Eu Sou Americano ou Apenas California.


 Você é bom em guardar segredos? Vou te contar um dos meus maiores.
 Eu sou americano.
 Nasci no Brasil, em uma cidade do litoral, capital de lugar nenhum, que é comandada politicamente pelos mesmos senhores de engenho de outrora, hoje senhores de usinas. Afinal de contas a modernização acontece e é impossível prever a dimensão do tal progresso.
 Cresci vendo filmes famosos dos anos 80 e 90. Minha infância fora cheia de perguntar próprias do tipo: Por que não temos quintal da frente? Por que não passa um carro do leite na rua? Por que na rua as folhas são sempre verdes, elas não mudam nunca de cor? Por que não neva se já é natal?
 Cresci cheio de ilusões.
 Viver em Lugar-Nenhum foi tão deprimente quanto crescer na periferia. Ser periférico de onde não existe esperança.
 É fácil entender quando se é criança, de que tudo o que você vive é apenas um jogo. Um jogo onde pessoas não jogam porque querem, mas porque são obrigadas. Vivi sempre sozinho, não saia de casa porque não haviam crianças da minha idade, era um geração de 7 anos de diferença, então ficava em casa vendo tv ou lendo. Sim, lendo. Comecei a ler aos dois anos, com 6 já sabia de tanta coisa que já não cabia nos meus porquês.

 Eu sou americano porque me sinto estranho ao clima da minha cidade, sou alérgico ao veraneio comum. Meu corpo foi projetado ao declínio natural da temperatura. Primavera, Verão, Outono, Inverno. 
 Eu sou americano porque meu idioma flui melhor em qualquer outro do que o nativo. Aprecio as variações linguísticas, o inglês, o italiano, o alemão... O som sempre foi melhor recebido assim, não-nativo português.
 Eu sou americano porque o sistema de educação é obsoleto desde que me entendo por cidadão, desde os sete anos de idade quando via meus coleguinhas decorando em vez de aprender, e eu achava um absurdo, passavam de ano porque tinham que passar. No ensino médio apenas piorou. Assuntos impossíveis de assimilar ao cotidiano, tudo muito metafórico, teórico, sem sentido algum. 
 Eu sou americano porque eu me sinto diferente daqui. Não por idolatria alheia ao outro continente, a outra cultura ou outros valores, mas eu nunca acordei um dia sequer e senti que era aqui que eu deveria estar. Minha alma pede algum outro lugar e a América foi meu ponto de referencia. 
 Sei que hoje é difícil você encontrar um lugar seguro, calmo e economicamente convidativo para se morar, não é tão fácil quanto sonhar. Mas aquelas rodovias aguardam meu passeio por elas, os prédios de Nova York que são apenas prédios, os cafés de Chicago que são apenas cafés, o interior do Missouri com o som country e apreciadores da família, são apenas eles, e as belas praias da Califórnia, que são apenas mais praias. Não há alarde aqui, nem desespero, ou qualquer coisa que o grite. Não são OS lugares, mas os lugares.  
 Eu sou americano por acreditar que vou para um lugar melhor. Vou conseguir viver o meu sonho americano de ser escritor, ajudando pessoas como voluntário e criando a minha família maluca. Na tal América, Europa, África ou China. Não importa qual lugar eu irei residir porque o meu sangue é latino, posso trabalhar com qualquer coisa e qualquer lugar; meu coração é brasileiro, sei sorrir para as desavenças do mundo, para as desventuras e para os momentos ruins que podem acontecer, nunca desistir é o que a raça brasileira trás de melhor; e com minha alma americana, poderei sonhar que vou conseguir, vou chegar lá. Vou finalmente acordar no frio da manhã, pegar um café preto, apanhar meu jornal que bateu à porta, sentar por ali mesmo na varanda e apreciar a vizinhança.
 Esse é o meu sonho, pertencer ao meu lugar de origem.



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