segunda-feira, 4 de março de 2013

Uvas Verdes

Procurei brilho em teus olhos, mas ao invés de sorrir você continuou estático, com a boca cortada por um meio sorriso, apático. Não eram olhos, eram apenas vidros esféricos, e não era pele úmida, era concreto, talvez gesso, ou quem sabe cimento? Mas não era você. Chamei por teu nome umas dezenas de vezes, ora gritando, ora sussurrando, mas de nada adiantou. Não houve saltos circenses, não houve coachar risonho, não houve eloquentes saudações. Houve silêncio, houve verdade.
Não quero aceitar o fato que você se foi, não mesmo. Tenho a sensação que você ainda vive, em algum lugar. Que um dia vai voltar, me fazer sorrir, pedir por comida, roubar minhas frutas. Não quero ver que tudo está em memória, que não vou ter mais tua companhia, na verdade não sei dizer adeus. Esse é meu problema, mesmo sabendo que um dia tudo se vai, vai pra o tempo passado. Pretérito quase perfeito, não tão perfeito por conta dos porquês. Respiro fundo e uma vez ou outra me pego desentranhando as sementes da tua comida favorita, você lembra que brigávamos como crianças húngaras? Pois é. É disso que eu tenho falta. Tenho falta de tudo que tinha você. Um dia quem sabe lembrarei de tudo sorrindo, um dia quem sabe você retorne, um dia quem sabe não chame o teu nome nos momentos difíceis, um dia quem sabe um dia?

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