Ideia.


Peguei a caneca, pousei-a sobre a mesa, logo adicionei o tradicional café preto, forte e amargo. O vapor que sublimava daquela tradição era o que eu mais gostava de tudo aquilo, gosto de sentir o calor do preferido percorrer a face, como em um afago popular. O primeiro gole é como o primeiro beijo em qualquer pessoa.
Sabemos o que fazer, conhecemos os movimentos, mas a expectativa é quase maior que nossa curiosidade em conhecer aquele sabor, com gosto igual a todos os outros, mas unicamente perfeito. Os lábios tocam com cautela, como se temendo a temperatura primária, e depois do primeiro toque o decorrer do movimento é natural, é fácil de desenvolver e aproveitar cada instante.
Entretanto, desta vez foi diferente.
O saboroso amargo engelhou minha face, estava ruim, faltava algo que nunca senti falta. Foi exatamente com aquele gole de café, meu tradicional café, que percebi o que estava acontecendo. Experimentei ainda mais umas duas amargantes e não-engolíveis vezes, mas não dera certo. Fui obrigado ao acrescentar de açúcar. Uma colher de chá, provei, ainda não perfeito, mais uma colher pequena, mexi lentamente as contadas treze vezes e experimentei novamente. Perfeito! O favorito não era mais bem-quisto, faltava-lhe algo, algo que hoje reside aqui dentro, algo que deve ser acompanhado em todos os momentos. Senti falta do doce do afeto, dos esbranquiçados cristais que lembram o brilho do teu olhar.
Vejo hoje que a mudança é positiva, não viciante, mas pomposamente agradável. Algo como tua presença, que é um arremedo de vários medos e coragens, uma duplicata da parte boa e um esboço de algo ruim, uma construção pré modelada que não garante futuro, mas não se basila no passado. Um momento de rápido marasmo que antecede a ação.
O primeiro gole de café sempre é temeroso, por mais coragem de queimar-língua que possa ter. Tudo na primeira vez remete a sensação única de uma primeira vez, algo que o espírito não abriga conhecimento prático por mais de cetenas-de-dezenas de vezes já teorizado. É um momento único que marca a mente, mente a verdade que está tudo bem, constipando as entranhas enquanto a respiração ligeiriza. Por um breve momento o cérebro entorpece, o corpo se guia pela vontade, a assimilação se torna primordial, os estalos nas sinapses se voluntariam no aperfeiçoar do método, na gravação de informações desta nova experiência.
Foi assim naquela noite fria de quente café. Foi assim com a primeira briga, o primeiro voto, a primeira viagem, o primeiro beijo.

Vai ser sempre assim com as primeiras vezes. Construindo novas informações e esticando os conceitos teóricos, vivendo a vida em prosa e polpa, polpando articulados verbetes. Quando foi a ultima vez que você fez algo pela primeira vez?




Comentários

  1. Que maneira mais bonita de descrever o sentimento que temos em experimentar o "velho-novo"!
    E, respondendo sua pergunta, fiz algo pela primeira vez hoje! E não tem coisa melhor, ou tem?

    Barbudinho de mi corazón, tenho orgulho de ti! <3

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