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Mostrando postagens de Maio, 2017

Silberhoch

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Rabiscando as alegrias, recortando as dores e colando o coração. Foi assim que decidi continuar com a arte de amar. Dizem que quando não se espera muito, tudo pode acontecer. E, pensando nisso, me distraí olhando o desejo se dissipar. Já não me importei com o que havia dito outrora, ou o que tinha feito, e para onde passara. Me desliguei quase que completamente. Esperava algo novo e formidável acontecer. Esperava, por outro lado, que acabasse logo e que tudo voltasse a como era antes. Confortável. Previsível. Padronizado. Continuo rabiscando algumas coisas. Uso minha pele como papel. Às vezes, também risco as paredes em confusão. O que me restou para dizer eu nem tento. Tomei vergonha e passei à arte, que me salva, tudo aquilo que me vem, tudo aquilo que se foi também. Não tenho pressa nem precisão. Agradando a mim, como única forma de paixão plena. Deixando pelos por todos os lados. Pelos cantos, pelos pretos, pelos brancos, pelo povo. Pelado, sigo com a alma sofrida. Mastigando a pr…

De E. E. Cummings

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Eu gosto do seu corpo Eu gosto do que ele faz Eu gosto de como ele faz Eu gosto de sentir as formas do seu corpo Dos seus ossos E de sentir o tremor firme e doce De quando lhe beijo E volto a beijar E volto a beijar E volto a beijar

Elysium

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Quando eu saltei já tinha mudado a playlist. Passei por minutos arrastados, sob chuva e trânsito, tentando brasar um clima fosco. A precipitação acelerou meus passos, um pulo aqui e outro ali. Sem cólera ou maldição, fui me deslocando de maneira calculada, fugindo o máximo que pude. A tormenta açoita a cidade como nunca antes. E, como bom escoteiro, fui desviando da problemática sempre que possível. O clima não era o meu forte, porém aceitava desde cedo que seria um dia molhado. Ao saltar a língua que formava pequena correnteza, o piano tocou aos meus ouvidos, a chuva se coloria e me convidava ao sorriso. A água gelada que caia em minha cabeça me esquentava e tudo ficou lento, as árvores davam "bom dia" balançando vagarosamente para lá e para cá. Não havia ninguém para contemplar a chuva, as poças que se formavam, o verde que crescia em pequenas rachaduras no concreto, tampouco o esfumaçado céu. É por motivos assim, para sorrir do nada, aproveitar os poucos segundos que seri…

Céu

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Olho para o céu esperando algo acontecer no meu firmamento. Camadas. A tempestade que se aproxima aqui dentro não consegue ser dispersada pela luz do sol daqui de fora. Saboreio meu café lentamente. Sorvendo preciosamente cada gole, como um pensamento em resoluto que irá perdurar miseravelmente por um tempo desbravador de tristezas. Em pensar que, a ventania nem corrobora com o clima. Era para estar um ambiente lamentável, mas está tão agradável. Você deixou meu dia assim. E, talvez esse seja o teu dom. Você me disse que não sabe fazer nada, não tem dom para nada além do desastre. Talvez teu dom seja cuidar de outra pessoa. Fazê-la sentir-se bem. Sei que me sinto bem e isso não consigo fazer por si. Sabes que a sinceridade é o meu forte, sabes sim. Me pergunta "como vai" e não aceita um "tudo bem e você?" como resposta. Você fica e quer saber tudo, o melhor e o pior, quer saber se algo incomoda, se eu quero incomodar também. Quer aprender e ensinar. Quer fazer que …

A Festa.

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Passei a camisa para estar impecável quando tirar as fotos. A calça já vestida combinada com os tênis de cano alto. Dobrei as mangas com precisão, alinhei os botões. Dentes escovados, perfume nos estratégicos lugares e cabelo arrumado. Meu corpo estava pronto para uma noite com os amigos, e os amigos dos amigos, e os conhecidos estranhos de sempre. Sabe, todas as festas que acontecem por aqui são iguais, nenhuma vale a pena ir, mas todas arrastam histórias memoráveis e dignas de prestígio. Já tinha se passado umas duas horas desde quando recebi o convite para a tal festa. Fico bem contente quando eles me convidam, isso porque ninguém jamais me chama para nada. Nunca mesmo. Mas dessa vez vai ser diferente. Eles mandaram o convite, indicaram o local e disseram que todos irão se encontrar lá na entrada do evento. Confiro as horas no celular. Vejo que tem algumas atualizações nas redes sociais. Vejo os comentários de animação, os nomes em azul riscado, conheci todos logo de cara, o meu nã…

Muito prazer, me chamam de Otário.

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Com a mão estendida continuei por três segundos. Com um sorriso catedrático e um semblante caricato, tento não expor a incredulidade espontânea. "Nós nos já conhecemos", você afirmou desvinculando qualquer cordialidade. Retirei do vazio o punho já fechado, sem titubear, voltei a contar os pigmentos de céu. Se fosse outra pessoa, ficaria a tentar ser deveras gentil, mas não era o caso. Nós realmente já nos apresentamos e, muito embora, nunca conversamos ou conversaremos, fico a torto pensar se realmente fiz certo. Certo não,  necessário. Uma vez que somos apresentados, fixa-se uma concórdia de amistosa reciprocidade. E falando em reciprocidade, ainda não descobri porquê Minerva me odeia tanto. Acredito que nunca saberei. Atenção. Ela vai sair. Preparou-se para retirada de maneira religiosa e, cultuando a educação e polidez, se despediu sendo agradável como costume. "Você vai também, não é?", respondi e eles se entreolhavam: OTÁRIO, diziam entre si. Sem nenhuma sílab…

Infecto

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A foto trazia uma felicidade destemida. Não havia nada além de nós dois, em posição amistosa, eu estou projetado a tua frente, quase que abraçado, um pouco a cima está o teu sorriso, um pouco abaixo minha sobrancelha arqueada típica. A foto trazia uma felicidade saudosista. Não parece que somos tão distantes assim. As idades distantes, épocas distintas, moradas quilometradas, sonhos atmosféricos. O semblante pode até convencer, mas quando menos esperar ele vai acontecer. O burburinho já ouço ao fundo, como um turbilhão se formando de leves ondulações na crosta da pele, tomando por impulso ao estilo alienígena gangrena mortal. Surrupiando a intenção voraz de apenas estar ali, levanto instintivamente para sobreviver. Você não entende. Nunca vai entender. Todos olham e julgam, é assim, quase que o tempo todo. Quando você tem a marca, todos já sabem o que esperar de você, não podem confiar, não devem. Somos segregados para nossa própria proteção, ele diz ao entregar os frascos, um de manh…

Moonlight às 15 horas.

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E não chegamos ao consenso se detalhes são importantes ou não. Ou melhor, chegamos e você ficou com medo de admitir que será fatal, pois o detalhe dependerá sempre da perspectiva de quem observa. Os minimalistas adorariam essa cena. Afinal de contas, como se não ousasse interromper o dito, apareceu como se fosse costumeiro, ali, banalizando qualquer cordialidade. E, sabendo que a invasão me afeta profundamente, não disse "boa tarde", "olá", ou qualquer coisa que demonstrasse interesse ao diálogo. Assim, manifesto aqui meu repúdio a sua ofensa tácita e articulada quando batia corpo na pessoa do lado, incomodando-a e me incomodando ao perceber que era deveras proposital. Clamei pela mudança, ignorando o fato de ser ignorado e, como em um desafio de poder, questionou o motivo, talvez quisesse que eu falasse que estivera sendo incomodante, talvez quisesse que eu falasse que estavas agindo com rudez, porém, admitindo e controlando aquela sensação que sempre me toma por …