Call Me Back


       Era o ranger da madrugada que me alimentava, a ferrugem me observava, o frio corria pela solta fazendo estremecer corpo e alma. Estava com o telefone na mão, rezando para ter um boa noite de quem quer que fosse e a lua estava sob minha cabeça, amarela, grande, cheia, matando minh'alma com toda a esperança de alguma criatura lembrar de mim.
       As nuvens passavam por mim desejando uma boa noite, mas não eram delas que queria ouvir o sussurrar de atenção. Atentei a ligar para você, mas não poderia correr o risco de jogar anos de terapia no lixo, me contive, agarrei a humilhação com força e engoli toda ela com vários goles de orgulho e medo de ouvir o que não queria, ouvir a verdade.
       Os pensamentos rodavam minha cabeça por todos os lados, querendo motivos e criando teorias. Perdi as contas de quantas vezes li teu nome e número, já nem lembrava quantas vezes repeti para mim mesmo não fazer aquilo, então deixei de sentir as pancadas do telefone na cabeça. Precisava ligar, precisava saber como você estava, com quem estava e o que estava a fazer, mas tudo isso ficou no mundo das ideias, pois o realismo chegou com o sol e logo que o dia clareou, logo que fez secar as sanguinolentas manchas de carência do meu telefone, fui lavar o rosto para começar outro dia normal de trabalho, disfarçando a dor.
       

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