Moonlight às 15 horas.


E não chegamos ao consenso se detalhes são importantes ou não. Ou melhor, chegamos e você ficou com medo de admitir que será fatal, pois o detalhe dependerá sempre da perspectiva de quem observa. Os minimalistas adorariam essa cena. Afinal de contas, como se não ousasse interromper o dito, apareceu como se fosse costumeiro, ali, banalizando qualquer cordialidade. E, sabendo que a invasão me afeta profundamente, não disse "boa tarde", "olá", ou qualquer coisa que demonstrasse interesse ao diálogo. Assim, manifesto aqui meu repúdio a sua ofensa tácita e articulada quando batia corpo na pessoa do lado, incomodando-a e me incomodando ao perceber que era deveras proposital. Clamei pela mudança, ignorando o fato de ser ignorado e, como em um desafio de poder, questionou o motivo, talvez quisesse que eu falasse que estivera sendo incomodante, talvez quisesse que eu falasse que estavas agindo com rudez, porém, admitindo e controlando aquela sensação que sempre me toma por arroubo em momentos de clímax, cedi a si, calei-me por hora e permutei a problemática. Após a consolidação do desprezo, concluí mais uma vez que toda aquela espiral de situações enfadonhas e congruentes se tornaram presentes após a minha surgência. Ao egocentrismo o pensamento da situação, acolhi outro detalhe além daquele, havia moonlight às 15 horas à esquerda e a festa da sexta-feira à direita. No centro dos detalhes apenas o olhar de quem não percebe o quão pesada é a leveza do ser. Já não bastava o zumbido frequente daquele lugar, agora a proeza de Minerva ao declarar guerra ao Desercto, já não bastava o descontento explícito ao vangloriar o quanto detalhista és ao mistificar os dias com escuridão de escolhas banais. O cego que avalia obras de arte, o surdo que é deejay, o mudo que canta na opera. Freios e contrapesos na delimitação centrífuga de açoites e deliberações pausadas. Passando horas debatendo sobre se o homem pisou ou não na lua para chegar a conclusão de que pizza de calabresa sim, por favor. Fico a pensar, contando os passos para casa, se realmente os detalhes são tão importantes assim, porque eu falei que iria pegar dois ônibus para chegar em casa mais rápido, entretanto, caminhei fundo até a rodovia por ouvir de teus lábios paradoxais que eu tomaria condução lá do outro lado da vida. Não contrariei por achar forte demais, era o exemplo perfeito da tua incapacidade de cobrar qualquer coisa, principalmente os detalhes. Coisa que vocês, humanos, fazem com muita frequência. Dizer uma coisa e fazer duas outras totalmente diferentes. 
Mastiguei sem esmero mais uma vez. Não sei o que me acontece ao chegar ali, mas todas as vontades se vão, ora pelo zumbido e turva visão, ora por descabida falta de vontade. Mesmo com isso, tentarei continuar registrando o cotidiano falido de passos rasos. A rodovia já é conhecida, bem como a sensação agradável da alta velocidade dos grandes veículos atravessando e arrancando o espaço vago que poderia muito bem alocar meu corpo.   


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Faça amor nu.

Faça Amor, Não Faça A Barba!

Eu fui à praia sozinho.