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Mostrando postagens de 2015

Raízes

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Os dias se findam em descontento, acordam em esperança e regam-se por várias vezes contínuas de esmero ou desdém. Assim são os dias de invictos e pérfidos. São maldições e bençãos sistêmicas que deságuam em apenas mais um dia.  Talvez hoje você não entenda ainda o porquê que as pessoas vão embora. Talvez ainda tente criar o pensamento reacionário que vigora em desculpas e mais desculpas, em culpa, em mágoa, em raiva, em próprio mal/bem-querer.
Assim são algumas pessoas. Hoje, dia de pão de mel.
Hoje, dia de fome.
Hoje dia de correria, calmaria, pulsação, dilaceração, causa mortis, perdizes, algozes, marimbondos, incompreensão, trauma, estopim, conclusão, vertigem, calos, discórdia, amores ínfimos íntimos quase que tontos e certeiros, capazes de lograrem a maior maravilha de todas as proezas qualitativas de quantidades absurdas de vontade, sensatez, fim.
Todos os dias tudo acontece, morte e vida severina. transcrições de universo, de deus e do diabo.  Todos os dias acontecem todos os dias.
E …

A dor e a beleza da escrita.

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Carlos Drummond de Andrade, em uma de suas cartas para sua filha, Maria Julieta, a aconselha:
“Escreva minha filha, escreva. Quando estiver entediada, nostálgica, desocupada, neutra, escreva. Escreva mesmo bobagens, palavras soltas. Experimente fazer versos, artigos, pensamentos soltos. Descreva, como exercício, o degrau da escada do seu edifício (saiu um verso sem querer). Escreva sempre, mesmo para não publicar. E principalmente para não publicar. Não tenha a preocupação de fazer obras primas; que de há muito já perdi, se é que um dia a tive. Mas só e simplesmente escrever, se exprimir, desenvolver um movimento interior que encontre em si próprio sua justificação…”
Belo conselho, que de um carinho ofertado a Maria acalentou tantos corações inquietos. Na ânsia de significado pela vida, muitos afundam, outros tomam um pouco de fôlego na bordinha da piscina, pegando ar, papel e lápis. O ato da escrita, por si só, já é um exorcismo. Quando não, uma tentativa de realocar e elaborar dores, …

Quando eu partir.

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O tempo está chegando ao fim. Chegará o momento em que nada mais existirá além do infinito, e quando este dia chegar não fique triste. Lembre da felicidade que te fiz presente, lembre daquele dia que rimos sem parar, das noites que apontamos para as estrelas e contamos como elas chegaram ali, quando eu partir não levarei comigo nada além da minha própria esperança de te ver crescer bem, viver uma vida continuada, com tantos ritmos e batuques que só a Terra tem. Não fique triste por pensar que tudo acabou, fique triste para depois ficar calmo, ficar sereno porque tudo valeu à pena. Todas essas nossas andanças, nossos pulos, corridas, todas essas filas, esperas e remarcações, todas as reprises, replays e loopings variados de informação. Nunca esquecerei o dia que nos conhecemos, de toda aquela simples confusão que se dá no segundo encontro, de tentar disfarçar a indiferença, de dar valor às tuas coisas favoritas, de relaxar no meio de um tormento. O bem mais precioso que exite é o própr…

Alvorada

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Era um novo dia, um outro dia, um dia de alvorada. Sol que nascia, sem saber o que viria, o que veria, o que viveria. Outrossim, outro não. Nuvens compostas marchavam em prol da vanguarda de trabalhadores hesitantes. Marcas de sono perpetuavam os primeiros cumprimentos, e todos, todos eles saudavam a alvorada. Morada de colibris.

Ο Λευκος Πυργος

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Faz quase um ano desde que proferi o nosso adeus. Lembro como hoje, levantei mais cedo do que de costume pelos motivos de sempre, aproveitar ao máximo cada nova experiência. E, assim como se nada fosse acontecer, fui acordar o dia. Abracei-me do frio daquela manhã de quase pós inverno, via da janela as árvores franzinas e polvilhada de branco. Uma fina neve cobriu a cidade a noite toda, protegendo tudo da escura noite, ela mesmo tinha preguiça de acordar tão cedo. O café suspirava em vapor, quase o mesmo da minha respiração, uma fusão simples que dizia Bom Dia.  E preguiçosamente o dia foi acontecendo no hemisfério norte. A baía lá longe mostravam os barcos partindo para o novo dia, enquanto os vindos da noite descarregavam o peixado. Era meu ultimo dia nas terras do berço da sociedade e, no fim das contas, eu não aprendi nada sobre Estado ou Poder, mas vi muito de uma sociedade bem parecida com a minha.  Quando você acordou eu já estava mais que pronto. Já tinha comido, tomado banho, m…

E se eu morresse agora?

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E se eu morresse agora? O que eu teria feito para me orgulhar? Será que eu sairia daqui feliz por tudo aquilo que já fiz, ou sentiria vontade de fazer algo a mais? Talvez eu quisesse realizar algum sonho... Talvez eu tivesse algum sonho... Quem sabe até eu tivesse deixando para amanhã muita coisa... Eu sentiria saudade de muitas pessoas, mas não sei quem sentiria o mesmo por mim. Não sei se chorariam pela minha ida, ou se pelo menos eu tinha dado motivos, em vida, para que quisessem chorar com a minha ausência. Eu lembraria de tudo o que já fiz, de tudo o que já senti ou deixei de sentir. Lembraria das vezes que sorri por alguém, dos momentos em que chorei, das vezes que odiei, da alegria inquietante das vitórias, das chances que desperdicei pelo medo, da sensação única do erro, da angústia repentina que às vezes surgia... Lembraria das vezes que quis fazer besteira, e das vezes em que fiz besteira. Eu lembraria dos meus sonhos. Lembraria que tinha vontade de não ser como os outros, de fazer a di…

Carta ao meu ex.

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Querido ex, Tenho que lhe contar que me apaixonei de novo. Mas por favor não interprete essa frase como se eu tivesse deixado de pensar em você. Apenas saiba que optei por tentar acreditar em meus sonhos outra vez. Sei bem que você irá olhar meu próximo amor e sentir ciúmes, não por eu ser perfeita, justamente pelo contrário, sabe bem dos meus erros, defeitos e imperfeições, mas sei que você olhará para ele e saberá que é o novo dono do meu coração, que terá sorte porque é meu o bom dia que ele recebe todas as manhãs, será das minhas brincadeiras que o sorriso dele virá fácil e rápido em uma tarde qualquer, você saberá muito bem que quando começar a chover forte, é para ele que ligarei por medo que a luz acabe. Você lembra como eu tenho medo do escuro. Eu te peço, não me incrimine, me julgue ou tão pouco me crucifique por começar a gostar de alguém. Ao contrário do que muitos imaginam, eu sempre faço a opção de viver o presente. Gosto de pensar que ninguém entra em nossa vi…

Eu disse corre...

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O tédio dominical já fazia parte de mim desde a metade da semana. As cores dos dias e das noites tornaram-se um grande borrão. E mais uma vez, mais um desamor. É inverno no hemisfério sul, e as pessoas continuam se vestindo para o verão. Elas querem ver o calor humano na verdade. Isso é bem simples de perceber, mas porquê as cores também? A força voltou, acho que ela também tinha ido à praia. Domingos são assim: praia, família, churrasco, shopping, família, fantástico. Meu domingo é assim: nada. Não que me falte coisas para fazer, não não. Há uma pilha de livros não-lidos, músicas não tocadas, papeis ainda em branco. E claro, muita matéria para revisar. Mas, continuo vagando entre o preto e branco.  Quando a energia voltou, foi aí que decidi levantar, eram umas 15 horas ou algo assim. Só percebi que já era tarde quando o relógio sentenciou, por mim ainda eram 4 da manhã. Para finalizar a tarde com desdém, pensei em visitar as páginas locais e olhar o movimento na rua. E bem, foi aí que …

Tamanho médio para dois.

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E eu desejo tanto que ele pare, mas via de regra segue em frente. Pergunta em curioso afeto. Não quero falar muito, alimentar uma propensão marginal ao gostar irracional. Não consigo parar de falar, é um clima estranho. Minhas têmporas exprimem joguetes de coesão, meu coração almeja uma alimentação romântica e meu corpo, ah meu corpo... Este já não resiste, fica estático com furioso movimento de criar. Acontecer de fato tudo aquilo que se constrói em mente, uma facilidade remota de esperançar, igual ao respirar. Tácito e profundo. A fonte com certeza é platônica, como eu poderia resistir?  Não é todo dia que alguém se interessa por você. Não de forma ao parar e se descalçar. O timbre impacta o vento e sibila em contemplação ao infinito minimalista. Um simples "olá" ecoa como oração. Repetida sacramente pelo singelo mecanismo que o corpo tem em perpetuar a bondade. A resposta não demora, mas é carregada de "me traz um café?". Ninguém gosta de ouvir problemas, mas tod…

Cerúleo

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Fragmentadas nos cantos do céu, elas permaneciam brilhantes. Pequenos pontos azuis. Observei sem me preocupar onde eu estava, quem eu era, aonde eu iria. Fiquei ali. Contemplei os céus e a cor que dele brotava. Todo o ambiente se inundava em calmaria que perturbava. Algo dizia que era mais uma vez, talvez a ultima, que as cores do mar iriam invadir meu eu. Pode parecer um pouco triste, porém a iluminação combinava com tudo. Decorava bem ao se derramar pelas paredes, riscava calculadamente os armários, fazia as letras dos livros boiarem confortavelmente. E a mim... Bem, eu era só um corpo. Enrijecido pela vontade de não ser nada nem ninguém, e era exatamente isso que eu eu ali. Nada além de um ponto azul, em imensidão profunda e azul.  O gelado chão que aquecia minhas costas foi ficando distante, era hora de seguir em frente. Pouco salutar é o desejo de mudança, mas alguém tem que fazer alguma coisa. Não adianta ficar na zona de uma só verdade e esquecer por um momento que nada existe. P…

Na manhã do primeiro dia.

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Acordando como um animal, cacei com os olhos por algo irregular. As janelas recebiam o calor do sol, as cortinas dançavam ao convite do vento e eu... bem, eu começava a entender que a dor de cabeça era apenas parte de tudo, não só consequência de vinho barato. Levanto com o gosto amargo na boca, gosto de ferro. A cama revirada não seria a melhor descrição para o furacão que deve ter passado por aqui ontem, os lençóis parte no chão, parte na cama, tem livro jogado, papel de parede rasgado, e a minha cabeça apenas dói, pulsando para que eu não tente lembrar de ontem. Aspirina, é isso que ela quer que eu lembre. O pisar no chão é modesto, sinto um calor diferente, como se o carpete abraçasse meus pés, tão macio que dá vontade de se esfregar todo nele. O pijama já era, só tento vestir alguma coisa porque me sinto vulnerável quando estou pelado. Esse gosto já está me dando enjoo. Acho uma calça de moleton debruçada na cadeira da escrivaninha. Sigo ao banheiro em busca de aspirira, não sei b…

Quem pode fazer literatura, afinal?

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É muito comum, ao se falar de literatura, pensar em um campo de liberdade, lugar frequentado por qualquer um que tenha algo a expressar sobre o mundo e sua experiência nele. Das teorias que afirmam a literatura como um espaço aberto à diversidade àquelas que a prescrevem como remédio para todas as mazelas sociais (da desinformação à ausência de cidadania), podemos acompanhar o processo de idealização de um meio expressivo que é tão contaminado ideologicamente quanto qualquer outro, pelo simples fato de ser construído, avaliado e legitimado em meio a disputas por reconhecimento e poder. Ao contrário do que apregoam os defensores da arte como algo acima e além de suas circunstâncias, o discurso literário não está livre das injunções de seu tempo e tampouco pode prescindir dele – o que não o faz pior nem melhor do que o resto. Mas é preciso reconhecer que o campo literário brasileiro ainda é extremamente homogêneo. Houve, é claro, uma ampliação de espaços de publicação, seja nas grandes e…

Querido Amigo Gay.

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Querido amigo gay branco de classe média,
Sei que a sua luta por respeito ainda não está completa, mas ultimamente tenho notado que os pequenos avanços conquistados tem feito você se esquecer de outros problemas que ainda precisam ser enfrentados, como a transfobia, o machismo, o racismo e a marginalização de pessoas pobres. Talvez você esteja sendo colocado em uma lógica de mercado, na qual as boates, músicas pop, sites de notícias, blogs de humor e páginas de fofoca, tem feito você reproduzir alguns valores meio chatos. Desta forma esta carta tem o intuito de fazer alguns pedidos, para que você repense algumas ideias suas.
1- Pare imediatamente de dizer "ah! não sou racista, só acho que pessoas negras não são bonitas, tenho culpa de não me sentir atraído por negros?" Você está sendo racista sim! os padrões de beleza norte americanos e eurocentristas são originados de lógicas extremamente racistas e preconceituosas. Por muito tempo a mídia e as revistas só most…

Impacto

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A contagem é deprimente, mas necessária. Lá se vai outro dia, menos um, mais um.
Dias desperdiçados pela insatisfação de viver, em busca de um propósito, uma razão que faça sentido. Onde ficaram os dias luta, os dias de glória?
Onde está o brilho dos meus olhos?
Onde ficaram os sorrisos mais sinceros que almejavam a mudança, o novo, o incrível?
Fácil culpar alguém, algum lugar, algum fator propulsor de decadência, entretanto o que torna tudo isso difícil é encontrar um mero motivo ao qual se agarrar e não desistir. Tão mais fácil absorver a culpa de todos os dias, dos desastre da vida, da falta de sorte, das consequências tão temidas. Dizem os especialistas que a depressão é, em resumo, uma sensação de luto por alguma perda. Um momento que deveria ser passageiro e tornou-se constante. A depressão é perda, a introspecção é busca.
Buscar algo dentro de si que faça sentido em luta ao mundo que tenta te derrubar. E, caído, busco uma maneira de não namorar o arrepio. Sabe porquê eles coloca…

A minha fazenda é melhor que a sua vida.

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O facebook é ainda pior que o orkut porque está na palma da mão. Antes a informação social era cultuada apenas para quem tinha o acesso periódico à internet, mas hoje qualquer pessoa pode fazê-lo, e tudo isso de modo opcional de anonimato.         Quanto mais o tempo passa, mais acredito que a finalidade social de uma tal rede social chegou ao fim, ficou escancarado que as pessoas não têm limites, tampouco bom senso para o que fazem no mundo virtual. A cretinização jogada ao léu é tamanha que avacalha qualquer informação, e de logo as mesmas pessoas disseminam sem ter o mínimo de interesse em saber se aquilo é real ou apenas boato, mito.        Por esse e outros motivos, me reservo ao acompanhamento de contáveis pessoas que, elas sim, espalham informações úteis e até as bobagens são de cunho socialmente significante. Uma diversão é para divertir e não humilhar, uma piada é para rir e não apenas criticar, um jogo é para entreter e não irritar e o seu comentário sobre tudo é par…

É preciso ir embora.

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Ano passado, na festa de despedida de uma amiga, ouvia calada e com atenção seu dolorido discurso sobre o quanto ela se preocupava com a decisão de ir embora. Dizia se preocupar com a saudade antecipada da família, com a tristeza em deixar um amor pra trás e com a dor de se afastar dos amigos. Ela iria embora para Londres com tantas incertezas sobre cá e lá, que o intercambio mais parecia uma sentença ao exílio. Dentre dicas e conselhos reconfortantes de outras amigas, lembro-me de interromper a discussão de forma mais fria e prática do que gostaria: “Quando você estiver dentro daquele avião, olhar pra baixo e ver todas estas dúvidas e desculpas do tamanho de formigas, voltamos a falar. E você vai entrar naquele avião, nem que eu mesma te coloque nele.” Ela engoliu seco e balançou a cabeça afirmativa.
Penso que na época poderia ter adoçado o conselho. Mas fato é que a minha certeza era irredutível, tudo que ela precisava era perspectiva. Olhar a situação de outro ângulo, de cim…

Maria Clara Araújo

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MEU MANIFESTO PELA IGUALDADE: SOBRE SER TRAVESTI E TER SIDO APROVADA EM UMA UNIVERSIDADE FEDERAL.
Hoje, eu tive minha sobrancelha raspada por minha mãe, emocionada por eu ter sido a primeira pessoa de minha família a ser aprovada na Universidade Federal de Pernambuco. O que pra ela é uma realização pessoal de mãe que, diga-se de passagem, sempre me incentivou a estudar, para mim, uma travesti negra, é uma conquista com imenso valor simbólico. Desde muito cedo, o âmbito educacional deixou o mais explicito possível suas dificuldades em compreender as particularidades de minha vida: aos 6 anos, desejando ser a Power Range Rosa , aos 13 usando lenços na cabeça, aos 18 implorando pelo meu nome social e, logo, o reconhecimento de minha identidade de gênero. Nenhuma foi atendida. Nenhuma foi levado a sério como algo que eu, enquanto um ser humano, preciso daquilo para me construir e ter minha subjetividade. Se ontem a professora tirou a boneca de minha mão, hoje o Reitor diz n…

A Melhor Escolha.

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Talvez você nunca tenha parado para pensar, de forma precisa e quieta, os motivos que te leva ao acerto. Se em vez de acertar você errar, e pensar em tentar outra vez, ou outra coisa, ou nem tentar mais. Talvez você nunca tenha parado para pensar.
Sabe, esses dias eu pensei em parar, de forma precisa e quieta, todos os motivos tinham me levado ao erro. Se em vez de errar eu acertar, e parar de tentar outra vez, ou outra coisa, ou nem parar mais. Sabe, esses dias eu pensei em parar.
E os dias são assim, repetidamente diferentes, deixam-nos confusos se é mais um dia ou menos um dia, como se nossa razão de viver fosse ditado por epifania, ou que nosso destino fosse questionado apenas em momentos de deja-vù. Pergunto qual o nosso problema em aceitar nossas próprias escolhas, sem ter medo de ter coragem, de levantar a cabeça e seguir em frente, de recuar e ouvir os conselhos advindos de outrem. Qual seria a razão de tudo isso?
Dizem os especialistas que a filosofia foi criada para o nosso p…

Chandelier

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Talvez o pesadelo tenha sido apenas isso, um pesadelo. Talvez o karma tenha sido apenas pressionado contra carne vertiginosamente. Talvez eu nunca tenha certeza.
É dia novo, ano novo, mundo novo, de novo. Tudo parece exatamente igual, mas sinto que não é. Tem alguma coisa no âmago que me transpira inovação, reação, uma satisfação em dizer-te que estou vivo. Passei apenas a observar e tentar não fazer aquilo que todos dizem que é perda de tempo. Robotizando a inspiração. Entretanto, isto é mais forte que eu. E assim, cá estou.
Esquartejo o silêncio com o riscar em folha, o áspero grafite transcende o branco, as linhas, o contorno do infinito. Vejo uma confusão de cores no branco, como se fosse dar um bloqueio, mas é apenas tudo. Tudo está ali, o conjunto de todas as coisas do universo. As possibilidades surgem no branco. Na folha de papel, no envelope, nas paredes, em todo lugar. Olho o quadro e vejo as coisas se mexerem, já teve essa sensação? De alguma coisa fora do lugar? De algo a…

Carmen

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Fiz novamente o penteado. A roupa está linda e o corpo obedecendo as restrições da dieta, nada de açúcar. Estou tão feliz que ele tenha me ligado para sair, faz tempo que venho de olho nele. Sei que ele já saiu com mais duas de lá da repartição, mas eu sou melhor que elas, as outras... Piranhas. Sempre quando veem algum carinha já caem em cima. Esse batom vai impressionar. Deixa eu ver, agora sim. Lembra do Nilo da Saúde? Elas rodaram o garoto mais que tudo. Coitado. É. Ele é tão calmo e bonzinho, chega dá uma pena o que elas fazem com ele. Nada, só sexo e joga fora. Pois é, acho isso muito nojento. Todas, minha querida, todas elas. Basta ter uma conversa boa e já abrem as pernas. Só não eu e Janine de lá da 32, porque o resto é tudo puta. Não sei como eles ainda caem nessa de amor da vida delas, porque sinceramente viu... Ainda bem que esse, o  Marcelo, é diferente. Ele é todo galã, mas é porque fez jornalismo lá na Católica. Pois é, cheio da grana. Se você ver o carro dele, aí sim…

O Poliglota

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Ameaçado por um comentário, aquele que aguardava ansioso pelas boas novas, ficou apenas a pensar. Conhecedor da vida, do universo, e tudo mais, hoje, doravante Poliglota. Tal qual seu conhecimento linguístico, o mesmo conhecimento de catástrofes estava por acontecer. Permitiu-se então acolher aquilo chamado de mágoa, palavra esta que rotula uma confusão de sensações que culminaram de um bem entendido recado. Talvez seja assim que as pessoas digam que amam, magoando. Artifício prático e preciso no quesito fracionar, sendo possível costurar e dilacerar ao mesmo tempo. Poliglota, outrora também conhecido como otário, colhedor de problemas e ladainhas maníacas sem propósito.
Começou a administrar seus próprios problemas com tanto carinho que decidiu não compartilhar com mais ninguém, ainda que os outros viessem a jogar mais e mais profusões cíclicas de malquerer. Ele, insensível, decidiu então sentir. Ou melhor, refletir piamente aquilo que era transposto, acolheu como um animal abandonad…