Zephir


     Embora não tenha um milímetro do meu corpo com a culpa que busquei, ainda assim não encontrei razão para que você tivesse aquele diálogo tão informal e eloquente a beira do abismo. Agradeço desde já sua voyer participação em outro dia mais feliz da minha vida, acredito que estamos no número oito desde então.
      Mesmo sendo difícil aturar o fato de sua, ainda, existência, eu fico a mercê de suas nada delicadas aparições.

     "Tire os pés do chão e ponha os pés na vida." Você me disse escorando-se na bancada. Eu ainda olhei duvidando e sem entender fui, aos poucos, cedendo. Fora o que mais me encucou durante todo aquele trajeto. "O que você está fazendo aqui?" Levantei a sobrancelha. "Vim porque você precisa de ajuda." Você me respondeu dando um olhar para aquilo que eu não ousei contestar. "Eu não preciso de ajuda." Retruquei. Você ironicamente me olhou e eu senti que brotaria um sorriso sarcástico e brasal, logo destaquei minha sensatez.
     Entre caprichos e adereços íntimos, foi-se a noite como em um joguete de conversação e carinho, meio tributado por desejos insanos e emblemas de cores salteadas. E mesmo baixando a guarda vagarosamente, mesmo com isso você não ia, não sumia, nem sequer convalescia eu meu contento de não-observação. "Até quando você vai ficar aí?" Perguntei irritando-me. "Até quando você quiser." você me respondera. Respirei fundo e tentei imaginá-lo longe. Abri os olhos e ele continuava ali, parado, como se esperasse alguma coisa. "Não adianta, sou fruto inconsciente da sua mente, esqueceu?." Você me respondera tocando seu indicador em perfuração sutil ao meu ombro, senti naquele momento o calor que ausentava aquele recinto invadir meu corpo, arrepio e outras vontades correram livres por um breve momento.
     Lembro-me que deixei escapar um dizer parecido com "Estou ficando com calor". E então, não o vi mais por ali, até que tudo adormecera, você me puxou o pé e inquieto por sua presença e fuligem. E por mais poucos segundos ouvi você sem dizer uma palavra em troca, apenas ouvi um discurso, monólogo pré-existente de alguém que tinha muito para falar. Falou tanto e tão objetivamente que não precisou atravessar o espelho quando se fora, não precisou  esquivar-se entre as frestas, não teve nenhum aparato. Apenas abriu a porta e se fora.

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