A dor e a beleza da escrita.


Carlos Drummond de Andrade, em uma de suas cartas para sua filha, Maria Julieta, a aconselha:

“Escreva minha filha, escreva. Quando estiver entediada, nostálgica, desocupada, neutra, escreva. Escreva mesmo bobagens, palavras soltas. Experimente fazer versos, artigos, pensamentos soltos. Descreva, como exercício, o degrau da escada do seu edifício (saiu um verso sem querer). Escreva sempre, mesmo para não publicar. E principalmente para não publicar. Não tenha a preocupação de fazer obras primas; que de há muito já perdi, se é que um dia a tive. Mas só e simplesmente escrever, se exprimir, desenvolver um movimento interior que encontre em si próprio sua justificação…”

Belo conselho, que de um carinho ofertado a Maria acalentou tantos corações inquietos. Na ânsia de significado pela vida, muitos afundam, outros tomam um pouco de fôlego na bordinha da piscina, pegando ar, papel e lápis. O ato da escrita, por si só, já é um exorcismo. Quando não, uma tentativa de realocar e elaborar dores, perdas e alegrias. A dúvida surge e lá está o escritor, com um comichão no coração e uma caneta na ponta dos dedos.
"E se eu não souber escrever?" Mesmo assim rabisque. Linhas, frases, palavras desconexas. Que mal tem? Ver os sentimentos exteriorizados, seja na tela ou no papel, no mínimo alivia. Se mesmo assim não houver descanso, vai lá e faça de novo. E de novo. Até acalentar a alma e adoçar os sentidos. Por mais que sangre, remexa lá no fundo o que nem os seus ouvidos conseguem ouvir. Apesar do medo da entrega, é isso que salva muitos da loucura ou de assustadores demônios que insistem em rondar os dias.
O trabalho de criação é um mergulho no inconsciente, a junção dos caminhos percorridos e dos atalhos que ainda sonhamos em trilhar. É a entrega de uma pessoa despida de pudores, manchada pelos dias e remexida por delírios. Se você vasculhar nas tensões, tragédias, rancores, esperanças e nas fantasias incontáveis até mesmo para o analista, está um (ou muitos) texto(s). Angustiado por não conseguir expurgar tudo isso para a folha?
Se acalme. Ler é o alimento para a escrita. Já já as linhas chegam até você. Até lá, pratique. Diariamente. Nem que seja um vômito qualquer. A peneira vem depois, assim como o processo de modelagem. Tome notas e transborde literatura. Um livro ou uma crônica são, por vezes, o momento de tomada de consciência do autor. Ali ele se apropria do que antes somente pulsava em si mesmo. Por mais respeitado, renomado e brilhante que seja um escritor, o próximo verso é sempre uma incógnita. E que lindo é ser aprendiz da própria história. E das entrelinhas em que moram personagens e vidas.
Escreva todo dia (sim, eu me repeti). Começando agora você estará mais perto do que estava no exercício de lapidar a matéria bruta. Esta que sai de ti, alcança a folha e precisa ser esculpida. Se tomou forma, é que foi purificado. E sortudos são os que das feridas alcançam a catarse.

Por HILANE TAWIL

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