Sensibilidade


Caído, aos prantos, soluçando e berrando como se isso fosse aliviar a dor. A cena é tão ridícula que a raiva consome mais e mais. Os socos no chão, deliberadamente, machucam algo tão menor quanto deveria. Queria estar no teu lugar agora. Queria ser qualquer outra pessoa, mas não posso. Não consigo. Tudo se move. Um balanço pertinente ao convés dessa embarcação falida e deteriorada que chamo de vida. A crise é deveras pertinente. Não consegui chegar ao chuveiro e me afogar nas minhas próprias lágrimas. Sucumbi, aqui, no chão da sala que não merecia. Os móveis fintando a ingratidão maciça dos meus dedos machucados de rancor. Tento buscar no catálogo mental algum livro de autoajuda que me faça querer parar de viver isso. Não me vem nada. Não enxergo nada além do leve enjoo a bombordo. O suor canalha desce com vontade, as mãos tremem desleixadamente, e eu não consigo relaxar, meu olhar se projeta para o nada. Vejo tudo em maré alta, chove em minhas roupas, o chão inundado de mentiras. Se não soubesse de todas minhas mentiras, eu viveria despreocupado. Esmigalho o último ar de bem-querer que tentou viver. Quebrar não adianta, falar já é desmerecido, então fico aqui, projetado em joelhos no chão, uma estátua de piedade ao haraquiri. O descontento é febril e visceral. Sei que é tarde demais para voltar, não há manual que eu possa seguir, não há experiência para comparar, não tem nada que eu possa fazer, nunca direi “eu te amo”. Agora, com menos clamor, respiro fundo, e volto ao mantra pessoal de falsas verdades: vai ficar tudo bem; isso é normal; ninguém se importa com isso; estou bem. A solidão me parece tão bem-vinda, tão despojada. Não faz pergunta difícil, não nos julga com o olhar, não nos força a mentir descaradamente. E, vai ver é por isso que me sinto naufragando, sei que vai doer, vai durar com potência este sofrimento que cultivo por não ser igual aos outros. Aos que sorriem com motivo, aos que abraçam por querer, aos que abrem embalagens com desdém, aos que comem frutos do mar, aos que gritam o nome do outro, aos que discutem por ciúmes, aos que amam verdadeiramente. A mágoa, hoje, está bem mais do que qualquer dia, tudo isso porque eu fiquei cansado de fingir que estava bem. Fiquei irritado tempo suficiente para dizer a qualquer um que não dá mais. Algo tinha que acabar. Me acabei. Acabei com a gente. Acabei com eles. Me acabo todos os dias. Por isso não sorrio como antes, não danço ao comer algo que gosto, não leio as palavras do teu corpo, não tenho vontade de mais nada. E mendigar apoio ou incentivo não faz parte de mim. Na verdade, a decadência muito me atrai, considero até charmoso e, este meu maior defeito, ser um não-neurotípico me faz querer esquecer tudo. Chegando ao fim, hipersensibilidade atroz. 

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