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Mostrando postagens de Dezembro, 2013

All The Silence In The Morning.

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Eu estava de volta. Não demorei muito em minha peregrinação, mas foi como uma eternidade. Estar fora daquele lugar, de ter o controle do acaso, de ser o caos difuso... Ah, quanta falta faz o nosso lar. Chegando perto da alameda onde se encontra meu domicílio, já não tive espanto quando vi a desolação, A neve tomava conta, uma fria ventania varria o chão expulsando tudo que passava. Parei em frente aquilo que um dia foi um belo lar, uma construção acabada estava deformada, caída pelas quinas, torta pelo meio, não havia qualquer sinal de vida, acho que faz um tempo. Um lugar nada convidativo. As janelas estavam quebradas, algumas delas arrancadas por arruaceiros, provavelmente. Dei meus primeiros passos, abrindo caminho sobre a neve. Meus pés começaram a afundar, o branco engolia minhas pernas, logo estava cavando meu próprio caminho e nem estava perto da varanda. O vento arranhava meu rosto, não estava preparado para aquilo, vim de momentos ensolarados e amigáveis, isto é total hostil…

Economics

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A picada era necessária, vi agulha penetrando músculo, não doeu, o líquido viscoso e meio leitoso atravessou minha pele vagarosamente. "Você se sentirá melhor", disse ela. Segurei a pompa de algodão com a outra mão, investiguei com o olhar a frestas das mãos. "Não pode ser intravenoso, desculpe", entregou um frasco dizendo: "Tome isso e logo ficará tudo bem". Olhei para o fundo do frasco e li todos os comprimidos, de uma só vez todos desceram garganta a baixo. Meu braço esticado recebia algo relaxante misturado ao soro composto, senti o corpo relaxar, mas a respiração era pressionada. O ar ainda era rarefeito. O éter embebedou as entranhas no primeiro suspiro profundo, fiquei tonto. A vista turvou-se em rodopios incessantes, o sono estava querendo lograr êxito. Apaguei. Senti a consciência voltar ao controle, as memórias materializando-se na minha frente. Vi todos os nossos diálogos, vi as palavras pesadas caindo ao chão, grandes e maciças, mentiras desmem…

Kiwi

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A dormência agarrou as extremidades como se pedissem socorro. Os gelos rodopiavam em sentido anti horário. A respiração era incômoda. A mente vibrava contra o bom senso. "Porque?", eu pensava.
 Não esperava algo assim, não naquele momento. Um ato tão pequeno inundou toda a minha perspectiva.
 Fazia exatamente um mês que eu tive um sonho onde eu estava em um ancoradouro. A neblina não deixava ver muito na baia, o frio era tenaz, e eu segurava um lampião. Um lampião de luz-verde. Sabia que com aquela luz, qualquer um que tentasse atravessar a neblina me veria. Sabia o quanto o pensamento maduro era perspicaz naquelas horas de tormenta. Ouvia o trovejar das incertezas cada vez mais barulhento, a confusão era premissa para algo maior. Vi uma sombra se aproximar, ela vinha do meio das águas, um flutuar quase parando, alguém temia a luz verde. A luz-verde inflamou. "Estou aqui" gritei para a sombra. Ouvi o chacoalhar do barco na água. Me aproximando, dei uns passos, levan…

Ao Meu Lado.

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As pontas da toalha foram enroladas tantas vezes que já não eram retas, o guardanapo de tecido virara origami, os talheres postos e sobrepostos, as taças viradas e embebidas minutos a fio, petiscos dispensados, aguardando apenas o próximo andarilho.   Poucos instantes foram necessários para que alguém sentasse do meu lado. Conversa casual de uns seis a dez minutos e voltava a ficar vazio. Ótimo, assim ninguém vai ficar me alugando para uma idiota participação social. Até que: -Achei que você viria acompanhado. Aquela voz suave e feliz, carregava uma tristeza repentina. Era o tom de uma surpresa magoada. Olhei desconsertado para ela, mirei o assento vazio, tornei meu olhar com a mesma resposta: -Vivemos em um mundo de possibilidades. E ela, com seu terno olhar, respondera:  -A melhor delas é saber que você está aqui.
A alegria foi tanta que atravessou a face em um esbranquiçado sorriso perfeito. Ela tinha uma incrível capacidade de ver o melhor em qualquer situação. O abraço foi calmo …

O Casal

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A cerimônia tardou a acontecer, mas ficou belíssima quando ocorreu. Foi mágico, foi inesquecível, foi uma celebração de uma história.  Eu estava ali com um brilho incomum no olhar, aquele olhar da alegria alheia. Ao vê-los, pomposamente dispostos, eu arrepiei a alma com a compaixão de uma história longa e bem conhecida. A cada degrau que eles desciam com os sorrisos mais abertos, as lágrimas tendiam perecer. Era algo maravilhoso. Uma sensação de infinta bondade, de companheirismo, de acordar todos os dias, ver o sol e a chuva, as noites em claro, os dias em sono, fins de semanas intermináveis, segundas-feiras intermináveis... Tudo isso aos passos diminutos para não fazer feio ao descer da escada que desembocava no salão principal.  A lágrima escorreu o semblante. Tremia as pernas como se fosse eu o escolhido. Eles estavam ali, finalmente ali. Foram vinte anos de história, idas e vindas, problemas, superações, viagens, dias chatos, tanta coisa que parece que foi ontem que eles se conhec…