Monalisa


Se passaram alguns dias, o tormento dela abalou tudo e todos, era mero corpo sem alma, alma sem reza, reza sem crença, crença sem esperança, esperança sem fé. Já era sabido que aquilo passaria, todos a confortavam, eles diziam coisas dessas em que se fala pra quem está triste, pra quem não pensa, pra corações partidos.
De longe eu observava.
Nunca fui de opinar, julgar, esconder ou favorecer nada que não fosse apenas meu. Evitei ceticamente dar algo à ela além da rotina, no fundo ela sabia que era o melhor a se fazer, continuar vivendo.
Mas, naquela noite, eu vi algo peculiar. Moedas à destra, vi o corpo padecer. Ela trabalhava como o de costume, mas havia algo diferente, ela estava quieta, seus dedos não esticavam, suas pernas tremiam, a lágrima caia como se tivesse vida própria. Esses traços me lembrou da obra de arte, aquela paradoxal. Monalisa ficou famosa por não saber se sorria ou se chorava, seu aspecto é um sorriso sério, um silêncio cantado, um grito inaudível.
Este aspecto é encontrado em pessoas que sofrem por amor.
Vê-la suportar a dor mais antigas de todas me apertou o peito, na garganta fez-se nó, dó. Lembranças daquela dor vieram a tona por breves momentos, mais de um lustro se passou desde o último sintoma, mas qualquer ser conhece a dor do amor.
Dói, machuca, dilacera, mas você não tem nada. Não tem fome, vontade, sono, nada. Toda a sua vida escorre em prantos, estes copiosos e sem controle. É algo inexplicável, algo empírico e evitado.
Olhei para ela com ternura, ela percebeu e pediu desculpas, dei uma brisa de sorriso, acentei com a cabeça e sussurrei um "tudo bem". Se ela soubesse como dói provavelmente estrangularia o próximo sentimento de amor, tal como eu fiz, e também provavelmente ela seria triste para sempre. Ia subsistir um corpo sem alma, mas gélido, seco e andante. Poderia tornar-se uma cética modeladora de comportamentos, uma burocrata exemplar, mas eu não poderia contar para ninguém que o amor faz isso, em verdade a falta dele.
Disse à ela o que nunca falei pra ninguém, falei que também sabia o que era amar.

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