Impacto


A contagem é deprimente, mas necessária. Lá se vai outro dia, menos um, mais um.
Dias desperdiçados pela insatisfação de viver, em busca de um propósito, uma razão que faça sentido. Onde ficaram os dias luta, os dias de glória?
Onde está o brilho dos meus olhos?
Onde ficaram os sorrisos mais sinceros que almejavam a mudança, o novo, o incrível?
Fácil culpar alguém, algum lugar, algum fator propulsor de decadência, entretanto o que torna tudo isso difícil é encontrar um mero motivo ao qual se agarrar e não desistir. Tão mais fácil absorver a culpa de todos os dias, dos desastre da vida, da falta de sorte, das consequências tão temidas. Dizem os especialistas que a depressão é, em resumo, uma sensação de luto por alguma perda. Um momento que deveria ser passageiro e tornou-se constante. A depressão é perda, a introspecção é busca.
Buscar algo dentro de si que faça sentido em luta ao mundo que tenta te derrubar. E, caído, busco uma maneira de não namorar o arrepio. Sabe porquê eles colocam grades em parapeito? Não para que uma pessoa desavisada caia por um acaso, mas porque o corpo pode ser sequestrado pelo ímpeto da gravidade. Alguns chamam de vertigem, outros de desespero. Eu prefiro chamar de arrepio.
Cada pessoa possui seu próprio sentimento que delimita o corpo da água e margeia a sensação de trespassar a realidade. Pode ser um pouco abstrato, mas cada um de nós já teve o frio na barriga de ver um desastre prestes ao acontecimento, só que ao contrário de sentir os órgãos se revirando ao caos, você sentirá uma sensação diferente, curiosa, e apaixonante.
Alguns fazem disso um trabalho, essas tais coisas radicais, dizem que viciam. Chamam de adrenalina. Chamam de desafiar a morte. Eu chamo de arrepio. E o meu momento mais interessante disso não é apenas namorar a avenida e imaginar os carros em alta velocidade, indo cada vez mais veloz, mais veloz, mais e mais veloz, tão veloz que apenas os luminosos faróis costuram o caminho, fico no estrangular da sensação, em meio-fio, sentido a velocidade dos carros percorrerem meu corpo, me convidando a participar. Minha mente corrói os céus num mantra de libertação a cada passada de caminhão, ônibus ou carro qualquer.
O impulso é sempre o mesmo, e quanto mais os dias passam, quanto mais sufocante são os dias, quanto mais diálogos de ódio e mal-querer é proferido em sentença fustigante, quanto mais salubre e ermo é o sonho que se desconstrói, tudo isso perfura os sentidos da sanidade cruel, deixando apenas na rodovia a única forma de prazer quase que em microsegundo, um breve e singular momento em que os gritos de socorro serão ouvidos, tornar-se-ão pedidos de desculpas, o gutural se fará presente em forma de conforto.
Água deve vir, diz a previsão.
Será quase que um susto, mas passará tão rápida quanto a vida nos olhos quando, finalmente, chegar o momento que minha alma ficará liberta. Quando amanhã será apenas mais um dia, será o último dia, não mais outro dia qualquer. Eu farei tudo do mesmo jeito, ouvirei as mesmas culpas não minhas, tomarei pra si toda dor que nunca tive oportunidade em ter, serei tão amável que ousarão questionar quem sou, de onde vim, pra onde vou. Será um dia como outro qualquer, o dia de são ninguém. Mas amanhã, quando eu for embora, não levarei meus livros, meus jogos, minhas cartas, nem mesmo minhas roupas. Estarei finalmente livre. Estarei finalmente indo embora.
Enquanto namoro os sonhos de liberdade no trespassar dos carros em vento cortante, vejo as luzes da cidade se ascender, vejo em minha mão a estrela da ordem e do caos cerrarem a vida e no próximo passo, como de súbito, eu finalmente estarei livre. E por um breve momento eu serei completo, serei eterno. Eu finalmente sorrirei para você e sussurrarei te desejando o teu maior sonho em concreto.
Serei livre.

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