As crônicas da alma viva: A hora extra (parte 4)



 Tomar o fretado rumo casa é quase que religioso, acabamos por conhecer os madrugadores da operação, quase sempre as mesmas pessoas. O motorista aguarda mais cinco minutos antes de partir. Sobem mais algumas mulheres, outros dois rapazes e por fim, o ônibus está meio cheio, meio vazio. Somos umas vinte pessoas quase. Fico próximo da porta de embarque pois gosto de ouvir o clique da porta ao fechar, isso me desperta. A rota é a mesma, estarei em casa em vinte minutos. Ele segue rumo ao fim do mundo, próximo da universidade, vai adentrando em ruas largas, depois as casas vão se estreitando, grandes portões, largos portões, portões, portas, portinhas... De casas para vilas. A conversa dentro do veículo é amigável, alguns conversando sobre o dia de trabalho, outros ao celular com familiares ou amores, não sei ao certo, e eu. Bem. Eu continuo aqui, tentando não pensar e nada a não ser chegar em casa e dormir. O balançar contínuo do ônibus embrenhando nas vísceras da cidade me embalam. Tento não cochilar, porém é em vão. Meu ponto é bem longe daqui e ainda nem deixamos a primeira pessoa. Uma grande imensidão negra escorre pela janela. Chegamos. Uma mulher desce do ônibus, acena para nós e logo sobe em uma motocicleta rumo à escuridão. Ela está entregue. Faltam apenas 6 para chegar a minha vez. Acordo com o bater da porta. Afasto em supetão a cortina da janela, corro olhos em busca de localização. Passei do meu ponto! Merda. Merda. Merda. Oi? Respondo para garota do lado. Ah, okay. Respiro em alívio. Ela me conversa que um rapaz pediu que fosse pela outra rua porque houve um bloqueio da companhia de saneamento. Estamos no número 4, faltam dois. Sorrio para a jovem com receio, acho que ela percebeu que eu cochilei com vontade dessa vez. A adrenalina não me permite mais dormir. Pigarreio. Tomo posição na poltrona. Risco a pista com meus olhos cansados. Uma breve chuva arrisca despencar. Alfinetes d'água fagulham no ar. Estudo os céus com temor, mas não haverá mais que uma leve garoa. O ônibus para ao sinal vermelho. Foco na esquina desconstruída do caminho que desbrava matagal. Há uma pessoa ali, na sombra. Na penumbra. Assaltante? Está ereto. Convicto. Não há contorno de gênero, pode ser qualquer pessoa. Ser andrógeno e sinistro. Desvio o olhar. O ônibus segue pista livre. Encaro novamente o ser. Ele não mais ali. Com certeza um bandido! Esperando a próxima vítima. Claro. Muito acontece por essas horas da madrugada. E principalmente quando está pra chover. Desce o quinto, o veículo indica à esquerda, primeiro condomínio. Após vários e vários metros e mais metros dentro dos condomínios, o sexto salta e saúda o motorista. Agora minha vez. O ônibus faz a volta, uma meia lua com proeza. Levanto da poltrona e vou para cabina do motorista. Ora, ora, diz ele sorrindo. Conversamos enquanto o vários e vários metros no traz de volta a pista principal. Passa a entrada do segundo condomínio. Pega a entrada do penúltimo. Alguns minutos e já salto na frente de casa. São e salvo dou tchau, atravesso a pista, passo pelo portão automático, atravesso a pista dentro do condomínio e sigo o calçamento até meu bloco, não há ninguém no parquinho, o balanço da esquerda está em movimento, não há som de criança, apenas o distante barulho do fretado com pretensões de desviar de buracos, subir as escadas é uma jogada dura depois de um dia longo, seguindo de hora extra então? A luz do hall me felicita, verifico os comunicados no mural rapidamente, subo as escadas. As luzes automáticas do primeiro piso avisam que estou chegando, logo acendem, logo apagam, só me deixam iluminado pelo movimento de continuar a subida. No segundo lance de escadas já procuro pelas chaves de casa, a luz automática não acende, continuo meu caminho, ela acende atrasada, dentro da mochila pego a chave com impulso, a luz se apaga, faço movimento, ela acende, derrubo as chaves sem querer, com o movimento de apanhar, a mochila desce o braço pousando-se também no chão, a luz se apaga, levanto de supetão junto com as coisas, a luz se acende. No final do corredor alguém me assiste. Um contorno sombrio me encara, não enxergo sem os óculos. Respiro tremidamente. A luz se apaga. Faço movimento para abrir a porta. Rápido. Mexo as voltas da chave. Não consigo acertar a fechadura. Tento abrir a maçaneta. A luz se acende. Olho com medo novamente pro corredor. Nada. Avisto a fechadura, coloco a chave. A luz se apaga. A porta abre. Entro rapidamente. Tiro a chave. Fecho a porta. Tranco. Ofegante, dou passos para trás. O medo revira estômago, tremendo limpo a testa de suor pesado. A luz se acende. Prendo a respiração. Estou no escuro. Minha casa está em pleno breu. A luz do corredor nasce na fresta da porta, o chão se irradia. Alguém está do outro lado. Dá pra ver pela sombra por baixo da porta. Não consigo respirar. A maçaneta tenta girar vagarosamente. Ela vai girando como uma aplicação de injeção que doí, suavemente até o final. A luz se apaga. O telefone toca.   

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