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Mostrando postagens de 2016

A foto.

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Eu só percebi quando a foto caiu por entre as luzes. Parei por segundos, ouvi o refrão acabando com o mundo, daí vi nós dois. Das poucas recordações físicas que possuo, aquela foto é umas das melhores que há no mundo. Ela é perfeita. As luzes, a felicidade que te abriu os braços, o emaranhado por entre dedos, aquele dia e por acaso hoje. Sabe, talvez ninguém lembre mais daquele dia, mas a gente nunca deve esquecer daquela esquina, não é mesmo? É mesmo.   Novembro é um mês intrigante. É o mês em que muita coisa rara acontece, tipo o vermelhidão do crepúsculo, como -também- aquele filme sensacional que nunca fomos ver juntos... melhor nem falar sobre essas coisas, faz tanto tempo que nos perdemos que, nem sei quem nós somos mais. Nem sei quem podemos ser.  Apanho a foto com cuidado, para não danificá-la, mas não antes de registrar essa sensação casuística saudosística minimalista e centrífuga. Afinal de contas, evoluímos todos os dias, apesar dos pesares, meus pêsames por mais um ano …

Dizem por aí

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Vi no Skoob que as pessoas mentem muito sobre ter lido certos títulos. Ora, isso é tão óbvio. Claro que as pessoas dirão que já leu isso e aquilo, principalmente se é algo tão conhecido e comentado quando Harry Potter ou 50 Tons de Cinza, acontece muito, mas não exclusivamente da literatura. Eles mentem sobre as bandas famosas, dizem que são fãs e acompanham a carreira do cantor(a)/banda desde sempre, mais no fim das contas só conhecer os singles; do mesmo com os filmes Cult e Blockbusters, tem muita gente que conta filme do Almodovar como se realmente tivesse assistido, mas quando posicionado numa cena que não é tão falada nas redes, a pessoa fica com a cara de paisagem. Acontece sempre, pois faz parte dos círculos sociais essa mania de ter que mentir para não ser excluído, e acabam deixar para lá, nem tentam ler, ouvir ou assistir os tais filmes comentados. Perder tempo com algo que dizer ruim, ou não é de Deus, pra quê? Não é mesmo? Mas, aí é que tá! Como ter a verdadeira reflexã…

Quando bate aquela saudade.

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E aconteceu de novo.
 É uma droga quando a gente não quer lembrar de alguém e acaba fazendo, assim, tão naturalmente.
 Se eu disser que lembrei só de você eu estarei em exagero, na verdade lembrei de nós dois. Lembrei deles também. De tudo ao nosso redor. Acho que você nem lembra de mim, então não perguntarei se tu lembras do que eu vestia naquele dia, do que comemos naquela noite, ou se comemos. Não quero saber nada disso.
 Não sei nem porquê lembrei disso.
 Já esqueci.
 Eu tenho uma vontade grande de te ligar e perguntar se tu lembras de mim ainda. Lembras?
 Maldita seja essa saudade de coisas tão pequenas. Como se atreve a tirar isso de mim? Eu via aquele programa sozinho antes de você, agora eu só lembro de você comentando o quanto é fútil assisti-lo. E que, muito provavelmente, você ainda seja viciado nele.
 O que será que acontece às pessoas que não vemos mais? Será que elas estão bem? Tipo, agora mesmo, será que aquela raiva passou? Será que a tristeza foi embora? Será que o…

Como é se apaixonar por um escritor?

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Difícil falar já que você não sabe se está apaixonada por ele, ou pelo modo apaixonante como ele escreve, pode ser um pouco dos dois. Ou a forma como ele é obcecado pelas palavras e as usa com tanta destreza em cada um de seus textos. Você nunca sabe se em suas escritas ele está caindo de amor ou caindo aos pedaços, mas elas sempre vão tirar o seu fôlego e fazer você pensar em como seria se fosse você a inspiração. E você se acha maluca porque muitas vezes quando está lendo um dos textos, se pega bufando de ciúme porque sabe que não são para você. Mas sempre depois que termina se derrete e se encanta cada vez mais com a forma que esse ser consegue tocar seu coração sem ao menos te conhecer. Você vai ler e reler cada uma das linhas e ver que sempre tem um pouco do que sabe, vai ver que tem um pouco de tudo o que ele já vivenciou, que ele escreve com a alma tão exposta e radiante quanto o nascer do sol, ele fala de suas fases, de seus momentos e amores, que se assemelham aos seus, aos …

Por que a bicha pintosa incomoda tanta gente?

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Elas estão em todo o lugar. Facilmente identificadas, tem a voz feminina, estão levemente ou muito maquiadas (muitas vezes durante o dia). Usam calças extremamente coladas, coloridas e de cintura baixíssima (a calça santropê das mulheres perde feio). Às vezes se permitem até usar uma peça ou outra feminina, que vai da calça jeans até as coisas mais íntimas. Abusam de joias e adereços em geral. A ideia é ser o mais caricato possível. Sem esquecer, é claro, dos cabelos: escovados, lisos ou encaracolados, pintados ou com generosas mechas. Os cortes são os da hora, porque nada, do pé a cabeça, pode estar desconectado da atualidade.
Essa definição inicial diz respeito a muitas bichas pintosas espelhadas pelo país. Execradas até por boa parte do próprio segmento gay, elas provam, entre outras coisas, a supremacia do homem que se dá o direito de ser delicado, possuindo, assim, uma identidade própria, original. Claro que essa atitude custou a elas um preço alto: o da inferiorização frente as…

O que você vê?

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Existem algumas coisas na nossa vida que são inexplicáveis. São eventos únicos e particulares que só cabem na memória. Não falo de sonhos de futuros bobos, de uma viagem ao continente cultural ou um abraço revigorante, nada disso. Falo de fatos que apenas nos acontecem, sabores que nos apetecem. São experiências que nunca, nada nem ninguém irá conseguir reproduzir, nem se quer transmutar em algo repetível e, desse modo, me desculpe Senhor Gatsby, mas não é possível repetir o passado, e, mesmo que pudesse, eu jamais tentaria essa ousadia.
 Sabe, senhor, certas coisas só acontecem pra que a gente siga em frente, tentando acreditar que existe algo tão bom quanto o que nos aconteceu. Lembre da linda Daisy e da primeira vez que a viu, lembra qual foi a sensação? E depois de tanto matutar qual o caminho a percorrer, me pego corroendo antigos dissabores. Deve ser por isso que me atento aos pequenos milagres que me ocorreram.  Sinto a brisa salgada, a areia macia, o som do mar convidando ao pa…

O mundo tá chato ou é só você?

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O mundo tá chato, dizem os especialistas da procrastinação emergente, os palpitantes sábios e sagazes da vida alheia, os críticos literários de um livro só, os "experts" não-graduados. E olha que até os com suposta formação, às vezes, dão uma de gato de botas e choram bastante atenção. Afinal, o choro é livre.   Do mesmo acontece no ridículo cubículo semirrarefeito, de erros e acertos propositais, apostilando antigas cantigas de coragem e etiquetando novas virtudes como se um dia fosse olhá-las do mesmo modo como da primeira vez. E como de costume, aproveito para tentar forjar novos hábitos como outrora, uma releitura analfabética de símbolos apócrifos. Surge uma vontade repentina de ser bom em algo que ninguém se importa, ninguém da a mínima, e nisso eu sou bom. Sou até ótimo. Ser bom em algo que ninguém se importa é algo tão surpreendente que até pode ser considerado um ato olímpico. Claro que nas modalidades que nunca serão inventadas por ninguém, porque, claro, ninguém se…

Lembranças: guardava, mas hoje as queimo.

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Ao responder o comentário dela me surpreendi com a falta de coragem. "Para quê escrever num país que ninguém lê?", disse ela com toda pompa, tanta propriedade em sua indignação que senti sua saliva escapulir. Ainda que, passadas as semanas deste mesmo evento, minha resposta foi eficaz e demasiado sincera: "Alguém sempre lê. Sempre."  E disto eu tenho plena convicção, ainda que alguns digam que escrevem para si, que escrevem para não morrer, todos tolos. Todo mundo escreve para alguém, uma hora ou outra este alguém é tomado por arroubo de uma frase, um texto, um comentário qualquer ainda que misdirecionado. Porque essa é a lógica de escrever, acertar ainda que fadigamente aquele ou aquela que se abre mão de estar fazendo qualquer coisa e parou, ainda que por um segundo, para ler. Para te ler.  Deve ser por estas tantas que a gente acaba vítima de si. Obrigando-se quase que sempre à composição de novas e novas frases cimentadas com esmero. Sabe, vou ser sincero contigo…

Sereno.

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Ontem, lá pelas tantas da madrugada, acordado por não poder dormir, por temer dormir, por temer sonhar com o amanhã, me deparei com solicitude drástica que vingou-se tão completamente. A vida se esparramou sobre a cama, uma bagunça tão significante que combalia qualquer esperança de quietude. Tomei impulso pequeno ao lançar os dedos trêmulos nas primeiras gravuras de passado, receio que era tristeza que me tenha sucumbido, pois havia tanto que gritava por mim, chamava meu nome, o meu verdadeiro nome. Tudo ali em cima da colcha pueril, desdenhada por prazer, me olhava, me julgava. O suspiro profundo denunciava remorso. A frieza da noite abraçou-me, as luzes da rua afagavam todo aquele contexto, era mais uma noite de solidão. Sozinho de si, passei a enfrentar tudo o que deixei para trás, todas as pequenas coisas que um dia ia consertar e nunca fiz, papéis que ia retomar e nunca mais voltei ali, as fotos... as nossas fotos de momentos tão incríveis estavam ali, amassadas pela dor, com o …

As crônicas da alma viva: A hora extra (parte 4)

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Tomar o fretado rumo casa é quase que religioso, acabamos por conhecer os madrugadores da operação, quase sempre as mesmas pessoas. O motorista aguarda mais cinco minutos antes de partir. Sobem mais algumas mulheres, outros dois rapazes e por fim, o ônibus está meio cheio, meio vazio. Somos umas vinte pessoas quase. Fico próximo da porta de embarque pois gosto de ouvir o clique da porta ao fechar, isso me desperta. A rota é a mesma, estarei em casa em vinte minutos. Ele segue rumo ao fim do mundo, próximo da universidade, vai adentrando em ruas largas, depois as casas vão se estreitando, grandes portões, largos portões, portões, portas, portinhas... De casas para vilas. A conversa dentro do veículo é amigável, alguns conversando sobre o dia de trabalho, outros ao celular com familiares ou amores, não sei ao certo, e eu. Bem. Eu continuo aqui, tentando não pensar e nada a não ser chegar em casa e dormir. O balançar contínuo do ônibus embrenhando nas vísceras da cidade me embalam. Tento…

As crônicas da alma viva: A hora extra (parte 3)

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A tela acinzentada toma conta novamente. Disponível emparelha em verde. Respiro fundo. Clico em deslogar. Por hoje basta. Quero esquecer essa maluquice, não posso surtar. Finalizo o programa, fecho as abas de instrução, do financeiro e da tabela de preços e ofertas. Fazer logoff. Aperto novamente no dac para saber que estou saindo. Preciso apenas dormir. É disso que preciso. Rio comigo mesmo. É cada coisa que acontece com a gente que... olha, sei não viu? Retiro a espuma do headset, o tubo de voz e sigo rumo casa. Me despeço das pessoas com um breve aceno de estou-caindo-fora-otários e para alguns um aceno até-amanhã, disfarço meu ofegar, sinto aquela agonia da única gota de suor desbravando a testa. Enxugo com a camisa, ombro testa, vejo a garota com o cabelo azul descer as escadas. Caça ou caçador? Será que foi ela? Ou melhor, será que foi com ela? Ou para ela? Apresso os passos, a catraca demora para ativar o bip de acesso permitido, jogo o crachá de passe novamente. Ela aceita, pa…

As crônicas da alma viva: A hora extra (parte 2)

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O tuuu característico da nova chamada me tomou por arroubo.. Alô? Alô? Gaguejei por uns segundos até responder de acordo com o catedrático script. S-Sim senhor... is-isso mesmo, é que o sistema deu uma falha na-na ligação, desculpe senhor, pode repetir? A aceleração do peito me fazia suar. Depois um tempo nesse trabalho a gente acaba surtando. Peguei minha água, um, dois, três longos goles. Respirei fundo. Finalizei o atendimento em 15 minutos, algo que era pra ser bem mais rápido, mas minha mente vagava longe. Finto o terreno de cabeças como uma toupeira, apenas levanto o olhar o suficiente bastante para ver todos e o que estão fazendo. Espero mais uma ligação antes de programar a saída. Por hoje é só. Preciso mesmo descansar. Tuuu, atendimento... um chiado crava meus ouvidos curiosos por algum som familiar. Atendimento... isso senhora, como vai? Certo, aguarde só um momento por gentileza enquanto localizo o contrato da senhora, a ligação pode parecer muda, mas estou na linha, tudo b…

As crônicas da alma viva: A hora extra (parte 1)

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O turno da madrugada sempre foi o melhor horário. Claro, isso na minha humilde visão. É porque sempre são os sem sinal de tv ou internet que ligam, raras são as vezes que peguei uma contestação de valores de faturas, é bem mais provável o senhor ou senhora ligar pra cá e contratar uns canais pornôs. São 22:40, início do turno da noite. São contáveis as cabeças de operadores neste horário, até os supervisores são mais tranquilos, as ligações são mais leves, o clima mais agradável e sinceramente, o zumzumzum do dia é perturbador. Por isso escolho sempre fazer a hora extra depois das 22, e hoje o sistema não deu trégua, fiquei das 21 até às 23 horas, o bom é que ainda dá pra pegar carona com uns colegas do andar de baixo.   Beep. avop4586106. Atd 12. TMT 12:32. Atendi 12 ligações até agora, estou logado na ultima máquina da ilha, os colegas que estavam do meu lado já se foram, e não dá pra conversar com os colegas da frente, a não ser que eu fique de pé. Me contento em ficar olhando as im…