressado. Vou até a escada, mas nada da garota. Droga. Não lembro o nome dela. Ela está sempre por aqui, mas nunca a vejo com frequência nas mesmas horas que eu. Dou meia volta e ando aos armários. 251, 252, 253. Tarantulo os bolsos em busca das chaves. Abro o armário e pego minha mochila. Ouço alguém falando meu nome. Fecho o compartimento. Aguardo um pouco. Sigo os passos ocultos no mármore com os ouvidos. Vou lambendo com a atenção o corredor de trancos e trancas. Me deparo com a entrada dos banheiros, masculino direito e feminino esquerdo. A porta deste ultimo está encostando pelo gancho automático. Alguém passou por ali agora. Agora. Respiro fundo. Olho de volta. Armários intactos, ninguém a vista. Fico ou entro? Espero ou vou embora. Vai ver não era o meu nome... ou será que era? Você sabe quando alguém chama o teu nome, não sabe? A gente sente quando o nome da gente é pronunciado. Parece que uma energia nos puxa na mesma hora. Não vou ficar esperando, não parece certo. Sei lá. Melhor ir embora. Certas coisas é melhor a gente nem saber. Será que eu quero mesmo saber? E agora? Ouço conversas aleatórias, olho novamente para escada, lá um grupo de colegas estão se encontrando, acredito que estão indo embora. Já já sai o fretado. Vou acabar perdendo a ida para casa por idiotice. Melhor deixar isso para lá. Abro a porta do feminino com receio, poderia entrar, mas não sei. Minhas pernas travaram, chamo por Mariana. Mariana é um bom nome. Todo mundo conhece uma Mariana. Mariana? Chamo novamente. Ninguém responde. Sem barulho de água ou qualquer outro sinal de vida. Para mim, isso confirma que já posso ir. Aperto o ritmo sem olhar pra trás. Seja lá o que for, já foi. O grupo de antes também já não estão ali. Sinto uma frieza emanada do corredor. O ar condicionado deve ser mais forte por aqui. Olho para ambos os lados da operação da central de relacionamento. Tudo tão normal. Tudo tão qualquer dia. É estranho e comum imaginar que estamos dentro de um sistema e ao mesmo tempo tentando fazer diferente. Aliso o corrimão frio na descida dos degraus. Mais alguns passos e estou na portaria, passo o crachá na catraca e logo sinto o ar da noite.  Alguns cachorros estão deitados no carpete de entrada da empresa. Ninguém mexe com eles, são de rua, são carentes, são os que precisam de um abrigo por hoje. Antes de atravessar a pista, olho os dois lados. Um lugar esquisito se faz presente. A noite nunca foi segura nessa cidade, principalmente nessas redondezas. Sigo em marcha ao ponto de encontro dos fretados. São 5 ônibus de viagem, paralelos uns aos outros aguardando suas saídas distintas. Alguns segundos e boa noite Cícero, tudo bom? Ele responde que sim, ao entrar no ônibus sinto um alívio repentino. Falta pouco para essa noite acabar. Pelo menos era o que eu achava.

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