Kiwi


 A dormência agarrou as extremidades como se pedissem socorro. Os gelos rodopiavam em sentido anti horário. A respiração era incômoda. A mente vibrava contra o bom senso. "Porque?", eu pensava.

 Não esperava algo assim, não naquele momento. Um ato tão pequeno inundou toda a minha perspectiva.

 Fazia exatamente um mês que eu tive um sonho onde eu estava em um ancoradouro. A neblina não deixava ver muito na baia, o frio era tenaz, e eu segurava um lampião. Um lampião de luz-verde. Sabia que com aquela luz, qualquer um que tentasse atravessar a neblina me veria. Sabia o quanto o pensamento maduro era perspicaz naquelas horas de tormenta. Ouvia o trovejar das incertezas cada vez mais barulhento, a confusão era premissa para algo maior. Vi uma sombra se aproximar, ela vinha do meio das águas, um flutuar quase parando, alguém temia a luz verde. A luz-verde inflamou. "Estou aqui" gritei para a sombra. Ouvi o chacoalhar do barco na água. Me aproximando, dei uns passos, levantei o braço o mais alto que podia. Senti um frio na barriga, os sulcos gelados rodopiavam dentro de mim. Uma sensação ruim. Maré cheia.

 A embarcação atravessou de lado, pude ver exatamente todas as cores daquela vida. E logo um alerta subiu a haste, "Desculpe, pensei que era outra coisa." E seguiu de volta ao desconhecido. Eu gritei muito, gritava e sacudia a luz-verde. Dizia em voz sufocada que você tivesse calma, que parasse e esperasse a tormenta passar, que o dia viria da melhor maneira possível, que era apenas uma tempestade. Não foi o suficiente. Eu não era o suficiente. Me senti tão incapaz. Tão pequeno quanto sempre fui.
 A lanterna furta-fogo pousada ao chão não se importava com a garoa que ameaçou confundir minhas lágrimas. Meus joelhos doíam o peso do corpo, o frio tremia minha carne, o soluço quebrava o sussurro dos ventos. Eu não era porto seguro. Incapaz de suportar o desembarcar. Olhei para trás, vi toda a minha construção portuária, tinha uma vila de pessoas boas, vários marinheiros e piratas, mulheres e crianças temendo o nevoeiro nas casas de firme aspecto, as torres de obervação para as perspectivas futuras, o grande forte onde ficava toda a esperança e vicissitude de uma alma. Meu porto era firme, seguro, impenetrável aos alhures desgostos. E isto não atraia.
 Levantei o corpo na chuva forte. Deixei uma bandeira de cor negra, avisando que ali era hostil. Tomei a luz-verde em punhos e segui para o porto. Onde minha segurança é suficiente para quem sabe o que é viver.

 Um mês deste sonho.
 E ali recebia uma aceno daquela lembrança. Tomei um gole daquela bebida misturada que ameaçava congelar meu cérebro e segui para a noite, tomei algumas dúzias porque a cor me deixava calmo, com o olhar impenetrável, igual ao coração. Porque agora é a vez do capitão dizer que vai e quem fica, e agora tenho o meu próprio tempo, e sempre fará um sol brando, uma noite levemente fria, e quando necessário uma névoa para que ninguém venha tentar me encontrar.
 A luz-verde? Ela continua acesa, enquanto vibrar um pensamento. 




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