A Festa.




Passei a camisa para estar impecável quando tirar as fotos. A calça já vestida combinada com os tênis de cano alto. Dobrei as mangas com precisão, alinhei os botões. Dentes escovados, perfume nos estratégicos lugares e cabelo arrumado. Meu corpo estava pronto para uma noite com os amigos, e os amigos dos amigos, e os conhecidos estranhos de sempre. Sabe, todas as festas que acontecem por aqui são iguais, nenhuma vale a pena ir, mas todas arrastam histórias memoráveis e dignas de prestígio. Já tinha se passado umas duas horas desde quando recebi o convite para a tal festa. Fico bem contente quando eles me convidam, isso porque ninguém jamais me chama para nada. Nunca mesmo. Mas dessa vez vai ser diferente. Eles mandaram o convite, indicaram o local e disseram que todos irão se encontrar lá na entrada do evento. Confiro as horas no celular. Vejo que tem algumas atualizações nas redes sociais. Vejo os comentários de animação, os nomes em azul riscado, conheci todos logo de cara, o meu não está ali. Acho que esqueceram de pôr, ou nem deu tempo. Mais uma foto. São três deles bebendo na casa de um quarto conhecido. São amigos meus do trabalho, bebendo juntos antes da festa. Eles devem morar próximos também, porque é aqui no prédio da frente do meu. Acho que eles vão dali mesmo, vou perguntar. Enquanto espero eles responderem vou ver se os outros já estão lá. Ligo. Ninguém atende. Tento outro. Também não. Devem estar ocupados. Meu vizinho respondeu. Ele é bacana, trabalhamos juntos e ele, às vezes, fala comigo. Respondeu que já estão indo. Respondo em pergunta se podem me esperar descer. Diz que não tem vaga no carro. Hum, okay. Uma live acontece na outra rede: estão correndo na garagem do prédio. Um, dois, três carros para quatro pessoas. Apago as luzes do apartamento devagar como sempre. Olho pela janela todo aquele movimento lá embaixo. Bem que eu poderia ser um deles. Poderia. Eles se conversam no vídeo falando todos que estarão na festa e não falta ninguém. Claro que nem cogitam o meu nome, isso é tão óbvio. Deixo o celular de lado e volto ao banho. Tirar o tênis, a calça, a camisa bem passada, ficar completamente nu(a) para tirar o cheiro do perfume que convida. Não me demoro. Ponho meu pijama e deito. Ficarei assistindo toda a festa acontece até conseguir dormir, geralmente é isso que acontece. Ninguém sentirá minha falta e, na segunda-feira, quando por acaso me esbarrar com algum deles, apenas o meu amigo que fica exatamente na mesa do lado vai comentar algo depois de perceber que não fui. Na verdade, ele vai perguntar o que eu achei da festa, pois nem ele vai sacar que não fui. Assim, de maneira invisível, como o rubor da noite, será mais um sábado. Não fico triste por ficar só enquanto a noite está acompanhada, fico triste por fingirem se importar. Acredito que o que mais esfria a minha noite agora não é a brisa fria de fim de maio, nem a possível garoa tardia. O que desaba qualquer calor em minha cama é o molhado no travesseiro que fica até eu conseguir dormir. Quem sabe no próximo final de semana eu vá para algum lugar também? Quem sabe alguém apareça aqui em casa para algo trivial? Quem sabe eu consiga dormir cedo em vez de chorar, tentando secar a solidão?

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