Desço


     Passo o ano inteiro lidando com mascarados e justo no carnaval as pessoas priorizam tais vestimentas. Talvez seja por isso que o povo se libera mais, em meros dias de popular folia, se permitem de diversas formas possíveis e inimagináveis. É o carnaval. Época no qual a maioria da população quer apenas curtir bons momentos de música, amigos, familiares e alegria.
     Já tive um carnaval em minha vida e aproveitei tudo que uma boa história de carnaval pode oferecer. Porém, isso não me atrai. Não é do meu feitio ignorar tudo e fingir que nada acontece, que a vida não é sofrida e o trabalho é árduo, não consigo ser como todos. Não consigo vestir uma máscara de aventurança e deixar a solidão de lado, como se ela não fosse minha melhor companhia, como se eu fosse a melhor pessoa do mundo para se ter ao lado.
     Ser cético tem os seus dilemas, suas próprias convicções que detêm o corpo. Para mim o sexo não é coisa popular, e justo o Carnaval que é consumo de 7 pecados capitais, cada um na sua medida e qualificação, deturpa o sentido de viver em alegria, de festejar ao ar livre, toda a festa torna-se um bacanal. São cinco dias de muita loucura e insensatez que darão fios de comentários até o próximo período carnavalesco.
     Não desvalorizo o carnaval, muito pelo contrário. Todas as comemorações servem para desfigurar a realidade onde o indivíduo sofre, e por um breve momento ele torna-se feliz, restaurando assim suas forças e crenças. As festas populares são marcos que indicam que a vida passa. São elas que nos fazem rir e chorar em encontros e trocas empíricas de situações entre pessoas. Nessas festas encontramos todo tipo de gente, boas e ruins, conhecidas e nunca vistas antes. E uma delas pode ser o amor da sua vida, tanto quanto a sua morte absoluta.
     Meus confetes são colagens, não tercem os céus como os dos outros, são pesados, sem cor, tristes como o pierrot. Acredito que não sejam apenas os confetes que sejam sem cor, minha vida é monocromática pelas cicatrizes alheias que saúdam meu peito. Mas, tudo é uma fase e sendo boa ou ruim, logo vai passar. E essas fases são momentos lá dentro de nós que ganham cores na altura da voz. Quem sabe um ano qualquer eu acorde para colorir um carnaval? Nem que seja fora de época, em julho ou novembro, dentro do quarto ou à beira da piscina, tipo com todos os queridos ou apenas eu e você?
     Enquanto a inspiração não vem, levanto a sobrancelha em observância e ouvirei com atento todas as histórias de carnaval, verei todos os casais que só se formam depois desse período, afinal é carnaval e só é válido se estiveres solteiro. Famílias não comemoram carnaval? A graça da festa é ser puto? Algumas coisas nunca compreenderei, bem como as dívidas colossais que surgem em apenas cinco dias de festa, todo ano é assim e nesta repetição eu continuarei a espalhar as coisas sobre um chão de giz.







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