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Mostrando postagens de 2017

NeonDawn

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O holograma de ontem sorri, dá uma piscadela e me convida a segui-lo. Iremos almoçar. O holograma vai sozinho, acompanha em silêncio se eu estiver para o silêncio, acompanha em conversa se eu estiver para conversa, acompanha sempre aos cuidados de. O holograma é um fantasma que aparece durante todo o meu dia. É um exercício resolvido ao som de Pearl Jam, uma ida ao Shopping para ver cartas do Pokemon, é um parceiro calado. O Holograma era você, e toda sua feição em me fazer bem. Sei de tudo isso porque eu vivo Rhye - The Fall: as nuances, os movimentos, e a melodia da madrugada.   A melodia se estende por muito. Ouço as mesmas músicas, nas mesmas condições. Ultraviolence quando triste, MDNA quando em dias de sol, várias playlists específicas para cada momento. O banho antes de sair de casa é programado, o banheiro que nunca usei é evitado, a praia é jurada em visita, os dedos nunca mais se entrelaçam. A madrugada também traz algo que açoita o sono, ela amargura mais que o preto que aqu…

Tempos de Cinzas.

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Eu sabia que não era uma boa ideia, mesmo assim, arrisquei quebrar o protocolo que tento criar para poder fazer as refeições sem pragmatismos. Acendeu de maneiro costumeira, "@X curtiu sua foto", e após 15 segundos, tempo suficiente para a notificação expirar, "@X curtiu sua foto", e assim se fez outras vezes. Eu já havia desistido de capturar as notificações e te aconselhar a respondê-las de pronto. Porque tem horas que pequenas coisas significam muito, e tantas outras vão além do nosso poder de pedir. Mirei a refeição seca, comi o melhor que pude, e deixei correr os diálogos que me atraem. Sempre que surge algo interessante, o massacre é quase que unânime. Todos ao redor ficam desdenhando, satirizando e calando conversas com teor atrativo. São chatices que ninguém quer saber, dizem eles. Eu continuo calado. Aprendi a ficar calado depois de perder muitos bons contatos. As pessoas não querem saber sobre meus gostos, sobre o que faço de melhor, ou outras teorias que…

Demente.

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Como atividade lúdica, ele me disse para escrever uma palavra por dia. Aquela palavra que me disseram em adjetivo. A palavra será um guia para redefinir meu eu e transparecer a minha pessoa através de outros olhos. Colocando em prática, peguei alguns post-its e passei a colar na parede de casa. Um por dia. Como um mapa em prefácio. Até agora poucos borrões amarelados com palavras de familiares. Tentarei seguir ao menos por um período de testes, uns dois ou três meses, depois recolherei todos em ordem e seguirei para próxima fase.

Adaptação

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Deve haver um mundo onde você possa caminhar entre as flores, entre os amores, entre as cores de aurora. Deve haver vida além da escuridão. Se não houver, acostume-se. Acostumei a dar de ombros, a ficar calado em vez de explicar, acostumei a não precisar sempre, a não querer tanto, acostumei a ficar sozinho, a fazer sempre a mesma coisa. Se o rascunho falasse por si, você certamente saberia os quilos de tinta preta que se despeja por entre as noites de frio. As letras se derrubam, se trespassam, se matam por aparecer e não sucumbir ao vazio que são as noite de chuva. O som da melancolia é sabido pelos vizinhos que tentam sorrir param mim quando passo por eles na sorte. Tentam dizer que Deus me ama, que o dia está lindo, que a economia vai melhorar... são tantas esperanças viscosas que são diluídas pelas paredes falantes que contam as verdades. Ouço cada um deles confessar o contrário quando estão salvos de si, no calar da noite, na depuração dos sonos, todos tolos durante o dia, todo…

A pausa.

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Entre as atividades é sempre bom dar uma pausa. Na cultura grega, tiramos uma hora do dia, durante a semana, para pensar nas coisas. Pensar na vida, em tudo o que nos acontece, e também no nada. Fluindo o pensamento e relaxando em vez de dar aquela ansiedade nos problemas. Pausar para pensar no momento, no agora, no eu. Há quem confunda a pausa com o cochilo, com a preguiça, com a paranoia e o descontrole. Tudo errado. Pausa é aquele suspiro que alivia, é aquele molhar pés no mar, é aquele gole num vinho esperado, é uma risada com alguém que não vemos há muito tempo. Pausar também não pode se demorar, não pode se esticar uma pausa ou logo de dará lugar ao procrastinador hábito perigoso.


Lápide.

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Ainda é cedo e, para quem dorme próximo das quatro da manhã, um sms não é nada às vinte e duas horas. O problema de entrar em um turbilhão é quando não se sabe sair dele. Justamente assim, começou o final de semana. A minha vontade era levantar todas as questões que se desenvolveram com a seguinte frase "vou fazer aquilo que te disse que não faria", e o flashback de promessas, juras e afirmações brotaram nas paredes como post-its. O que se deve esperar de alguém que tem atitudes contraditórias declarando que vai fazer isso propositalmente? Sinceramente, eu espero tudo e qualquer coisa. E, por mais que seja previsível, a única pessoa que vai sofrer com isso é aquela que não saberá lidar com as consequências dos atos (im)pensados. Se você, leitor(a), acredita piamente que vai carregar o peso dos ecos do teus atos sem reclamar, enfrentando numa boa, dou-te parabéns e siga forte. Porque, se o arrependimento surgir, aí terás um problema exclusivamente teu. Não terá choro ou rang…

Caprese

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Quando a revolta é maior do que o medo de sair, é justamente quando as coisas inimagináveis podem acontecer. Nem pensei duas vezes ao fechar a porta, deixando para trás um escarcéu efusivo, apenas queria ir para qualquer lugar que não fosse minha casa. Geralmente, as pessoas comuns querem deixar tudo e ir à casa como refúgio perfeito. Comigo é justamente o contrário, parece que o barulho do mundo é mais silencioso do que aqui dentro.   A chuva castigava a cidade como outrora, entretanto não seria isso que pararia a vontade de fugir. Uma vontade máxima que evolui com o passar da vida. A cada dia, a cada minuto, mais e mais vontade de apenas sumir. Ser arrebatado por uma ordem superior, aliens, ou seja lá o que for. E foi assim que segui o mantra até o ponto de encontro. Uma frase reiterada de que o novo poderia ser melhor do que eu já tinha até ali. Segui com receio preso na garganta, quebrando um, dois, três pontos de segurança. O frio não me deixava mostrar que eu suava de nervoso, as…

Peguei estrada ao amanhecer.

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O dia ameaçava acordar enquanto nos preparávamos para partir. Era quase cinco da manhã quando olhamos para a vida fora de nós. Tudo aqui se repetia de uma maneira não-natural. A mesma noite em forma de comemoração que se prolongou, arrastando-se para laços eternos. Talvez você nem lembre disso por agora, mas eu não me escuso de nada. Os passos foram dados bem conforme o mesmo contexto. O ambiente, as pessoas, a iluminação composta, os livros moldados, as cores do céu e a inexplicável maneira destrutiva de dizer adeus. Sempre me vejo padronizando os acontecimentos, como forma de autoproteção. E, como sempre, comparei tudo o que houve conosco, e os motivos pragmáticos para te dizer, caso eu tenha chance, que dessa vez não farei diferente. O fim já é tão esperando quanto um clichê de Hollywood. Aí você deve se perguntar: será que vale a pena passar pela mesma coisa? Será mesmo que é a mesma coisa? Quais os riscos, perdas e ganhos? Bem, eu sei que eu me perguntei muito. Me perguntei até ir…

O dia histórico.

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[Texto perdido, pedaços encontrados]
Hoje, sete de junho, o dia histórico deste ano. Bem, ao menos, até agora. O dia de férias, aquele dia perfeito, mesmo que pensando que não seria tão bom assim quando saí de casa, o dia que ficará nas nossas mentes e fotos para sempre. Um dia inesquecível. Muito sol, areia quente, risadas motivadas, praia convidativa, bebidas e cigarro, brisa. E claro, ao lado de pessoas que gosto infinitamente, e a cada dia agradeço por tê-las ao meu lado. Um dia que eles lembrarão como história, como marco de que após tanta chuva, problemas, a tempestade uma hora finda e estaremos juntos, para compartilhar nossas desaventuranças. Você lendo assim, me diz se não dá uma ponta de inveja, dá sim que eu sei. O dia histórica, com alegria e festividade foi para outra pessoa, não para mim. Eu não sou esse tipo de cara que tem esse tal dia histórico que clareou teu dia. Não, não. Meu dia histórico não teve nada a ver com isso. Na verdade, esse marco crucial de sete de junho …

Se você quer ser um guitarrista do Iron Maiden

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Extravagâncias, amantes, dívidas, separações, alegações de incesto, morte por febre, se você quer ser um guitarrista do Iron Maiden tem que carregar consigo um Lord Byron. Tem que ser antigo como são antigas a bactéria, a chaga de Cristo e tudo o mais que a medicina não deu cabo. De teu motor valvulado, corrosivo e perecível você tem que extirpar cadeados de lamentos, cruz e sacrifícios. Você tem que ser teu próprio pronto socorro, da selvageria que é a vida, do osso quando arrebentam pancadarias na arquibancada, uma taça feita de crânio, as perfurações, as úlceras, as lesões, as ofensas, as injurias, os agravos. Você tem que saber que não é invulnerável, que vão te fazer a corte e os cortes, nunca as suturas. Você é antigo na dor, faz de sangrias coaguladas o teu pranto. Você colocou a mão esquerda na labareda, deu-a de bandeja à palmatória. Com a outra você cometeu haraquiri. E o show ainda nem chegou na metade
Por: Luiz Felipe Leprevost

Silberhoch

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Rabiscando as alegrias, recortando as dores e colando o coração. Foi assim que decidi continuar com a arte de amar. Dizem que quando não se espera muito, tudo pode acontecer. E, pensando nisso, me distraí olhando o desejo se dissipar. Já não me importei com o que havia dito outrora, ou o que tinha feito, e para onde passara. Me desliguei quase que completamente. Esperava algo novo e formidável acontecer. Esperava, por outro lado, que acabasse logo e que tudo voltasse a como era antes. Confortável. Previsível. Padronizado. Continuo rabiscando algumas coisas. Uso minha pele como papel. Às vezes, também risco as paredes em confusão. O que me restou para dizer eu nem tento. Tomei vergonha e passei à arte, que me salva, tudo aquilo que me vem, tudo aquilo que se foi também. Não tenho pressa nem precisão. Agradando a mim, como única forma de paixão plena. Deixando pelos por todos os lados. Pelos cantos, pelos pretos, pelos brancos, pelo povo. Pelado, sigo com a alma sofrida. Mastigando a pr…

De E. E. Cummings

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Eu gosto do seu corpo Eu gosto do que ele faz Eu gosto de como ele faz Eu gosto de sentir as formas do seu corpo Dos seus ossos E de sentir o tremor firme e doce De quando lhe beijo E volto a beijar E volto a beijar E volto a beijar

Elysium

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Quando eu saltei já tinha mudado a playlist. Passei por minutos arrastados, sob chuva e trânsito, tentando brasar um clima fosco. A precipitação acelerou meus passos, um pulo aqui e outro ali. Sem cólera ou maldição, fui me deslocando de maneira calculada, fugindo o máximo que pude. A tormenta açoita a cidade como nunca antes. E, como bom escoteiro, fui desviando da problemática sempre que possível. O clima não era o meu forte, porém aceitava desde cedo que seria um dia molhado. Ao saltar a língua que formava pequena correnteza, o piano tocou aos meus ouvidos, a chuva se coloria e me convidava ao sorriso. A água gelada que caia em minha cabeça me esquentava e tudo ficou lento, as árvores davam "bom dia" balançando vagarosamente para lá e para cá. Não havia ninguém para contemplar a chuva, as poças que se formavam, o verde que crescia em pequenas rachaduras no concreto, tampouco o esfumaçado céu. É por motivos assim, para sorrir do nada, aproveitar os poucos segundos que seri…

Céu

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Olho para o céu esperando algo acontecer no meu firmamento. Camadas. A tempestade que se aproxima aqui dentro não consegue ser dispersada pela luz do sol daqui de fora. Saboreio meu café lentamente. Sorvendo preciosamente cada gole, como um pensamento em resoluto que irá perdurar miseravelmente por um tempo desbravador de tristezas. Em pensar que, a ventania nem corrobora com o clima. Era para estar um ambiente lamentável, mas está tão agradável. Você deixou meu dia assim. E, talvez esse seja o teu dom. Você me disse que não sabe fazer nada, não tem dom para nada além do desastre. Talvez teu dom seja cuidar de outra pessoa. Fazê-la sentir-se bem. Sei que me sinto bem e isso não consigo fazer por si. Sabes que a sinceridade é o meu forte, sabes sim. Me pergunta "como vai" e não aceita um "tudo bem e você?" como resposta. Você fica e quer saber tudo, o melhor e o pior, quer saber se algo incomoda, se eu quero incomodar também. Quer aprender e ensinar. Quer fazer que …

A Festa.

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Passei a camisa para estar impecável quando tirar as fotos. A calça já vestida combinada com os tênis de cano alto. Dobrei as mangas com precisão, alinhei os botões. Dentes escovados, perfume nos estratégicos lugares e cabelo arrumado. Meu corpo estava pronto para uma noite com os amigos, e os amigos dos amigos, e os conhecidos estranhos de sempre. Sabe, todas as festas que acontecem por aqui são iguais, nenhuma vale a pena ir, mas todas arrastam histórias memoráveis e dignas de prestígio. Já tinha se passado umas duas horas desde quando recebi o convite para a tal festa. Fico bem contente quando eles me convidam, isso porque ninguém jamais me chama para nada. Nunca mesmo. Mas dessa vez vai ser diferente. Eles mandaram o convite, indicaram o local e disseram que todos irão se encontrar lá na entrada do evento. Confiro as horas no celular. Vejo que tem algumas atualizações nas redes sociais. Vejo os comentários de animação, os nomes em azul riscado, conheci todos logo de cara, o meu nã…

Muito prazer, me chamam de Otário.

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Com a mão estendida continuei por três segundos. Com um sorriso catedrático e um semblante caricato, tento não expor a incredulidade espontânea. "Nós nos já conhecemos", você afirmou desvinculando qualquer cordialidade. Retirei do vazio o punho já fechado, sem titubear, voltei a contar os pigmentos de céu. Se fosse outra pessoa, ficaria a tentar ser deveras gentil, mas não era o caso. Nós realmente já nos apresentamos e, muito embora, nunca conversamos ou conversaremos, fico a torto pensar se realmente fiz certo. Certo não,  necessário. Uma vez que somos apresentados, fixa-se uma concórdia de amistosa reciprocidade. E falando em reciprocidade, ainda não descobri porquê Minerva me odeia tanto. Acredito que nunca saberei. Atenção. Ela vai sair. Preparou-se para retirada de maneira religiosa e, cultuando a educação e polidez, se despediu sendo agradável como costume. "Você vai também, não é?", respondi e eles se entreolhavam: OTÁRIO, diziam entre si. Sem nenhuma sílab…

Infecto

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A foto trazia uma felicidade destemida. Não havia nada além de nós dois, em posição amistosa, eu estou projetado a tua frente, quase que abraçado, um pouco a cima está o teu sorriso, um pouco abaixo minha sobrancelha arqueada típica. A foto trazia uma felicidade saudosista. Não parece que somos tão distantes assim. As idades distantes, épocas distintas, moradas quilometradas, sonhos atmosféricos. O semblante pode até convencer, mas quando menos esperar ele vai acontecer. O burburinho já ouço ao fundo, como um turbilhão se formando de leves ondulações na crosta da pele, tomando por impulso ao estilo alienígena gangrena mortal. Surrupiando a intenção voraz de apenas estar ali, levanto instintivamente para sobreviver. Você não entende. Nunca vai entender. Todos olham e julgam, é assim, quase que o tempo todo. Quando você tem a marca, todos já sabem o que esperar de você, não podem confiar, não devem. Somos segregados para nossa própria proteção, ele diz ao entregar os frascos, um de manh…

Moonlight às 15 horas.

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E não chegamos ao consenso se detalhes são importantes ou não. Ou melhor, chegamos e você ficou com medo de admitir que será fatal, pois o detalhe dependerá sempre da perspectiva de quem observa. Os minimalistas adorariam essa cena. Afinal de contas, como se não ousasse interromper o dito, apareceu como se fosse costumeiro, ali, banalizando qualquer cordialidade. E, sabendo que a invasão me afeta profundamente, não disse "boa tarde", "olá", ou qualquer coisa que demonstrasse interesse ao diálogo. Assim, manifesto aqui meu repúdio a sua ofensa tácita e articulada quando batia corpo na pessoa do lado, incomodando-a e me incomodando ao perceber que era deveras proposital. Clamei pela mudança, ignorando o fato de ser ignorado e, como em um desafio de poder, questionou o motivo, talvez quisesse que eu falasse que estivera sendo incomodante, talvez quisesse que eu falasse que estavas agindo com rudez, porém, admitindo e controlando aquela sensação que sempre me toma por …

Algodão ou Frutas Vermelhas?

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Não havia resposta certa. O ato decisório é sempre instigante, ora pelo custo de oportunidade, ora por tentar agradar. E, com incerteza em demasia entre estes dois, aceitei a opção cítrica. Ao optar por algo com querer, não visualizamos o predicado que acompanha, então podemos errar sem querer. E, intencionalmente, houve a mensuração do desagradável, a desatenção ou moribunda tentativa de acerto, corroeu o cotidiano. Quebrou, de maneira abrupta, toda e qualquer certeza de que tudo estava bem posicionado. E nesta assíntota de valor, pereci no velho dilema de o que são acertos e erros mediante os valores tão específicos. Mais que uma maneira de enxugar partes, um rito de controle, que invariavelmente vai incomodar. Sempre incomoda. Adito ainda que, em circunstâncias tradicionais, eu apenas aceitaria a condição robótica de ser, entretanto, ao invés disso, navego em águas confusas de tentar ser humano também. O pior é quando esta conceituada insegurança é alvejada com comparativos (ir)rac…

Eu gosto é de pornô!

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E, embora não fosse sobre ela, mas veio a calhar com perfeição. Mudando o título por diversas vezes, me peguei com este que me foi dado de maneira sincera. Não contemplando o vulgar, mas a singularidade de interesses, o elogio conjecturava a plataforma de inércia e efetividade ocultista. Ela, com seus ossudos e compridos dedos de estalactite brilhante, expôs, de causa, aquilo que retrucou de início. Passando de um para o outro, como um cigarro de torpor, ficamos a divagar e discutir aos contentos do acaso. Se isto fosse um conto jornalístico, seria aqui lido seu depoimento "Não quero ir porque não quero ir". E essa é a maneira da inquietude de permanecer. Ela apenas não foi para onde deveria, para o que veio pronta, e não houve culpa ou remorso. Ela usou da absorção cósmica para aceitar que ela tem o controle das escolhas. Talvez, você esteja no mesmo ponto que eu, quando ela veio dizer que a tristeza era algo ruim, e sua transmissão poderia ser corrosivamente destrutiva. Nã…

Giramundo

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Desculpe dizer que não percebi onde você queria chegar verdadeiramente quando focou a folha. Rotacionei vagarosamente o aparelho, como se por algum motivo fosse despertar ali aquilo que em ti brilhava o olhar. Mordi a boca por dentro, sabia que não ia conseguir. Olhei para os lados, te devolvi a máquina. Engoli o seco quando disse que pra mim estava boa. Envergonhado, baixei a vista e sentei como se descarregasse meia tonelada das costas. Senti que vinha um monólogo prático de como não dou valor para tuas coisas, para os teus gostos e hobbies. Você ainda olhava feliz para imagem no monitor, era uma conquista que nenhum outro tinha conseguido. A captura perfeita de algo que em ti brotou figura tridimensional e disse "Aqui! Estou aqui!". Sem graça, observo o quanto aquilo te significa. Vejo as poses engraçadas que fazes quando clica e clica. "Essa não ficou boa", você diz, ajoelha-se, aponta novamente, mira com cautela como se fosse atacado a qualquer momento pela ví…

Sensibilidade

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Caído, aos prantos, soluçando e berrando como se isso fosse aliviar a dor. A cena é tão ridícula que a raiva consome mais e mais. Os socos no chão, deliberadamente, machucam algo tão menor quanto deveria. Queria estar no teu lugar agora. Queria ser qualquer outra pessoa, mas não posso. Não consigo. Tudo se move. Um balanço pertinente ao convés dessa embarcação falida e deteriorada que chamo de vida. A crise é deveras pertinente. Não consegui chegar ao chuveiro e me afogar nas minhas próprias lágrimas. Sucumbi, aqui, no chão da sala que não merecia. Os móveis fintando a ingratidão maciça dos meus dedos machucados de rancor. Tento buscar no catálogo mental algum livro de autoajuda que me faça querer parar de viver isso. Não me vem nada. Não enxergo nada além do leve enjoo a bombordo. O suor canalha desce com vontade, as mãos tremem desleixadamente, e eu não consigo relaxar, meu olhar se projeta para o nada. Vejo tudo em maré alta, chove em minhas roupas, o chão inundado de mentiras. Se …

Massivo

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Apressadamente. Essa poderia ser a palavra resumo de tudo o que acontece: apressadamente. Tudo ficou rápido, o relógio de pulso marca 22 horas e não mais 24 como era na ultima década. Instantânea foto, vídeo, documento, vida. Tudo na hora, pronto, fastfood,fastfoda. Delicado se tornou assunto banal, e outras palavras como calma, calmaria, esperar, relaxar, desfrutar, brisar, marasmo, pacato e todos esses derivados e sinônimos que nos traz paz foram revogados tacitamente. São trabalhos vários, um atrás do outro, sem pausa, sem prosa. Estudos, pesquisas, trabalhos, conversas, saídas, encontros. De segunda a segunda, apenas saberemos que as datas passam porque vem carnaval, aniversário, virada de ano, páscoa, são joão, pais, mães, natal, férias, não nessa ordem, mas ordenadamente grafados na tabela de coisas para entregar/fazer. Tudo marcado em folha, no alarme do celular, nada pode se perder. E o que seria da criatividade se não fosse a pressão? Pressionando os dedos nas têmporas, tento…

Pela janela

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A inundação de luz sempre me chama atenção. Até mesmo o banhar da escuridão me atrai. É como se houvesse sempre um deságue de cores ou sua falta. As janelas permanecem abertas, com chuva ou sol, os ventos do leste sopram ao desidério. Observando os cidadãos do mundo e suas interações, sinto como se pudesse me ver da próxima esquina, aceno como resposta do campo de visão. Remexem as folhas da árvore vizinha, no quintal de trás. Farfalham a cada sopro de Abril. Flores se suplicam ao amanhecer e depois perecem, decaem na resiliência pragmática, ninguém sabe que elas afloram às 4:32 da manhã, sempre antes dos primeiros raios do sol. O tempo de vida é rápido, pois os pássaros e insetos já sabem que a melhor seiva, o melhor néctar é sempre ao florescer, quase que imediatamente após. Até então, nada de ninguém à vista, todos em suas capsulas maternas, oikos em colmeia. As sombras postam formas durante todo o dia, um convite para quem gosta de capturas. Gosto de vê-las rodopiar pelo recinto, …

Nuvens vermelhas.

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Ao abrir as janelas me deparei com uma saudade. Vi as nuvens avermelhadas de outrora. Eram grandes e volumosas, pareciam pesadas, mas andavam tão rápido quanto meu pensamento. Vi que ali poderia ser um ótimo lugar para pôr a cama, como antes, como quando eu dormia e via as estrelas. Lembro da época que as estrelas cintilavam até eu desfalecer em sono, lembro da passagem da lua, lembro dos raios do sol da alvorada, e do crepúsculo, lembro das cores e dos ventos. O rubro que sustenta o firmamento me entrega uma vida ligeira onde fui, deliberadamente, feliz. Não apenas pela própria experiência, tampouco pelas atividades inovadoras, mas também pela pressa que foi. Em pensar que um ano foi resumido em algumas poucas memórias, acontecimentos e aprendizagem. Parece que foi ontem que cheguei em casa pela primeira vez, abri as janelas do quarto, finalmente o quarto que poderia dormir sem temer alguém mexer nas minhas coisas, aparecer para falar algo de irrisório ou o barulho externo sequestrar…

Eita

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E, embora a tempestade tivesse se dissipando, percebi que pela manhã, logo ao acordar, o barulho da precipitação ainda ecoava pelas paredes. Arranhando as sombras em perseguição dos ouvidos de quem ousava acordar. Era um dia nublado, o quarto escuro se iluminava ao leve toque do celular avisando SMS. Tão retrô isso de SMS em tempos de mensagens de mídia, não é mesmo? Fiquei paquerando aquelas letras tão únicas, finalizadas com pontos específicos de agrado. Sim, eu percebo que quando a gente pede com jeito e se mostra importante pode-se fazer detalhes se firmarem, nem que seja por mero agrado. O texto era impreciso, dizia o contrário da proposta inicial, mas não retruquei, segui o fluxo comum do dia, não queria deixar mais contragosto. Eu queria te falar muito, mas respeitei a noite, o silêncio, as possíveis questões familiares e minha insônia que me aguardava ansiosamente. A noite se alongou em marasmo, ora calor, ora frio, como se nada valesse a pena, tampouco ousasse querer.  E, emb…

Rosa Norte

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A ansiedade sempre toma conta ao esperar o ponteiro encontrar o norte. Vem um envolto ribombante de agonia, expectativa e frustração, tudo junto e ao mesmo tempo. Mesmo se consolidando como mero anseio, sinto que vomitarei a qualquer momento. Em pensar que nas mãos tenho a capacidade comprovada do caminho a percorrer, porém no peito me draga a fonte misteriosa de confusão e, claro, na mente apenas a ideia absurda e ultrapassada de que tudo dará errado e tomarei a pior das decisões. Esta é a hora que o mecânico não funciona, vejo acontecer. A agulha gira, treme, teima, mas não aponta a direção correta, aquela que tanto espero por resposta, aguardo mais um pouco. Respiro fundo como se adiantasse alguma coisa. Nada muda. As mãos firmes começam a padecer. Aperto o compasso e sinto a vibração das escolhas, já tenho que decidir, mesmo sem rumo. Preciso te dizer para onde vou e para onde não, ainda que sem respostas para tal, meço os passos para não derrubar nenhuma ideia antiga, nem suspend…

Deixe acontecer.

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Tudo sobre mim. Tudo sobre mim.  Era tudo sobre mim.  Eroticamente, pus as mãos na abotoadura da bermuda e te olhando fixamente, baixei-as tão devagar quanto pude. Um pé suspendeu para que logo o outro pudesse se livrar do pano que vos chamava atenção. E na minha cabeça, tudo era erótico. Você não pisca, não se move. Tacitamente aceita minha presença ali, nas areias que um dia ninguém conhecia. Você, estranho que nunca se esbarrara comigo antes, estava no lugar que nunca estive, e descobriu meu crime. O que mais poderia fazer a não ser aceitar sua presença? Com as mãos ao redor do corpo, percorri cada parte, me certificando, pausadamente, que ia ficar completamente pronto, despido para o que estava pronto. Para o que já sai de casa pronto para enfrentar. Mordi a boca com cuidado quando pisei fundo para guardar as vestes em local seguro. Fiquei com medo de te perturbar, mas se você mexeu eu não percebi. Estático como um mero bibelô, ficou ali até que pudesse me perder de vista. E foi assi…

Eu fui à praia sozinho.

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E, agora com a paisagem passando como se me dissesse "vem depois, mas venha", penso nas palavras dela. Talvez ela tivesse razão, ir à praia sozinho não seria algo tão desagradável. Pois bem, meus pés fritam sobre a areia fofa, mas não incomodam ao ponto do desespero, a brisa sacoleja para frente, derrubando as ondas. O refrigerante proibido é praia. Areia, mar, música aos fones, ventania, refrigerante e muito "não obrigado e não agradeço". Infelizmente, o consumo na praia é líquido, não me atrevo aos caldinhos, casquinhas de siri, e todos esses petiscos do mar, seja camarão ou qualquer tipo.   Estar na praia tão logo me remeteu ao passado, como eu vim sozinho, deixarei o passado para longe. Desculpe, vou ler um pouco, um Tubarão para ser mais icônico; até a volta. 


  Só voltei por dois motivos: 1) Péssimo lugar para ficar e 2) item 1 várias vezes. Não que eu seja o avaliador nacional de praias, mas o lugar que eu fiquei era péssimo e não repetirei. Fui deixado às…

Monalisa não sorri.

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A maratona estava posta em subjugadas 48 horas quase ininterruptas de falatórios. Fiquei firme. Sabia que a qualquer momento tudo se romperia, tudo seria jogado ao ar. Todavia, parecendo perecer, ela superou. Monalisa estava, finalmente, entendendo que a vida é aquilo que se lê entre linhas. Posou a cabeça dentro das mãos, momento único de desistência voluntária, chorou. Monalisa chorou. Chorava com raiva de si. As lágrimas de arrependimento escorriam face abaixo. Ela não sabia o quanto era difícil insistir em si. E, quando entendeu, sozinha, enxugou suas próprias mágoas. Monalisa esperou que eu fosse dizer algo, acalentá-la. Não o fiz em solidariedade. Não disse que era assim mesmo, não afirmei quer era tudo difícil e que valeria a pena. Não fiz nada que vocês humanos fazem nestas ocasiões. Ela teve o melhor que poderia, ela teve a indiferença. O medo de falhar e ser julgado nos deixa embebidos em uma vida líquida, e quando encontramos o não-julgamento, temos assim um ponto de solidez…