As crônicas da alma viva: A hora extra (parte 1)



 O turno da madrugada sempre foi o melhor horário. Claro, isso na minha humilde visão. É porque sempre são os sem sinal de tv ou internet que ligam, raras são as vezes que peguei uma contestação de valores de faturas, é bem mais provável o senhor ou senhora ligar pra cá e contratar uns canais pornôs. São 22:40, início do turno da noite. São contáveis as cabeças de operadores neste horário, até os supervisores são mais tranquilos, as ligações são mais leves, o clima mais agradável e sinceramente, o zumzumzum do dia é perturbador. Por isso escolho sempre fazer a hora extra depois das 22, e hoje o sistema não deu trégua, fiquei das 21 até às 23 horas, o bom é que ainda dá pra pegar carona com uns colegas do andar de baixo. 
 Beep. avop4586106. Atd 12. TMT 12:32. Atendi 12 ligações até agora, estou logado na ultima máquina da ilha, os colegas que estavam do meu lado já se foram, e não dá pra conversar com os colegas da frente, a não ser que eu fique de pé. Me contento em ficar olhando as imagens do outro lado da sala, não tem som, e a legenda é ilegível daqui, não sei bem qual o filme, mas tem explosões. Atendo mais uma cliente, fala que pagou a fatura que estava pendente, registrado. 22:57, ouço o Tuuuu da ligação que cai no ouvido, o sistema não reconhece cliente, sem nome identificado ou cpf, um cliente anônimo até eu encontrar o contrato, fantasma até registrar protocolo.
 Me ajeito na cadeira giratória pois sei que pode ser uma longa ligação, o apoio dos braços deixa a digitação mais estável. Central de relacionamento, boa noite, com quem falo? Um barulho de embrulho chia, continuo meu script. Central de relacionamento, com quem falo? E o sussurro da voz robotizada pelo telefone escorre pela orelha, lambendo meu ouvido e derrama um frio pelo corpo. Não entre em pânico, disse a voz suave, quase que formal. Desculpe, não entendi, disse tentando me corrigir da vontade de ficar de pé e correr. Sempre acontece de vez ou outra alguns (não) clientes ligarem apenas por trote, e aqui parece a mesma coisa. 
 As luzes da minha zona piscaram brevemente, em volta todos continuavam normais, alguns atendendo, outros conversando enquanto aguardavam ligação cair, então olhei novamente para tela do computador. Cliente não identificado pelo atendimento automático. Senhor? Senhora? Alô? A ligação caiu em menos de 10 segundos, logo apareceu o pop-up de rediscagem, pensei em fazer o callback mas o próprio sistema encarregou-se de eliminar essa possibilidade. Fiquei novamente disponível para atendimento. Com o pulso acelerado ora pela curiosidade, ora pelo medo do inesperado, tentei relaxar. Levantei pra comentar da ligação com o colega da frente, mas este logo me olhou com cara de pânico. Eu sorri tentando desviar do mesmo sentimento e lancei, hoje está um dia meio louco não é? Mas ele apenas não respondeu, assentiu com a cabeça e voltou os olhos para tela, parecia que recebia ordens expressas de não falar comigo. 
 Sentei, respirei fundo, chequei no telefone da máquina o horário de trabalho e conferi a hora da minha saída. As luzes fraquejaram novamente, um frio esquisito agarrou meu corpo. Tem algo de errado acontecendo. Muito errado. Peguei o mouse para deslogar da máquina e ir para casa, e foi aí que eu entrei em pânico. Na tela havia uma mensagem, uma janela tipo prompt de comando dizia 

*c:\User\Gnerated\account\crav:\\avop4586106_ciente
*c:\User\Gnerated\account\crav:\\inexist_account:_destruir_
Ver.[1000.4E91O6.11-56]ssep

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