Sexta Vida em Sétimo Posto

E foi naquela noite de sexta-feira que nos vimos pela última vez.
A chuva castigava o paraíso como revolta de um tempo bom descriminado pelo desdém. Não era tão tarde como o de costume, mas para mim era tarde demais. Andei sem rumo, sem parar, sem pensar em pensar sobre as coisas, os pontos e luzes me guiavam pelo mundo, sem avisos que era certo ficar, sem palavras fortes para que eu fosse, embora, só havia minha própria dúvida, o que alimentou meus demônios tão bastante quanto eles puderam devorá-la. E de volta ao marco zero de número sete, eu sentei ali mesmo, na molhada areia da praia e postei a chorar.
As lágrimas eram almejadas pela chuva que molhava minh'alma, a brisa gélida do mar me aquecia mais que minhas esperanças de um futuro brilhante, copiosamente escorriam as palavras que eu não conseguia pronunciar, era meu momento de desabafo.
Você apareceu ao longe, gritou por mim, disse coisas que só você poderia ter dito, mas de nada adiantou. Fiquei encharcado do marasmo em que me posicionei, precisava de alguma coisa para me agarrar, algo que me forçasse a seguir para qualquer lado que seja, precisava de uma motivação, ímpeto este que vagamente povoa minhas calculadas ações. E em desespero eu agi. Fiquei de pé e encarei o mar revolto, o frio tremia peito e mãos, pulso firme era estremecido por singelas lufadas de vento, respirava fundo entre soluços. Caminhei rente.
Lembro-me que você gritava para que eu não fizesse aquilo, me gritava que não era a solução, mas o grito de confusão que reverberava dentro de mim era maior, não me fez entender as tuas palavras que resgavam as linhas de chuva pesada. A areia mesmo fria e molhada ainda conseguia penetrar entre-dedos, polvilhando os cristais no decorrente. 
A primeira onda veio. Senti a fina camada da manta espumosa engolir meu pisar.
O agressivo mar já aguardava meu corpo, chamando cada vez mais forte e violentamente. Caminhei firme para minha única saída, sem imaginar nada, sem lembrar de rostos, sem acreditar na vida ou na morte, era apenas o frio, a chuva, meu corpo, minha vida. Ouvi o sussurro dos ventos pedindo socorro, era Você, desesperado em própria contenção para não perder-se na chuva que desabava no paraíso. Já com as escuras águas em joelho, me balançando no molhar, vi pela última vez tua forma.
Lembro de cada detalhe de tua feição ígnea de negação e descontrole. Você tentava sair debaixo do quiosque mas seria mortal, a tormenta que abrigou a cidadela era a mesma que me impulsiona ao mar daquela noite. Não havia nenhum telespectador além d'Ele, este que se evaporava e definhava a cada tentativa de salvamento.
Mirei o horizonte, respirei fundo e continuei. Vestido em roupas, despido em espírito. Nada além da busca pelo sincero e íntimo infinito, nada além do meu sentido e razão, nado. Assim que o mar me abraçou em um dragar borbulhante, relaxei os músculos, abri a mente, vi o turvo da superfície se conflitar com o perfurar da chuva, logo fechei os olhos e afundei. O zumbido da mente se fora, o silêncio permaneceu firme, o fluxo marítimo me embalou ao ninar, adormeci do mundo, um sono perpétuo.

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