A carta.


Para ler ao som da faixa 13. 

Apressado. 
 O ônibus das doze e trinta e cinco já estava vindo, já conhecia, consegui vê-lo no ponto seguinte. Eu já estava atrasado.
 O carteiro ao virar a esquina cumprimenta-me com um sorriso. Cartas. Agradeço apressadamente e aquele monte de envelopes são abraçados pelos cadernos e anotações da minha mochila.
 Atravesso a rua em correria, não posso perder este. Ao subir, ônibus lotado, mal dá para se segurar sem ouvir lamentações alheias. 
 É mais um dia de luta para conseguir chegar lá. Acordo. De tão cansado e não acostumado mais a perder noites pelo próprio pensamento, dou conta que cochilei. Verifico o ambiente, e não há nada para ler. Os passageiros são ligeiramente os mesmos, são estudantes e trabalhadores que vão para a parte alta da cidade, longe da praia, do movimento, do comum.
 Me esgueirando consigo saltar no meu ponto sem perder a sincronia. O ônibus segue, eu fico. 
 Corro diretamente para o meu bloco, atravesso o pátio sem admirar as árvores, as flores, as pessoas. Apenas sigo. Chego na sala do mesmo jeito que sai, apressado.
 Pego minhas anotações, tento ter atenção na aula. Cochilo uma ou duas vezes. As pessoas não se falam, o professor se repete, no quadro tudo tipo grego. Não entendo nada, anoto tudo. Estudo depois. 
 O alarme não soa, as pessoas comentam. Fim da aula.
 Continuo nela até esta se esvaziar. Pego meu monte de cartas e vejo as quais devo abrir por agora.
 Conta, propaganda, conta, conta, convite, outra conta, uma carta de longe.
 Eram tantas coisas que contei novamente. Sim, tinha uma carta de longe. O carimbo era de três meses atrás, os selos eram de linguagem diferente, euro. 
 Tremi.
 Não espero nunca uma correspondência pessoal, quem diabos ainda manda cartas?
 Jogo as outras na mochila. Titubeio com a carta na mão. Abro ou não abro?
 Eu suo, eu tremo, nauseante vou até a janela.
 Por que agora? Depois de tanta coisa... Por que agora?
 Penso em jogar fora. Rasgar aquela porcaria. Me vem raiva no peito, me vem aquelas lembranças de um amor tranquilo, me vem vontade de bater em tudo, apagar da memória.
 Maldita carta que vem do passado para me torturar. Que droga!
 Me acalmo. Não consigo saber o que fazer. Também seria desonesto alguém ler, e se tiver algo de íntimo ali? E se for alguma coisa que eu deva saber, tipo estou infectado por alguma doença, ou um filho, ou sei lá. O que será que tenho nas mãos? Nenhuma notícia é tão forte que não pode ser dita pessoalmente, por telefone, hoje não por favor. Agora que consigo sair de casa sem me sentir vazio, já sendo visto como mais saudável, ganhei peso, voltei a fazer umas coisas que gosto... Por quê?
 Minha curiosidade é mais forte que o medo. Tenho que saber o que tem aqui. Será um pedido de desculpas? Mas ninguém some do nada, não dizendo nada, sempre há alguém na jogada... O que deve ser?
 Rasgo a ponta do envelope vagarosamente, rezo para que não seja nada, um engano talvez, qualquer coisa. Há algo dentro, apenas um papel. Um dizer.
 Trêmulo, pego com a ponta dos dedos e escoro o corpo na parede.
 Leio.
 Choro.
 Aperto a carta contra o peito.
 Ainda existe amor.




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